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Se o encontro é efetivo, então sei que ele é efetivo. Se não é, posso me confundir e pensar que ele é efetivo. Como, então, posso saber se estou ou não a confundir? Vejamos se podemos avançar. Se ele é efetivo e eu sei que ele é efetivo, eu tenho a certeza de que ele é efetivo. Sinto-me seguro. Falo aqui da certeza psicológica, ela tem um efeito sobre a minha conduta. Se, por outro lado, o encontro não é efetivo, posso pensar que ele é efetivo e ter a mesma certeza sensitiva de que ele é efetivo. A certeza, assim, não me serve para distinguir quando realmente sei que o encontro é efetivo de quando apenas penso que ele é efetivo. Contudo, a certeza sensitiva serve para algo mais fundamental. Ela serve para que eu não perca a vida, não perca o tempo certo do encontro efetivo. Façamos um paralelo brutal. Estou no meio de uma rua e um ônibus vem violentamente em minha direção. Estou certo que o ônibus vem e que se não fizer nada, morrerei. Não importa se eu sei que o ônibus vem ou se apenas penso saber que ele vem, pois talvez esteja a sonhar. Não estar em condições de decidir entre as duas possibilidades não altera em nada a minha conduta. Em ambos os casos, a certeza me levará à ação. Sobreviverei. Com relação ao encontro, é a mesma coisa. A certeza sensitiva me levará a ele no tempo certo. Se ele não for efetivo, em algum momento a certeza se revelará falsa na sua frente. O que terá perdido? Nada, ou algum tempo talvez. Que importa? Entre perder algum tempo e ter a chance de ganhar todo o tempo, escolho sem pestanejar. Entre a certeza que me leva ao encontro no tempo certo e a dúvida que me faz perder todos os encontros, eu fico com a certeza. Eu a escolho e, por isso, sigo em frente. Mais do que isso. Por escolher a certeza sensitiva, eu posso viver plena e completamente. Só com ela, portanto, eu posso ter um encontro efetivo, pois um encontro que não é pleno e completo, também não é efetivo. Sim, eu definitivamente a escolho. Eu a vivencio.

Comentários

Olga disse…
Tem absoluta certeza do que diz aqui, e pode vislumbrar a extensão das suas palavras??? Não deseja uma releitura e uma outra análise??? Não haverá, no interregno das suas palavras, uma imensa solução de continuidade entre a construção de seus argumentos e o florescer dos fatos???
awks disse…
Continuidade há sim, mas não há absolutamente nada nela que invalide o argumento. Até aonde posso ver, ele é cristalino e me impõe a sua conclusão.
sANdrA fasolo disse…
Como "Viver é Perigoso"!!! lembra de Riobaldo_Filósofo?!
awks disse…
Lembro sim, minha amiga, e como lembro!
Leben disse…
Viver não é perigoso, e nem mesmo inevitável. Viver, tente-se ser necessário. O maior perigo reside na caminhada sem vida. Destarte, os que, na vida vivida efetivamente exauriram-se, têm mais possibilidades de entender a si, do que aqueles que se deixaram perpetrar pelos limbos das ilusões frágeis e duvidosas, recolhendo-se à titubiez. E, a pois, em consonância com tal, que não se tema os percalços do caminho; levante-se do inimaginável, olhe-se (aqui com redundância) profundamente a si, reavalie-se e deixe todas as outras tentativas, de todos os outros caminhos que não o do pasmo anterior, fluirem. Impossibilidade de vida e encontro em um canto? Não se lhe cabe quaisquer ínfimos abalos, pois o mínimo tempo perdido na busca do encontro efetivo, emerge com um surpreendente apoio para ver mais e melhor. Não há perigo em viver...há essência. Um ponto de um breve tempo se foi? Perceber a vida e o que ela representa é entender que o Universo se comporta e conforma (enquanto soma) num tempo imenso. E mais: o Universo, nesse tempo quase tão imprescrutável, é um conjunto de infinitos pontos. Um encontro pleno e completo pode ser efetivo num infinitésimo de tempo; que o valha aqui. Poucos saberão que o tempo é longo...E pouquíssimos ainda compreenderão que, transcender a todo o óbvio que se impõe, é fazer com que, no infinito somatório de todos os infinitésimos de tempo, cada um destes represente e abarque a sensação infinita do encontro efetivo. Ter a certeza da plenitude contínua, dinâmica e pragmática do encontro efetivo que se deu, existe e existirá, em cada instante, ao longo da vida, é soberbo, fantástico, verdadeiramente inadjetivável. E comprometedor...Aqueles que viveram a sensação do todo, num único instante, e os que, a cada instante, podem viver a sensação do todo, devem quedar-se na direção da melhor construção de si, dos outros e do mundo, sem egoísmos, sem subserviências, sem paternalismos denegridores do ser... O que houve antes do encontro e que pode ser utilizado após ele, por exemplo? Noites e dias por sobre livros...A vida segue em frente; cumpre ao humano interpretá-la e, quando cabível, traduzí-la. Interprete-se-lha e traduza...Haja tempo...E a vida, do lado de cá da vida, tenta colocar no inglês, no espanhol, no francês, no grego, no alemão, no russo, no holandês, no italiano, num fragilíssimo(quase inexistente)japonês, e ainda no português, as fortíssimas impressões se dadas. Eis aí, entre muitos outros passos pejados de irreversibilidade, um exemplo de construção efetiva possibilitada pelo encontro permanente, dinâmico e infinito a cada instante. Não há mais tempo perdido; toda a vida é uma incessante descoberta e mergulho de prazer sem fim.
sANdrA fasolo disse…
Sabe leben, tanto seu nick como seu texto me lembraram o lebenswelt (não lembro se se escreve assim) o "mundo da vida" que husserl só lembrou na sua terceira fase de filosofanças, o mundo da vida que heidegger percebeu que fora "esquecido" pelo seu mestre, seu post aponta para isso e lembra também merleau-ponty, lembra mais, lembra Cartas a um Jovem Poeta de Raine Maria Rilke, tem um tom "profético" em tuas palavras, algumas vezes muito cheias de beleza e algumas vezes, desculpe, um pouco confusas para quem lê, pois dá a impressão de que você fala sobre um "instante" e um "encontro" que te são muito particulares e isso soa "estranho" ao leitor do lado de cá. "A sensação do todo", penso, é que é algo fantástico e, como já disse Bergson & tantos outros, irrecuperável para o instante seguinte, e este chega tão rápido que a sensação do todo se esvai com outra sensação, a de que sequer percebemos a chegada e a ´partida de sensação tão fantástica. E isso é a Vida e isso somos nós passando pela Vida. Viver é perigoso quando se faz escolhas movidas por sensações, pelo não-racional porque depois é com o racional que vamos con_viver com tal escolha. A sensação não decide muita coisa, decide? Acho que vou escrever um post no meu blog com o que você escreveu, posso? Como desejas o seu pseudônimo? Pode ser Leben mesmo?
um abraço
Leben disse…
Pode escrever sim, Sandra, será uma honra. Meu pseudônimo pode ser Leben, ou mesmo o meu nome (Olga). A vida está num curso tão impressionante que tenho chegado a pensar em assumir, de modo definitivo como sendo o verdadeiro, o nome com o qual escrevo "literariamente". Tudo em mim são instantes intensos sim...E, exatamente agora, e mais que nunca, meu porto seguro sou eu mesma; tudo o mais é um imenso mar a navegar...Pergunto-me, neste momento, se você e o Eros já leram alguma coisa (afora as daqui) que eu haja escrito, e se leram o que pensaram...Muitas correções? Um pouco de si mesmo (a)? A sensação, em mim, decide muita coisa, e ainda me creio de uma racionalidade rara. Todavia, para uma única e precisa situação da minha vida, a racionalidade não se alia à sensação, e fico em dúvida sobre como proceder com força e ternura. Sim, uma única situação, e escrevo muito sobre ela...Há muito escrevo sobre ela, e nem a sensação extrema, nem a razão infinita, deram-me, neste caso, o que desejo saber...
sANdrA fasolo disse…
Oi, Olga, nossa!_ como és profunda com e sobre a Vida... eu tenho pensado muito sobre sensações e razão, nem sei onde quero chegar com isso mas anda rondando meus pensamentos soltos a "todo" instante. Gostei muito do que escreveste aqui no blog do Eros, tens muita sensibilidade com as palavras e com a vida, senti assim. E fiquei, claro, muito curiosa em saber que situação seria esta a que se referes? Disseste:"há muito escrevo sobre ela, e nem a sensação extrema, nem a razão infinita, deram-me, neste caso, o que desejo saber." Pô, isso está lindo e tem a ver com tanta coisa que ando vivendo. Gostaria muito de ler textos teus, mas, onde posso encontrá-los? abraço grande
Eros, obrigada pelo espaço aqui, acabou que eu e Olga estamos dialogando no teu blog :) quem manda ficar escrevendo pensamentos tão provocativos? beijo
awks disse…
A sensação tanto decide que, se não fosse por ela, entraríamos em loop infinito como os mais sofisticados algoritmos de decisão entram diante de dilemas indecidíveis. No caso dos algoritmos, podemos impedir o loop infinito com soluções arbitrárias e randômicas. No caso humano, fomos agraciados pela natureza com a sensação e a emoção, que, por mais irracionais que possam ser, não são jamais arbitrárias e muito menos randômicas.
sANdrA fasolo disse…
huummm, Eros, mas como vocês estão filosoficamente-unidos para falarem sobre emoções e sensações. Começo a pensar que estão todos apaixonados. :O)
Pela Vida, claro. "Dilemas indecidíveis" significa que são eles paradoxais? Existem respostas sobrando? O problema seria: qual delas leva até aquilo que desejamos. Sabe, aquela voz silenciosa: humm, mas e se eu pegar o caminho que parecendo me conduzir para onde desejo ir, acabar me levando exatamente para onde estou fazendo todo o esforço em não ir porque minhas sensações dizem "isso" & "isso". Aqueles enganos que só são tidos como enganos depois que o caminho já tomado não é reversível. Óh, Vida de Filosofemas! beijo
Leben disse…
Sandra, agradeço-lhe o elogio, mas se há profundidade em mim, esta deriva do que aprendo e busco (sem ser invasiva) nas outras pessoas; estas, e suas ópticas de visão, soam-me como uma imensa riqueza.

O difícil, todavia, neste mundo tão fechado, é conciliar o pouco que é dito, o pouco que se diz, o pouco que se ouve e o pouco que se lhe ouvem. Fundir tais coisas numa só, sem interferir (prejudicialmente ou forçosamente) na velocidade e posição do âmago do ser e de ser, eis aí um verdadeiro milagre!

O que seria da formação do Universo se se pudesse quebrar o Princípio da Incerteza, de Werner Heisenberg?

Preciso das pessoas...Elas são meu substrato. Todavia, precisar, em nenhum momento pode significar usar; longe disto, longe disto, longe disto.

Não há construção na insistência que invade e agride; há crescimento na persistência que valoriza e edifica, nos mínimos detalhes.

Vês "minhas" palavras? Elas derivam de longos momentos em que me tentaram falar e onde tentei ouvir, mesmo, muitas vezes, sem êxito.
O que escrevo nada mais é do que o que foi dado por outrem, de livre e espontânea vontade; não imputei pressões ou confissões através de buscas torpes ou subliminares.

Ouvi, tentei interpretar, filtrei a essência, tentei traduzir, escrevi. Desejo, e muito, a imparcialidade para não colocar muitos dos meus pontos de vista. Uma única opinião sempre me soou tacanho, por mais correta que esta se me esteja.
E mais: do que sinto, como o expresso, muito vem da intensidade que percebi alhures.

Alguém quer me falar? Desejo ouvir. Falar-me-ão sem lógica, sem concatenação de idéias, sem forma? Pouco isso se me dá...Desejo a essência; a essência que sai livre, pois somente assim, liberta, ela pode ser intensa.

Eu preciso do humano. Meu divino é o humano, com todas as conseqüências advindas disso. As palavras...Que são minhas palavras além de minhas palavras? Por que guardar meus pensamentos somente para mim, e desejá-los vitoriosos? E por que viver em função unicamente deles? Não há vitória nem vida num único comprimento de onda...O espectro é contínuo, mesmo que se apresente -grosso modo - em "pacotes" definidos.

Por que eu deveria amar e perceber só o que, diretamente, convém e me convém? Não, não consigo, nunca consegui, nunca conseguirei...E tenho milhares de amores intensos, cada qual à sua forma: as pessoas são as minhas paixões, meus tesouros, quase toda a minha fonte de inspiração.

E concordo, de pleno, com você Sandra: devemos ao Eros, aqui, uma possibilidade de pensar o que provoca e o que nos provoca. E mais, ainda, devo a ele...Quer a prova cabal e inconteste??? O fato de haver lhe conhecido Sandra; é-me uma honra; uma imensa honra.
awks disse…
"Dilema" signifa que há pelo menos duas respostas. Pode haver mais. "Indecidíveis" significa que a razão por mais fundo que vá não consegue se inclinar para uma das respostas possíveis. É quando, então, as emoções e as escolhas livres entram em cena para nos recriar. Como disse, algumas escolhas transcendem a razão, mas podem ser auxiliadas pelas sensações.
Leben disse…
Eros, aceite o óbvio inconteste: quem escreve algo como aquele "BARCO", ao pensar em sementes que se volvem a plantas, exterioriza, antes, a própria luz, do que a de qualquer outra pessoa. Minhas células não se recuperaram das suas palavras...E, sinceramente, não desejam fazê-lo. Meu ser se curva, olha o horizonte tão vasto, e se pergunta: comportará o espetáculo do vôo?
sANdrA fasolo disse…
Olga,
que ser humano lindo que és! eu levei até um susto de ler o que escreveste, a tua paixão pelo ser humano traz implícito o tempo todo que acreditas no ser humano acima de qualquer coisa, és uma pessoa com uma profundidade que espanta! A filosofia não te tirou a esperança e a delicadeza de ser. Achei muito comovente tuas palavras. Feliz por te conhecer. Feliz por ver que uma pessoa como você existe. :)
Tua força me devolveu o ânimo para muitas coisas. Obrigada de coração.
sANdrA fasolo disse…
Eros,
você & Olga são companheiros de filosofemas?
Está belo & filosófico & existencial & pleno de ética esse bate-papo entre tantas flutuações da Vida.
:0)
beijo em alma
awks disse…
sANdrA,

A Olga tem essa pureza pois não se expôs ao veneno dos filósofos de carteirinha. Ela é uma filósofa ao natural. Voa mais longe justamente por não ter os vícios que adquirimos em má companhia, contra os quais agora precisamos lutar com muito esforço.

Não precisamos de filósofos para pensar, mas apenas para dialogar. Pouco me importa se uma pessoa chegou a pensar as mesmas coisas que Bergson ou Heidegger por conta própria ou através deles, mas sim que essa pessoa consiga usar esses pensamentos para pavimentar a estrada da sua própria existência. É algo assim que a Olga tem me ensinado e exemplificado.
awks disse…
Eu tenho ojeriza à ostentação da erudição. Ela em si mesma não é um mal. Mas tê-la como um fim, é. Dos mais perversos, pois revela por detrás a vaidade daquele que a busca. Só aceito eticamente a erudição como um meio não-intencionado.
sANdrA fasolo disse…
sANdrA se surpreende imensamente com Eros & Olga!
Vocês disseram tudo tudo & tudo, a erudição pela vaidade, em geral, se encontra em seres que enterraram a melhor parte de si na curva de um rio e nem precisaram pedir: "enterrem meu coração na curva de um rio". Eu não lamento por ter encontrado pessoas assim, não lamento por mim, mas, sim, pela Filosofia, não merece esse tipo de "energia" circulando sobre si mesma. Fecho contigo e com a Olga, Eros, em tudo que disseram. Vou colocar os diálogos desse post no meu blog de filosofia. Será que fará algum estrago a mais na ética de alguns?
Cruel?, mas assim é a vida, já nos ensinara Rio_baldo, completamente "atravessado" pelas mais diversas espécies de seres humanos em sua travessia de filosofemas. Rio_baldo, que em vez de "enterrar" seu coração na curva de um rio preferiu, com tudo que isso traz em seu fluir, atravessar a Vida.
beijo em alma para ti e para a Olga.
Leben disse…
SANDRA,
quanto mais procurarmos as outras pessoas, tanto mais encontraremos pedacinhos pequeninos de nós mesmos, e isto é um mais caminho para a compreensão de si.
Sem desejar que os outros sejam tão profundos, felizes e potencializados quanto cabem ser, construímos interregnos materiais e temporais e fraqueza ao nosso redor; ao contrário, se nos cercarmos de deuses vivos, entenderemos e vivenciaremos também, no nosso próprio eu, toda a extensão da divindade humana.

Esta música, guardadas as adaptações, lembra um pouco alguns destes filosofemas...


MONTE CASTELO (R.R.)

““Ainda que eu falasse a língua dos homens/
E falasse a língua dos anjos,/
Sem amor eu nada seria./
É só o amor, é só amor/
Que conhece o que é verdade/
O amor é bom, não quer o mal/
Não sente inveja ou se envaidece./

Amor é fogo que arde sem se ver/
É ferida que dói e não se sente/
É um contentamento descontente/
É dor que desatina sem doer./

Ainda que eu falasse a língua dos homens/
E falasse a língua dos anjos,/
Sem amor eu nada seria./
É um não querer mais que bem querer/
É solitário andar por entre a gente/
É um não contentar-se de contente/
É cuidar que se ganha em se perder./

É um estar-se preso por vontade/
É servir a quem vence, o vencedor;/
É um ter por quem nos mata lealdade./
Tão contrário a si é o mesmo amor./

Estou acordado e todos dormem, todos dormem, todos dormem/
Agora vejo em parte/
Mas então veremos face a face./

É só o amor, é só amor/
Que conhece o que é verdade/
Ainda que eu falasse a língua dos homens/
E falasse a língua dos anjos,/
Sem amor eu nada seria./””

Cumpre-nos, destarte, saber que todos, sem exceção, merecem a honra de uma permanente busca por um encontro efetivo.
Um imenso abraço para você e Eros.

Olga
sANdrA disse…
Diálogo publicado nos Exercícios de Contradição.
Espero que curtam o passeio_dialético em reversibilidades entre o Visível & o Invisível.
beijos
http://www.sandrafasolo.blogspot.com/

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