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[159] Amor suicida

O "eu" abaixo *não deve* ser associado ao meu eu empírico. A discussão não é sobre o que esse "eu" vai ou não fazer, o que, em geral, pouco importa, aliás, para a discussão, este "eu" nem precisa existir, nem é a discussão sobre o que ele deveria ou não fazer, o que poderia, em geral, importar, mas não aqui e agora, é antes uma discussão sobre valores, sobre possíveis hierarquias de valores. Sim, o amor pode estar acima da vida, de diversas maneiras, em diferentes situações e contextos. Por que não? "Porque te amo, não nascerás", é o título de um dos últimos livros do Julio Cabrera.   Porque te amo, me matarei. Por que não? Vejamos mais de perto o "eu" que segue essa valoração: 

O dilema existe não por valorizar a vida, por achá-la, em si, um bem; o dilema existe por amá-la, por ela ser, para-mim, um bem. Ela não querer viver implica o meu sofrer. O meu não-sofrer, isto é, o seu viver, implica o seu sofrido viver. Mas o seu sofrido viver implica também o meu sofrer. Ou seja, em qualquer situação, eu sofro. Decidiria a questão apenas escolhendo o menor dos sofrimentos? Escolher o meu menor sofrimento, ela viver, implica em escolher, para ela, o seu maior sofrimento, o seu sofrido viver. Eis o dilema, que não se resolve caso, por um princípio qualquer, eu pudesse decidir pela perspectiva egoísta. O dilema surge pensando apenas em mim mesmo. Não nos esqueçamos: eu a amo. Amar não envolve desejar mais o bem dela que estar com ela. Amar sem desejar estar-com é uma irrealidade psíquica. Mas não estamos nos perguntando pelo que é, mas pelo que deve ser. O bem dela não deveria estar acima do meu, se a amo? E, por um acaso, amo-me menos? Mas eu, por amá-la, sofro de qualquer jeito. Sofro por perceber o seu sofrido viver. Seu não viver me faria sofrer ainda mais, mas ela, ao menos, não mais sofreria. A conclusão quer se impor. E é, por isso que, do fundo do meu sentir, eu a sentencio como má e repugnável. O que isso significa, que lá no fundo valorizo a vida ou que não consigo ir racionalmente contra mim mesmo? A razão consegue ser ainda mais incisiva. O meu sofrer pelo seu vivido sofrer também a faz duplamente sofrer: por me ver sofrer e por se culpar pelo meu sofrer. Quer a razão que eu me responsabilize pelas consequências do meu sofrer. Sou livre para suprimi-las com o meu não-viver, o que, por conseguinte, a libertaria também para dar um fim ao seu sofrido viver. Se a amo verdadeiramente, devo libertá-la de estar, por mim, presa ao seu sofrido viver. Seria, aliás, um modo de dar sentido ao amor que tenho por ela, ou melhor, de ser fiel a ele, de mostrar que ele me importa mais, mais que todo o resto. E só assim ele lhe faria finalmente um verdadeiro bem.

Este "eu" poderia concluir outra coisa? Claro sim, seu argumento, se é que tem algum, não é apodítico, porém, consigo acompanhar a adequação da sua razão ao seu pathos.  

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