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[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[199] Uma implicação metodológica da tese da mente estendida

A tese da mente estendida[1] tem implicações metodológicas[2]. Uma bastante óbvia é que a cognição de um organismo deve ser investigada pela observação do organismo no seu ambiente habitual ou pelo menos em uma emulação do mesmo. Se os processos cognitivos de um organismo se estendem ao seu ambiente, se a cognição é um processo que se estende no tempo e resulta da interação recorrente do organismo com o seu ambiente, formando com ele um sistema dinâmico acoplado, então a investigação adequada da cognição desse organismo não pode ser realizada isolando o organismo do seu ambiente habitual. Se, ao contrário, pensamos que os processos cognitivos de um organismo estão completamente encerrados no cérebro desse organismo, então ele pode ser estudado em situações que eliminam o seu ambiente habitual. Na verdade, nessa perspectiva tradicional, tanto melhor eliminar o ambiente habitual do organismo para se ter um controle maior sobre as variáveis que podem ter alguma influência sobre o compor…

[198] Cegueira indutiva e arbítrio

Perdemos muito se desaprendemos a raciocinar acerca da incerteza. Observando os eventos mais recentes da política nacional, parece que estamos perdendo essa habilidade e colocando em seu lugar o arbítrio. Como popperianos, ficamos cegos para as induções, mas, diferente deles, não mergulhamos no ceticismo diante de induções, passamos antes a avançar ou a recuar conclusões conforme nos convém. Um mesmo conjunto de evidências que, em uma situação, é tomada como suficiente para uma certa conclusão é dito insuficiente em outra situação completamente análoga. Entre uma situação e outra, apenas a ‘convicção’ individual variou. É verdade que o problema não é só epistêmico. Absolutamente desconfiados uns dos outros, nos escondemos atrás de um dedutivismo bocó, e arbitramos em nosso favor tudo que não for absolutamente certo ou provado dedutivamente a partir daí. O que se vê é uma certa perversão da manobra metodológica de Descartes: supomos, se nos apetece, aquilo de que podemos duvidar. Bolha…

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…

[196] Especialização, (ir)relevância, e progresso do conhecimento

"I want to explain why I think that much of the specialisation of contemporary philosophy is not a bad thing after all. In large part my argument depends on the engagement of philosophy with rest of knowledge. I want to defend the specialisation in philosophy that is a consequence of the overlap between a subfield of philosophy and another specialised subject matter, where that may be the history of philosophy itself [...] Our knowledge of the world has grown immeasurably since ancient times, and philosophers would be failing in their role if they did not specialise sufficiently to know enough to be able to point out exactly where lie the limits of our understanding"[1].
Não é incomum a ciência como um todo ser acusada de realizar muitas pesquisas irrelevantes[2]. Serviria de indício para essa acusação o fato de que artigos científicos são muito pouco lidos pelo público em geral. Nessa linha, alguém poderia alegar que a pesquisa acadêmica não atende as demandas sociais e e…

[195] Popper e o Princípio da Racionalidade

Popper é conhecido por ter proposto a falsificabilidade como critério de demarcação entre ciência e não-ciência. Assim, uma teoria com pretensão de cientificidade deve em princípio ser falseável ou testável. Uma teoria é falseável se ela faz proibições, isto é, se ela afirma que determinados eventos não vão ocorrer. Caso ocorram, a teoria é falseada. Na verdade, a falsificação sozinha não é suficiente para separar ciência de não-ciência, como reconhece o próprio Popper. Ela é apenas um critério de demarcação entre sistemas empíricos e não-empíricos. Nada impede que um grupo de cientistas mantenha na prática uma sistema empírico imune ao falseamento, muito embora ele seja, em princípio, falseável. Por exemplo, se esse grupo de cientistas rejeita sistematicamente os relatos da ocorrência de eventos que são proibidos pela teoria, ele age de modo não-crítico e não-científico. Assim, para caracterizar a demarcação adequadamente, Popper se vale também de regras metodológicas, regras que pr…

[194] Notas sobre a ética da crença

Resolvi organizar um pouco as minhas notas sobre um tema do qual a esfera pública, especialmente em tempos de pós-verdade, parece cada vez mais carente, a saber, a ética da crença.
Resumo:

Neste artigo, discuto a norma defendida por Clifford de que somente a crença baseada em indícios suficientes é legítima. Articulo os dois principais argumentos apresentados por Clifford em favor dessa norma, um que apela para o valor instrumental da crença baseada em indícios, e um segundo que apela para a credulidade acarretada e a corrupção da capacidade de evitar o erro se negligenciamos a referida norma. Sustento que o primeiro argumento é insuficiente para estabelecer a norma em geral. Crenças que não são meios para ações ficam de fora do escopo do primeiro argumento. O segundo argumento tem um alcance mais abrangente. Contudo, ele pode ser bloqueado se o agente segue uma norma intelectualista que visa insular as crenças injustificadas do restante da sua vida cognitiva e ativa. É uma questão …

[193] Ter evidência e crer com base na evidência

Pedro tem evidência de que Marcos é culpado de um crime, pois uma testemunha ocular narrou para Pedro como Marcos cometeu um crime. No entanto, Pedro veio a crer que Marcos é culpado de um crime porque tem um ódio irracional e muito intenso de Marcos. Por causa desse ódio, Pedro acaba buscando se convencer, por algum processo de racionalização, de que Marcos é uma pessoa má e criminosa. Bastou ver Marcos apressado, com cara de culpado, para que Pedro se convencesse de que Marcos é culpado de algum crime. Pedro tem evidência de que Marcos é culpado de um crime, mas Pedro não crê que Marcos é culpado de um crime com base nessa evidência. Ele desconfia tanto das pessoas que negligencia o relato da testemunha ocular. Ele crê que Marcos é culpado de um crime com base em motivos que nada têm a ver com a verdade da sua crença e, por isso, não a justificam. Na linguagem dos epistemólogos, Pedro tem justificação proposicional para a crença de que Marcos é culpado de um crime, pois ouviu o rel…

[192] Democracia, voto e falibilismo

É verdade que o indivíduo pode se enganar quanto a quais são os seus reais interesses. E se ele pode se enganar a esse respeito, ele pode tomar decisões que não sejam as melhores para ele. Mas também é preciso tomar muito cuidado quando se pretende dizer que uma pessoa ou toda uma classe de pessoas está enganada quanto aos seus reais interesses. Derrotados em eleições às vezes assumem essa posição quando criticam o voto de alguém ou de toda uma classe de pessoas. Se o crítico não tem uma concepção forte de natureza humana que já envolva o comprometimento com uma série de valores fundamentais, então ele terá de enfrentar uma dificuldade interpretativa que nem sempre é fácil de vencer: para saber se um indivíduo se engana em relação aos seus reais interesses é preciso saber quais valores esse indivíduo tem e que hierarquia esse indivíduo sustenta entre esses valores. Como muitos desses valores e mesmo as relações entre eles são latentes e se apresentam mais em atitudes do que em verbali…

[191] Crença, um bem comum

Quando respeitamos o intelecto dos outros e o nosso próprio, discutimos as crenças dos outros e colocamos as nossas em discussão, é simples. Pensar que respeitar a crença do outro (ou a sua própria) implica em jamais discuti-la parece presumir que o "intelecto" não tem qualquer interesse pela verdade ou talvez que a verdade seja completamente uma função das suas crenças. Ambas as alternativas não são muito plausíveis. Evidente que não somos apenas intelecto, nem que a verdade seja o nosso único interesse. Não temos de ser chatos conosco ou com os outros na discussão das crenças. A discussão cabe em alguns lugares e em alguns momentos. Nem tem de ser gratuita; acerca de alguns tópicos, pode ser que ela demande motivação. As crenças apenas não estão absolutamente imunes à discussão, como se tivéssemos com elas uma mera relação de propriedade, “são minhas e ninguém tem nada a ver com isso”. Não é bem assim se você tem alguma vida em comum e não é bem assim se você tem algum int…

[190] Boas notícias contra o relativismo

O relativismo já conta com raízes longas e profundas em nossa cultura. Há aqueles que o acalentam como uma boa razão para o respeito à diversidade cultural e religiosa. Outros o arrolam como uma razão para que o seu intelecto seja respeitado qualquer que seja a opinião acalentada por ele. Em ambos os casos, a mesma confusão: o relativismo não pode sustentar esses respeitos sem minar o seu próprio chão. Mas a situação pode piorar e ela normalmente se agrava quando “respeito” quer dizer, na mente dessas pessoas, “absoluta imunidade à crítica”. Nesse caso, o problema já não é apenas se valer do relativismo para defender uma ideia que ele é incapaz de defender, mas defender o implausível. Por que deveríamos aceitar práticas abomináveis de uma cultural qualquer? Por que deveríamos nos calar diante de crenças absurdas acalentadas por um sujeito qualquer? Pode o respeito a uma cultura estar acima do respeito às pessoas que compõem essa cultura? Faria mesmo sentido insinuar tal separação? Se…

[189] A ética da crença

"Debunking is fine, but it needs to be accompanied with a cultural sensitivity (as Kahan puts it) for the doubting parents, treating them not as idiots but as people whose concerns and fears are taken seriously" (Helen de Cruz, "How to promote the safety and effectiveness of vaccines")

A Helen está coberta de razão. Pensando na eficácia, confrontar o negacionista com a acusação de que ele é idiota ou irresponsável na busca por evidência, na prática, só fará com que ele se apegue ainda mais a sua posição. Especulo que por trás disso haja algum daqueles mecanismos sutis da vaidade. Eu confesso que frequentemente fraquejo e não consigo ter a paciência recomendada pela Helen, talvez por ser vítima também de algum outro desses mecanismos da vaidade. Mas não só, há indignação também na minha intolerância. De qualquer modo, lendo as ponderações da Helen, fiquei com a pergunta: qual a melhor estratégia não para superar essa ou aquela negação absurda (vacinas em geral não s…

[188] Valores e o ideal de ciência

"I first met questions of philosophy when I came up against the Soviet ideology under Stalin which denied justification to the pursuit of science...under socialism the conception of science pursued for its own sake would disappear, for the interests of scientists would spontaneously turn to problems of the current Five-Year Plan" (Michael Polanyi, The Tacit Dimension, p. 3).

É bem conhecido o caso de banimento de toda uma disciplina, a genética mendeliana, na ex-União Soviética durante o governo de Stalin.  A disciplina foi acusada de ser "reacionária" e os seus pesquisadores foram convidados a proclamar publicamente seus erros por desenvolvê-la. Contudo, a interferência indesejada na ciência não parte apenas do governo, ela pode partir também de empresas que financiam pesquisas, manipulando direta ou indiretamente os seus resultados para que fiquem mais alinhados com os seus interesses de mercado. É igualmente bem conhecido o caso de manipulação de pesquisa cientí…

[187] Aquela opinião que não quer se calar é uma que provavelmente deve se calar

Aquela opinião para a qual você não tem qualquer evidência e que também não é tão óbvia a ponto de ser ininteligível manifestá-la é uma que você também não deve normalmente* manifestar, embora por uma razão distinta. Ou você acha que o seu ouvinte tem alguma razão para aceitá-la, ou acha que não tem. Se acha que tem e como você mesmo não tem nenhuma evidência ou razão para esta opinião, então a única razão para que o seu ouvinte a aceite é que você a aceita. Ou seja, você se representa como alguém muito especial, cujas opiniões devem ser aceitas apenas porque você, você em especial, as aceita. Se você acha que o seu ouvinte não tem alguma razão para aceitar a sua opinião, então por que a manifesta? Por que não a guarda para si? A não ser que seja uma matéria de gosto ou não estejamos em absoluto interessados no que é o caso, o que normalmente* não é ou não deveria ser o caso, não é apropriado manifestar como sendo o caso o que não podemos minimamente garantir como sendo o caso. O outr…

[186] A tese da simetria

A tese da simetria, defendida pelo Programa Forte na Sociologia do Conhecimento, é geralmente vista com maus olhos pela filosofia da ciência. Não sem razão. Conforme ela é lida, considerações normativas sobre o conhecimento parecem ser completamente dispensáveis e despropositadas. Lida assim, a sociologia do conhecimento seria um substituto para a filosofia da ciência. Porém, como irei sugerir, a tese da simetria não precisa ser lida como tendo essa consequência.

O que é a tese da simetria? Grosseiramente, a tese afirma que explicações causais para crenças verdadeiras não evocam tipos de causas distintas daquelas que geralmente são evocadas para explicar crenças falsas. Mais fundamentalmente ainda, a tese sustenta que as explicações causais para as crenças que tomamos como sendo conhecimento não devem fazer referência à verdade ou à falsidade (ainda que suposta) da crença, a razões a favor ou contra essas crenças, nem mesmo à evidência potencialmente disponível a favor ou contra es…

[185] Do peso de ser livre

“Queria liberdade, mais liberdade que tinha. Mas logo pensei que se me visse absolutamente livre dos meus compromissos, livre do meu viver, livre disso tudo que me adere forçosamente à vida, eu teria de defrontar a cada instante com a pergunta: ‘por que viver?’. Então aquiesci, mas não sem revolta e desprezo por isso que somos”.

[184] Ética na discussão

Há uma razão muito simples para não podermos, em uma discussão entre pares, introduzir como premissa uma afirmação que o nosso interlocutor não aceita, a não ser, obviamente, que a fundamentemos em outras afirmações que ele aceita. Mas neste caso, ele aceitará a afirmação ou, pelo menos, se comunga as mesmas regras de inferência, deveria aceitá-la. Se ele não aceita, não podemos de qualquer modo prosseguir a discussão como se ele a aceitasse. A razão para isso é moral. Ao fazê-lo, deixamos de tratar o interlocutor como um par; passamos a representá-lo como alguém cognitivamente inferior ou como tendo menos autoridade epistêmica do que nós e rompemos, assim, com uma assunção mútua, aceita (geralmente implicitamente) no início da discussão, de que éramos e, portanto, nos trataríamos como pares intelectuais. Somente alguém cognitivamente inferior ou de menor autoridade epistêmica se encontra na situação de ter a obrigação epistêmica de aceitar de alguém cognitivamente superior e de maior…

[183] Uma utilidade filosófica

Colocar os pingos nos "is" da utilidade e discriminar as utilidades é um serviço prestado pela filosofia. Eu realmente não entendo o que alguém quer dizer quando afirma que a filosofia é inútil. A afirmação, se verdadeira, é completamente desinteressante e óbvia. Se informativa e substancial, é falsa. Na arena pública e mais superficial, assim solta, chega a ser uma alegação prejudicial.

[181] Da onipresença do Regresso

Eu não preciso saber que sei para saber; se precisasse, teria de enfrentar um regresso. Pois para saber que sei, teria também de saber que sei que sei e assim por diante. Porém, se eu posso saber sem saber que sei, eu não posso igualmente enfrentar o regresso que questiona que sei. A única saída parece ser: se eu sei, então eu sei que sei. Objetivamente, isto parece ser verdadeiro, mas aonde nos leva? A lugar algum, pois se eu não sei que sei, então não sei. E o regresso outra vez aparece espreitando na pergunta: o que é o caso? Que você sabe ou que você não sabe? Se você sabe, então você sabe que sabe que sabe...Mas se não sabe, então você não sabe que sabe...Em todo caso, se te serve de consolo, uma coisa é certa: ou você sabe, ou você não sabe. E se você sabe, então você sabe, ainda que não saiba disto.