Pular para o conteúdo principal

[8]

Hábitos de pensamento são esculpidos pela cultura?

Nisbett selecionou dois grupos de pessoas, um composto por americanos e outro por chineses. Ela apresenteu a esses dois grupos, simultaneamente, o resultado de duas pesquisas, ambas inventadas, mas este fato não era conhecido pelos indivíduos dos grupos: uma pesquisa afirmava que as pessoas que viveram mais que uma determinada idade tinham comido peixe e aves e uma segunda dizia que alimentar-se apenas de peixes e de aves era prejudicial.

Diante das duas pesquisas em tensão, os americanos tenderam a radicalizar a sua inclinação em favor de uma delas. Os que achavam que a primeira era correta, diante da oposição da segunda, inclinavam-se com mais intensidade ainda em favor da primeira e o mesmo ocorria com aqueles que se inclinaram em favor da segunda. Já os chineses tiverem, em geral, um comportamento bem diferenciado. A maioria deles disse que nem a primeira, nem a segunda pesquisa estariam completamente corretas, mas que a verdade estaria em um meio termo.

É interessante notar que ambas as pesquisas inventadas poderiam ser simultaneamente verdadeiras. Talvez as pessoas que viveram acima da idade X e comiam aves e peixes também faziam a ingestão de outras coisas que compensariam os malefícios da ingestão de aves e peixes. Penso que seria mais interessante se Nisbett tivesse apresentado resultados de pesquisas realmente contraditórias.

No plano moral, a radicalização diante da oposição pode estar ligada ao desejo de estar correto, vaidade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[160] O valor da vida

Uma vida feliz pode não ter valor algum.  Este é um julgamento que podemos fazer externamente. Eu posso, de fora, olhar a vida de outra pessoa, reconhecer uma certa abundância de felicidade, de bem-estar, mas negar valor a esta vida, negar que seja uma vida louvável de ser vivida, o que não implica que não seja aceitável que seja vivida. Poderia alguém, no entanto, fazer o mesmo julgamento a respeito da sua própria vida? Acho que não. Pode realmente alguém reconhecer a sua vida como, no geral, feliz sem reconhecer, ao mesmo tempo, que ela tenha valor? Mesmo alguém que tenha muitos prazeres, mais prazeres que sofrimentos, se esta pessoa não vê o viver desses prazeres como algo louvável de ser vivido, ele não reconhecerá a sua vida como uma vida feliz. Ele necessariamente sentirá uma falta ou ausência que o afasta da vida feliz.  A incógnita que carregamos em nossos corações é que não temos por certo esse ponto arquimediano a partir do qual poderíamos julgar o valor de nossas vidas. Gos...