Pular para o conteúdo principal

[49]

Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte há uma bule chinês girando em torno do sol em uma órbita elíptica, ninguém estaria apto a refutar a minha afirmação desde que eu fosse cuidadoso o bastante e acrescentasse que o bule é muito pequeno para ser revelado pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se eu seguisse adiante e disesse que, visto que a minha afirmação não pode ser refutada, duvidar dela seria uma presunção intolerável por parte da razão humana, então dever-se-ia naturalmente pensar de mim que falo um contra-senso. Se, no entanto, a existência desse bule fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada a cada domingo, e implantada na mente das crianças na escola, então a hesitação em acreditar na sua existência seria uma marca de excentricidade e legitimaria chamar, sobre o incrédulo, a atenção do psiquiatra em uma era iluminada e a do Inquisitor em um tempo passado. (Russell).

Wittgenstein também trata, em Da Certeza, de asserções que são indubitáveis. Pode nos parecer, e de fato nos parece, que a asserção sobre a existência do bule é perfeitamente dubitável. Mas isso só ocorre em virtude do fato de que, em nossa visão de mundo, tal asserção é marginal. Fosse ela central, teríamos justamente a reação apontada por Russell diante daqueles que dela duvidassem. Seria estranho, chocante ou mesmo ininteligível. Se alguém perguntasse pelo seu nome e, após obter a resposta, retrucasse "como você sabe?", você certamente não teria idéia do que responder; balançaria os ombros em sinal de incompreensão. Em nossa visão de mundo, não parece ser possível que alguém não saiba como se chama, isto é, como é chamado e não necessariamente o seu nome de registro. Isso não significa que não possamos forjar um quadro para a inteligibilidade desta dúvida. Suponhamos que você tenha sofrido um golpe na cabeça e acordado com profunda amnésia. Algumas pessoas chegam e lhe chamam de 'Marcos', outras, de 'Antônio'. Neste cenário, faz sentido perguntar "como você sabe qual é o seu nome?", se supormos que uma pessoa tem apenas um nome. Porém, se lhe perguntam "como você é chamado?" e, diante da sua resposta, "'Marcos' por alguns e 'Antônio', por outros", continuaria a não fazer sentido se insistissem em perguntar "como você sabe?". Em verdade, se forçarmos um pouco mais, conseguiremos. Se você, em virtude do golpe, passa a ter também amnésia de memórias recentes, de curto prazo, então fará todo o sentido perguntar "como sabe que é chamado de 'Marcos' por alguns e de 'Antônio' por outros?", pois não parece que você esteja em condições de saber tal coisa. Temos aqui um quadro de referência para tornar esta dúvida inteligível.

Mas fica aqui a lição de Russell: contra hábitos de crença implantados pela educação e pela sacralidade, é preciso muito esforço de racionalização. Nossos hábitos de pensamentos fixam o horizonte de inteligibilidade. Por sorte, esses horizontes são móveis, mas demandam esforço e motivação. Sim, uma motivação. Mesmo que um hábito esteja baseado em uma crença falsa, ele é resistente e demanda uma boa razão para a sua remoção. A natureza humana é assim, repleta de parcimônia.

Comentários

Que belo texto, Eros.

Tem notícias da Olga?

beijos procês
sANdrA
Maria Helena disse…
Você acredita, enfim, no poder da razão, meu querido Iluminista! ;)

Adorei seu texto, fiquei curiosíssima com o Russell e com o Witgenstein. Quando o texto é bom ele nos estimula a continuar.

Beijocas,

MH
Eros disse…
Confiar cegamente na razão é também um ato de fé, tão pouco desculpável quanto crer no bule chinês. Mas a gente crê.

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...

[201] A ética da crença

Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...