Existe um registro de escrita ou um gênero literário mais apropriado para a filosofia? Claro que uma resposta a esta questão pressupõe um entendimento prévio do que seja a própria filosofia. A questão, assim, é meta-filosófica. Antes eu pensava que a filosofia era uma atividade puramente conceitual e não-empírica, filosofar é aventurar-se em possibilidades conceituais, freqüentemente, em inusitadas possibilidades, quando há a criação de novos conceitos ou mesmo até de toda uma linguagem. O filósofo é alguém que anseia por uma compreensão cada vez mais ampla da sua experiência de mundo e a compreensão que ele erige é essencialmente mediada por conceitos. No entanto, entender a filosofia como uma atividade conceitual é bastante restritivo, ainda mais se tivermos em mente apenas os conceitos verbais. Primeiro por enjaular a filosofia no cárcere lógico próprio da estrutura conceitual, segundo por não refletir todas as possibilidades reais que temos para pensar a própria experiência do mundo. Embora seja bastante controverso, não pensamos apenas por ou através da linguagem. Também pensamos visualmente. Não à toa Cabrera vem defendendo o cinema como uma forma positiva de filosofar e não meramente como uma ilustração de teses filosóficas. As imagens cinematográficas, assim como o pensamento visual, captam e articulam elementos afetivos da nossa existência que não são acessíveis por conceitos meramente verbais ou o são de uma maneira empobrecida. Assim, se pensarmos a filosofia de uma maneira mais larga, como uma atividade de pensar sobre a existência e a experiência de mundo, englobando aqui qualquer tipo de pensamento compreensivo, que alargue o nosso horizonte, então não pode haver restrição estilística ou de gênero ao filosofar, muito menos podemos restringir a filosofia à linguagem escrita.
Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.
Comentários