Pular para o conteúdo principal

[95] Eu

Mesmo conceitos vazios ou quase-vazios servem para alguma coisa. Não falo obviamente do vazio da matemática que tem uma função muito bem definida na teoria dos conjuntos. Falo do 'Eu', conceito tão vazio quanto o zero à esquerda. Digo 'vazio' pela pouca ou mesmo nada de informação que ele carrega. Quando escutamos alguém dizer 'Eu fui ontem na praça do Expedicionário', ainda que o falante nos seja um completo desconhecido, identificamos a referência do 'Eu' como sendo a pessoa que profere a frase. Nada mais sabemos, nenhuma outra informação é obtida, podemos desconhecer o caráter desse sujeito por completo, ele pode ser para mim um completo desconhecido. O 'Eu', assim, me dá apenas a informação categorial de que a sua referência, identificada apenas no ato de proferimento, é um agente ou uma pessoa. Mesmo quando o 'Eu' é avaliado na perspectiva da primeira pessoa, mesmo quando eu uso o 'Eu' para falar algo de mim mesmo, ainda aqui o 'Eu' é usado sem pressupor qualquer informação sobre a minha pessoa. Posso acordar com uma amnésia completa e ainda assim usar o 'Eu' para coordenar as minha ações, por exemplo, para relatar o meu estado: 'Eu não sei quem eu sou'. 'Eu' aí se refere a mim e quem sou eu? Não sei, nem preciso saber para estar em condições de usar o conceito 'Eu' adequadamente. 'Eu' ali apenas localiza um indivíduo do mundo como o agente da ação, sem nada pressupor ou desvelar sobre esse indivíduo, a não ser que ele tem as características de um agente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[201] A ética da crença

Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...