Pular para o conteúdo principal

[98] Definição matemática

Uma definição matemática de uma entidade é impredicativa (impredicative) se ela faz referência a um conjunto que contém a entidade definida. Isso não é problemático quando lidamos com conjuntos finitos. A definição do sujeito mais alto de uma sala é impredicativa, pois ela faz referência ao conjunto das pessoas na sala, o qual contém como elemento o sujeito mais alto da sala. Há uma certa circularidade na definição, pois a entidade definida é pressuposta ou referenciada por meio do conjunto que a contém.

A situação não é tão pacífica quando a definição impredicativa faz referência a conjuntos infinitos. É o caso da definição de supremum. Seja X um conjunto, supX é o menor elemento maior que todos os elementos de X. Para definir supX, primeiro identificamos o conjunto de todos os elementos que servem de limite superior a X, isto é, qualquer elemento deste conjunto é maior ou igual que todos os elementos de X. Então, se s=supX, então s deve satisfazer: para todo x E X, x<=s. Essa condição apenas não identifica uma única entidade. Podemos chamar de A o conjunto dos elementos que satisfazem essa condição. Este conjunto pode ser infinito. Com uma nova condição, que agora identifica o menor elemento de A, obtemos a definição de supX. Se um s' satisfaz a primeira condição, isto é, se ele é um elemento de A, então s <= s'. Por meio dessas duas condições, definimos a entidade supX, que, se exite, é única. A definição é impredicativa por fazer referência a um conjunto, no caso, o conjunto dos limites superiores de X, o qual contém a própria entidade definida.

Realistas (Gödel) não vêem problema neste tipo de definição, pois eles concebem a definição mais como uma descrição, sendo assim, a circularidade não é viciosa. O conjunto que contém a entidade definida é visto como um instrumento descritivo para se referir a várias entidades abstratas que existem independentemente da mente. Construtivistas (Poincaré), por outro lado, por conceberem a definição matemática de uma entidade como a operação que constitui e dá existência a essa entidade, são resistentes à definição impredicativa, pois julgam a sua circularidade como viciosa, uma vez que ela pressupõe a existência da entidade que está se tentando definir e constituir.

Construtivistas, por um lado, têm a seu favor o fato de que definições impredicativas são mais sujeitas a paradoxos, como é o caso do famoso paradoxo de Russell. A definição do conjunto de todos os conjuntos que não são elementos de si mesmos é impredicativa e gera um paradoxo. Se esse conjunto não é elemento de si mesmo, então ele deveria ser. Se ele é elemento de si mesmo, então ele não deveria. Por outro lado, a análise numérica e diversos ramos da matemática dificilmente passam sem a definição de Supremum. Exigir que se faça ampla revisão da matemática com base em assunções filosóficas é excessivo.

Comentários

Luciano Gomes disse…
Interessante.

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...

[201] A ética da crença

Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...