A vida sempre derrota a filosofia, por mais inventiva e contundente que esta última seja. O filósofo gera razões para dúvidas (Hume), cria gênios malignos (Descartes), mas o corpo crédulo do filósofo resiste crendo. O filósofo cria éticas negativas (Cabrera), desnuda o desvalor da vida, pinta em tons cinzas a nossa miséria (Schopenhauer), o absurdo de existir (Camus), mas o corpo deste mesmo filósofo apossa-se dele e reluta em viver. Na verdade, é o corpo que sempre derrota a filosofia, que invade truculento e irracional a arena da argumentação. Ainda mais fatal é o fato de ser sempre dele a palavra final. O que nos levanta a dúvida quanto à eficácia da filosofia. Pontualmente, ela pode ter alguma, tornando uns e outros vegetarianos, etílicos moderados etc. No entanto, somente o faz porque o corpo da à razão/filosofia uma pequena liberdade de manobra em alguns de seus meandros. Em outras regiões, a balbúrdia filosófica é simplesmente inaudita ao corpo. Algumas coisas a gente, o eu racional, o eu filosófico, decide, outras não e quem decide aquilo que a gente pode ou não decidir é o corpo. Por que, então, exercitar a filosofia se ela faz tão pouco? Tenho mesmo de ter alguma razão para exercitá-la? O corpo tem sede de curiosidade, alguns mais que outros. Estes últimos não têm como se furtar ao filosofar. São corpos paradoxais, é verdade, mas nem por isso menos corpos.
Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.
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