Pular para o conteúdo principal

[123] Diálogos, Gênero textual e filosofia

Quando ainda estava na graduação de filosofia, perguntei certa vez a um
professor por que um diálogo não poderia ser apresentado como um trabalho
acadêmico ou mesmo como uma dissertação. Ele me respondeu que um diálogo
não teria o caráter científico que se espera de um trabalho
acadêmico. Até hoje não consegui engolir esta resposta. Por que diabos a
filosofia, enquanto gênero literário, se aproximou do texto científico,
se identificou com ele e não mais se distinguiu dele? O fato de a
filosofia ter primordialmente a verdade como meta, assim como a ciência,
não me parece suficiente para justificar a adoção dos mesmos gêneros
literários. A verdade se aborda de diferentes maneiras. Pode-se
expressar a verdade de diferentes maneiras. As ciências particulares tem
os seus modos próprios de expressar os resultados das suas pesquisas,
consoante, aliás, com os seus métodos de abordar a verdade. Não há, em
princípio, qualquer razão para que a filosofia se limite a estes
modos. Sendo a filosofia a ciência mais geral e mais conceitual, tem ela
a prerrogativa de justamente testar novos modos de expressar os
resultados das suas pesquisas. Há mais uma motivação substancial aqui:
tendo a verdade por meta, em um sentido amplo, não apenas a sua obtenção
está em jogo, em um sentido positivo, afirmativo, mas também a sua
compreensão. A compreensão não é uma propriedade que depende apenas da
verdade, ela depende em muito do modo como a verdade é articulada e
expressa. O que justifica a filosofia tentar abordá-la textualmente não
só de uma única maneira. Isso não significa que não haja limitações. A
literatura não é limitada pela meta de obter a verdade. A filosofia é. A
filosofia não pode sacrificar a obtenção da verdade para saciar demandas
líricas ou estéticas. Esta é uma restrição razoável para a
filosofia. Mas ela não é suficiente para podar os ensaios e os diálogos
como meios legítimos de expressar o resultado de uma pesquisa séria. Se
o custo de voltarmos a aceitar diálogos e ensaios como meios legítimos
de expressão filosófica é parecer aos cientistas menos científicos,
tanto melhor para a filosofia.

Alguém dizer que um diálogo não pode ser aceito como trabalho acadêmico
por não ser tão sério quanto um artigo é ainda pior. Certamente quem
afirma tal coisa nunca tentou escrever um diálogo. Um bom diálogo é
muito mais difícil de se escrever que um bom artigo e exige um
amadurecimento reflexivo sobre o assunto abordado incomparavelmente
maior. Berkeley não escreveu os Três Diálogos Entre Hylas e Philonous
antes de escrever O Tratado Sobre o Conhecimento Humano. Nem o poderia
de modo satisfatório. O diálogo justamente só é possível quando a
compreensão da verdade ou do assunto tratado é suficientemente elevada
para lhe permitir a abordagem dialógica e dialética. O tipo de passear e
caminhar sobre o tema é diverso; no caso do diálogo, pressupõe-se uma
certa visão cristalina do todo, da paisagem total que é dispensável ou
não causa tanto prejuízo no caso do artigo.

Soa-me como um assassinato filosófico não aceitar de um aluno um diálogo
como um trabalho acadêmico sério, se bem feito, é claro, se demonstrando
uma longa e reflexiva familiaridade com o assunto abordado; este
assassinato toma a dimensão de um crime hediondo se o aluno, além de não
ter o trabalho aceito, é reprovado e ridicularizado por fazê-lo. Não há
desculpas para quem, tendo em suas mãos o poder de fomentar o filosofar,
faz um mau uso deste poder, estrangulando o filosofar quando deveria
lhe dar a vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...

[201] A ética da crença

Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...