Pular para o conteúdo principal

[126] Percepção, Alucinação e Ceticismo

Como ensinamos o faz de conta para um pessoa? Ensinamos o faz de conta
mostrando para a pessoa que ela não deve atribuir os predicados "é
verdadeiro" e "é falso" àquilo que ela diz. Isso que ela diz sem
interpretá-lo como verdadeiro ou falso é o que constitui o discurso faz
de conta. De qualquer modo, o discurso faz de conta é parasita do
discurso assertivo. Não há como ensinar o faz de conta antes de ensinar
como asseverar, como dizer a verdade ou a falsidade. O uso primário da
linguagem é apofântico, assertivo.

De maneira semelhante, a alucinação é parasitária da percepção. A
percepção só ocorre quando há, de fato, o objeto da percepção. Um
sujeito vê uma estante se há diante dele uma estante e a sua visão está
funcionando adequadamente, de outro modo, ele estaria alucinando ou
tendo uma ilusão. Quando o sujeito tem a alucinação de uma estante, ele
não tem diante de si uma estante. Ele tem a experiência de ver uma
estante. Esse é o máximo que podemos ir ao descrever a experiência
alucinatória: podemos dizer que o sujeito tem a experiência de x, onde x
é aquilo que, ao ver, o sujeito teria esta experiência. Mas o sujeito
não vê x quando alucina x, pois não há qualquer x para ele ver nas
imediações.

Não há como perguntar o que o sujeito vê, no caso da alucinação, como
tendo comprometimento existencial? A questão é se é necessário. Dado o
que entendemos da experiência perceptiva e da alucinação, precisamos
fazer a pergunta neste sentido? Parece que não.

O critério para dizer que eu vejo x é que eu tenha a experiência de x,
mas o critério para dizer que S vê x é que, além de ter a experiência de
ver x, x esteja de fato diante de S. O critério para dizer que eu
alucino x é que eu tenha a experiência de x, mas não há nenhum x diante
de mim. E novamente o critério para dizer que S alucina x é que ele tem
a experiência x, mas não há um objeto x diante de S. Tudo isto entendido
em condições normais de observação, isto é, olhos abertos, iluminação
razoável, o sujeito não é cego etc. Repare que não há como estabelecer
que alguém está alucinando a não ser que tenhamos uma percepção verídica
da situação em que este alguém se encontra e possamos verificar que ela
não tem x diante de si. Uma pessoa não tem como saber se ela está
alucinando em virtude da sua própria experiência: ou ela tem uma razão
ulterior para pensar que pode estar alucinando, i.e., tomou LSD, ou ela
se baseia no testemunho de terceiros, perguntando se há, de fato, x
adiante ou se ela está apenas tendo a experiência de x.

Não temos como caracterizar o conteúdo da experiência de x, no caso de
uma alucinação, a não ser nos remetendo à experiência perceptiva de x.
Por redução ao absurdo: vamos supor que, ao alucinar y, o sujeito tem y
diante de si. y agora é um objeto não-físico. De maneira semelhante, ao
perceber y, o sujeito tem y diante de si. Em ambos os casos, o sujeito
também tem a experiência de y. Ora, não há qualquer diferença entre
alucinar y e perceber y. Qualquer estado de coisas que me faça pensar
que estou a perceber y também me faz pensar que estou a alucinar
y. Sendo assim, alucinar e perceber indicam o mesmo ato consciente. Se
não há qualquer distinção entre alucinar e perceber, como casos de
alucinação puderam nos motivar a pensar que y não é um objeto físico?
Casos de percepção também deveria nos motivar a pensar a mesma
coisa. Mas, se é assim, a que se está a referir por "objeto físico"?
Parece que y não está sendo contrastado a nada.

O ceticismo que se pode levantar, portanto, não é de primeira ordem, mas
de segunda, e na primeira pessoa. Como o critério para dizer que eu vejo
que x depende apenas da experiência de ver x, sem me basear no testemunho
alheio, eu não tenho como distinguir o meu ver x do meu alucinar x. Se o
cético conseguir barrar as minhas razões extras, tirar a legitimidade do
testemunho de terceiros, talvez então se consiga levantar o ceticismo
geral quando a não saber se estou a alucinar ou a perceber. Mas perceber
e alucinar, ainda assim são distintos. Mesmo que eu não saiba se estou a
perceber, se estou a perceber x, x está diante de mim. Mesmo que eu não
sabia se estou a alucinar, se estou a alucinar x, x não está diante de
mim.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...

[201] A ética da crença

Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...