Perdemos muito se desaprendemos a raciocinar acerca da incerteza. Observando os eventos mais recentes da política nacional, parece que estamos perdendo essa habilidade e colocando em seu lugar o arbítrio. Como popperianos, ficamos cegos para as induções, mas, diferente deles, não mergulhamos no ceticismo diante de induções, passamos antes a avançar ou a recuar conclusões conforme nos convém. Um mesmo conjunto de evidências que, em uma situação, é tomada como suficiente para uma certa conclusão é dito insuficiente em outra situação completamente análoga. Entre uma situação e outra, apenas a ‘convicção’ individual variou. É verdade que o problema não é só epistêmico. Absolutamente desconfiados uns dos outros, nos escondemos atrás de um dedutivismo bocó, e arbitramos em nosso favor tudo que não for absolutamente certo ou provado dedutivamente a partir daí. O que se vê é uma certa perversão da manobra metodológica de Descartes: supomos, se nos apetece, aquilo de que podemos duvidar. Bolhas e guetos em franca tensão são assim formados e erguidos. O frenesi delirante e fanático toma conta de alguns e os leva a arbitrar até o que é absolutamente certo, cortando então os últimos laços que nos mantinham atados. Fora do tecido social comum arranjado pela prática longa e duramente conquistada de oferecer e receber razões, o indivíduo isolado e desconfiado manifesta algo muito aquém da racionalidade. O desfecho é imprevisível a partir da posição intencional.
Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.
Comentários