Pular para o conteúdo principal

[203] Filósofas e Filosófos, incomodem!

Abaixo, o discurso de formatura como paraninfo da turma de 2022. Mais uma vez, agradeço aos formando(a)s pelo convite.

 

Em primeiro lugar, gostaria de registrar que fiquei muito feliz e me senti muito honrado por ter sido escolhido paraninfo desta turma. Também gostaria de saudar as suas famílias, amigas e amigos, companheiros e companheiras, sem os quais esta jornada, que exige tanto tempo e dedicação, seria inviável. O afeto dos mais próximos é o que fundamentalmente nos move adiante. Não somos quase nada sozinhos. Diria que o entorno afetivo de cada um de vocês participa também da conquista intelectual e social que a formação de vocês representa e merece, portanto, o nosso reconhecimento e aplausos.  

A educação transforma e eu não tenho dúvida de que hoje vocês, formandas e formandos da turma de filosofia de 2022, são pessoas bem diferentes daquelas que ingressaram no curso de filosofia alguns anos atrás. A educação filosófica transforma de um modo bem peculiar. Ao buscar, como disse Sellars, "entender como as coisas, no mais amplo sentido possível do termo, estão conectadas no sentido mais amplo possível do termo", a filosofia educa a nossa atenção para notar suposições, conexões e complexidades onde achávamos que havia apenas simples obviedades. Descobrirmos e desbravamos mundos inteiros que passavam despercebidos nas familiaridades que nos cercam. Aprendemos a desenterrar pressupostos e preconceitos que se escondem nos nossos hábitos herdados de pensar. E é por meio dessas descobertas, das possibilidades que elas encerram, que a filosofia nos ajuda também a ampliar o nosso escopo de ação, a intensificar a nossa liberdade. "Toda a aquisição de conhecimento é um alargamento do Eu", disse Russell. Transformados em outras pessoas, agora com atenção filosófica aguçada e afiada, vocês naturalmente transformarão também a sociedade. "O espírito característico da filosofia, se muitos o cultivarem cuidadosamente," disse Hume, "não poderá deixar de se difundir gradualmente por toda a sociedade e conferir uma similar exatidão a todo ofício e vocação".

Não há dúvida de que o nosso país, a nossa sociedade, precisa mais do que nunca da filosofia. Sócrates exortava os seus concidadãos a conhecerem a si mesmos, ele dizia que uma vida não-examinada não é digna de ser vivida. O momento que vivemos demanda uma radicalização do ensinamento socrático. Não é apenas o indivíduo, mas sobretudo a sociedade que precisa se examinar. Uma sociedade que tem dificuldade de enxergar o valor do conhecimento é uma sociedade que não cuida de si mesma e, no limite, deixa de amar a si mesma. A filósofa bell hooks me ensinou que não há amor onde há abuso e desrespeito. Ora, quer desrespeito maior que o cultivo da ignorância que inviabiliza o cuidado adequado de si? Precisamos exemplificar e emanar a cada respiração o amor pelo conhecimento. A reflexão que amplia a consciência que a sociedade tem de si mesma precisa ser levada a todos os cantos. Não podemos deixar a sociedade acostumada demais ao hábito de não se questionar. Assim, eu convido vocês, agora filósofas e filósofos, a continuar fazendo aquilo que sempre fizemos muito bem: incomodar. Incomodemos com as nossas críticas e pedidos de explicação e justificação. Incomodemos com as nossas distinções intermináveis para por ordem na casa. Incomodemos com os nossos argumentos para melhor fundamentar as nossas posições. Mas não incomodemos por incomodar, incomodemos para nos alargar e ter mais possibilidades de ação ao nosso dispor. Quando Clifford nos chateia dizendo que se não temos tempo para investigar, então não deveríamos ter tempo para acreditar, ele o faz por amor ao próximo, por enxergar quão perigosas e maléficas para a sociedade podem ser as crenças cegas e infundadas. Incomodem porque se importam.

Certa vez, ao se despedir da disciplina, uma aluna me disse: "espero que sigas transformando mundos (universos pessoais), assim como me transformei com a sua disciplina". Pois é o que desejo a vocês, continuem se transformando e transformem o mundo e mundos (universos pessoais) com a filosofia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer) Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho...

[160] O valor da vida

Uma vida feliz pode não ter valor algum.  Este é um julgamento que podemos fazer externamente. Eu posso, de fora, olhar a vida de outra pessoa, reconhecer uma certa abundância de felicidade, de bem-estar, mas negar valor a esta vida, negar que seja uma vida louvável de ser vivida, o que não implica que não seja aceitável que seja vivida. Poderia alguém, no entanto, fazer o mesmo julgamento a respeito da sua própria vida? Acho que não. Pode realmente alguém reconhecer a sua vida como, no geral, feliz sem reconhecer, ao mesmo tempo, que ela tenha valor? Mesmo alguém que tenha muitos prazeres, mais prazeres que sofrimentos, se esta pessoa não vê o viver desses prazeres como algo louvável de ser vivido, ele não reconhecerá a sua vida como uma vida feliz. Ele necessariamente sentirá uma falta ou ausência que o afasta da vida feliz.  A incógnita que carregamos em nossos corações é que não temos por certo esse ponto arquimediano a partir do qual poderíamos julgar o valor de nossas vidas. Gos...