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[67] Eu não sou só introspecção

Passamos a maior parte do tempo desatentos para o que vivemos e sentimos. Ao final de um dia, são poucas as lembranças razoavelmente vibrantes que temos das quase 16 ou mais horas vividas. Assim, em um certo sentido, podemos dizer que passamos a maior parte do tempo alheios a nós mesmos. O ser humano se desconhece. No entanto, ao dizer isso, suponho que me conhecer envolveria ter consciência constante da minha própria experiência, isto é, que ao viver, eu deveria me acompanhar introspectivamente para ter uma compreensão mais clara do que sou ou vivi. Eu me pergunto se essa presença constante de si diante de si, além de impraticável, não seria também sufocante se possível. Um eu que se policia o tempo inteiro é um eu que se esmaga, sente o fardo da sua existência. Não é claro também que obtemos mais conhecimento do Eu prestando mais atenção nas experiências e nos sentimentos do que no conteúdo dessas experiência e sentimentos. Ambas as coisas parecem ter relevância. Conheço coisas difer...

[66] Obter a verdade vs. obter a verdade garantidamente.

Na primeira meditação, Descartes afirma que a sua razão lhe diz para se abster de dar o seu assentimento não só a opiniões que sejam obviamente falsas, mas também a opiniões que não sejam completamente certas e indubitáveis. O corolário dessa afirmação é que, se você tem uma razão para duvidar de uma opinião, então está justificado em rejeitá-la. No entanto, Descartes não nos dá nenhuma razão para a sua afirmação inicial. Não é claro que devamos rejeitar uma opinião que não seja completamente certa. De onde provém a justificativa para este dever? Um motivo seria evitar o engano. Embora, por razões práticas, seja vantajoso evitar o engano, não é, ao mesmo tempo, vantajoso evitá-lo pelo preço de rejeitar todas as crenças incertas. Mas há razões teóricas para se evitar o engano. Se o seu objetivo é descobrir quais das suas opiniões são verdadeiras, então deve evitar o engano e, assim, rejeitar tudo que não for completamente certo. O que temos aqui é um raciocínio instrumental de adequação...

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Solidão fabricada: emerge quando a sua razão fica febril o suficiente para aceitar a dúvida cética. Primeiro você corta o seu contato com o mundo, expulsando-se dele. Este efeito é obtido por um processo de inflação infinita do Eu. De uma hora para outra, você se apropria do mundo no qual habita, dizendo-lhe só seu, produto da sua subjetividade. Não apenas as suas sensações e percepções são suas, o que é óbvio, mas também o conteúdo delas, o que não era óbvio. O mundo, então, diminui na medida que cresce o Eu. Você está agora sozinho no seu próprio mundo, na sua matrix. O próximo passo, já implicado pelo primeiro, é duvidar que as pessoas ao seu redor, que agora nem são mais pessoas, ao menos não com corpos, mas sim fabulações mentais, tenham uma mente, que elas tenham emoções semelhantes às suas e possam, assim, compartilhar o que você sente. Seu egoísmo com respeito ao seu, sim, só seu, mundo é tão gritante que lhe parece absurda a idéia de que outra pessoa pudesse compartilhá-lo. Se...

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Terceiro critério de solidão: quando, em uma conversa, você não se sente motivado a responder o(s) seu(s) interlocutore(s), em especial se essa falta de motivação deriva do fato de você não ver sentido na conversa em curso. Essa falta de sentido, em um ambiente de conversa, lhe dá a consciência da sua estranheza e conseqüentemente a consciência da sua solidão. Quanto mais restritivo você for quanto ao que dá sentido a uma conversa, maiores as chances de vir a se sentir só. A regra de prudência aqui talvez fosse não esperar que uma conversa tenha algum sentido ou propósito.

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Segundo critério de solidão: quando a paranóia ultrapassa os níveis de normalidade, quando percebe uma intenção agressiva até no bom-dia amigo.

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Um critério de solidão: quando você não pode dizer a verdade a quem está ao seu redor, qualquer que seja ela. Quanto menos puder dizer, mais só estará. Pior ainda se não puder dizer por incapacidade de compreensão do receptor.