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[174] É da fraqueza que nascem as aparências

Não ser capaz de reconhecer as suas fraquezas só reforça a sua fraqueza no geral. Poucos têm a força para este reconhecimento, que, de fato, não é fácil, não só pela pressão interna, mas também pela externa. Relutamos em ver no espelho a nossa face mais feia. Incomoda. Também relutamos em mostrar aos outros o que temos de mais feio. Nos envergonha. E os outros, muitos deles, não poupam esforços em nos fazer se sentir envergonhados. A demonstração de fraqueza é recepcionada por muitos com demonstração de suposta força. Batem justamente quando nos mostramos fracos. A razão de baterem, nesta circunstância, é também fruto da fraqueza deles. Covardia sempre será uma atitude de fraco, do fraco que deseja parecer forte, do fraco que só bate quando o outro está desarmado, humilhado ou desamparado. Forte que é forte não quer bater em quem é fraco ou está fraco, seria uma vergonha e demérito para a sua real força. Forte bate em forte e ajuda o fraco a ficar forte. Para tal fim, às vezes, bate ...

[173] Três momentos em que Popper, o anti-indutivista, precisa da indução

Para Popper, pouco importa saber como chegamos a uma teoria quando estamos interessados em justificá-la. Pode interessar à psicologia e à sociologia saber como os cientistas formulam as suas teorias, os fatores que os influenciam etc. Porém, nada disso contribui para a justificação da teoria. A questão de saber como formulamos as nossas teorias pertence ao contexto da descoberta, que é distinto, para Popper, do contexto da justificação. Quanto à justificação da teoria, o máximo que podemos fazer é testá-la. A partir do nosso aparato lógico, extraímos dedutivamente previsões da teoria e investigamos se essas previsões se verificam. Se elas não se verificam, algo vai mal com a teoria. Se elas se verificam, continuamos a extrair mais previsões e a fazer mais testes com a teoria. Seu sucesso nos testes não nos licencia a inferir a sua verdade, apenas que podemos aceitá-la e continuar testando-a. E assim prossegue a atividade científica. Tudo isso vai bem... (1) Mas sem um limitador sobre q...

[172] A probabilidade indutiva

Argumentos indutivos são geralmente caracterizados como aqueles cujas premissas, caso verdadeiras, tornam a conclusão provável. Cezar Mortari, por exemplo, eu seu livro Introdução à Lógica , diz que, no caso dos argumentos indutivos, "não há a pretensão de que a conclusão seja verdadeira caso as premissas o forem - apenas que ela é provavelmente verdadeira" (p. 24). Em seguida, ele ainda aponta uma dificuldade para as lógicas indutivas que é a de determinar o grau de probabilidade necessário para tornar um argumento indutivo forte. Um argumento que confere a probabilidade de 95% à conclusão é forte, mas outro que confere apenas 20%, não. Onde traçaremos o limite? Esta é de fato uma dificuldade para as lógicas indutivas. O ponto para o qual quero chamar atenção aqui é outro. Apesar de ser um avanço usar o conceito de probabilidade para caracterizar os argumentos indutivos, sem maiores detalhes, muito pouco esclarecimento se ganha na verdade. Isto se deve ao fato de que o conc...

[171] Oxford Bibliographies Online: Philosophy

Em breve a Oxoford University Press estará lançando uma enciclopédia de bibliografias, isto é, uma enciclopédia cujos verbetes objetivarão apresentar uma lista das principais publicações e contribuições na área. Certamente será uma ferramenta muito valiosa. Aqui um exemplo, o ceticismo contemporâneo , por Duncan Pritchard, editor, aliás, da enciclopédia. Aqui alguns verbetes de interesse a epistemólogos, que estarão presente já no lançamento da enciclopédia. E finalmente aqui a página para a Oxford Bibliographies Online: Philosoph y

[170] A premissa de que a natureza é uniforme não tem serventia

Alguns filósofos sustentaram que a assunção do princípio da uniformidade da natureza é necessária para validar ou justificar a indução. Assim, uma inferência como: (A) Todos os corvos examinados até n são negros. :. Todos os corvos são negros. poderia ser validada pelo acréscimo da referida premissa: (B) A natureza é uniforme Todos os corvos examinados até n são negros. :. Todos os corvos são negros. O problema óbvio desta estratégia é que a observação de um corvo não-negro em n+1 falsearia a premissa de que a natureza é uniforme, se achamos que a introdução desta nova premissa transforma a indução numa dedução. Sim, pois se o argumento é dedutivo e a conclusão é falsa, então pelo menos uma premissa também é falsa. Se não transforma, então não é exatamente claro que papel a premissa cumpre no argumento indutivo. Se o enunciado de que a natureza é uniforme nos informa apenas que as regularidades não-acidentais persistem uniformes, ele diz muito pouco, absolutamente nada que aumentaria o...

[169] Filosofia deve ser levada a sério também

O problema do estudante de filosofia não levar a própria filosofia a sério, isto é, de aquiescer exclusivamente ao desfrute lúdico da exegese dos textos filosóficos ao invés de questionar pela correção e verdade dos mesmos, é que ele se priva de extrair uma lição ética importantíssima que a experiência cética nos proporciona ao seremos expostos à história da filosofia: que devemos, em princípio, estar sempre abertos às razões alheias, já que a verdade pode não estar em nossas mãos. Esta é uma lição que, eu penso, deveríamos fomentar não só nos alunos de filosofia, mas em qualquer pessoa. Além de trazer à tona o respeito mútuo, ela representa o primeiro passo em direção à difícil tarefa de compreender o mundo e a nós mesmos.

[168] O que fulano disse é verdadeiro?

(A) O que fulano disse é verdadeiro? Apesar da aparente simplicidade da questão, ela esconde certa complexidade. A pergunta, na verdade, se desdobra em duas: (1) O que fulano disse? e (2) Aquilo que fulano disse é verdadeiro? Assim, há várias maneiras de erramos ao responder a questão. Suponhamos que fulano tenha dito "bla bla bla". Podemos errar ao responder a questão (A) se dissermos "não", quando, na verdade, "bla bla bla" é verdadeiro ou "sim", quando falsa. Mas também podemos errar ao responder a questão se identificarmos erroneamente o que fulano disse, a despeito de darmos a resposta correta para o que ele realmente disse. Assim, se identificarmos o que fulano disse como "blu blu blu" e respondermos "sim" à questão (A), mesmo que "bla bla bla" seja verdadeira, teremos falhado em responder a questão. Quando lemos um texto, para cada afirmação lida, podemos fazer a pergunta (A). Porém, como (A) se desdobra em du...