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[166] Relativismo e Irracionalismo 2

Adendo à entrada [102].

Irracionalismo e relativismo são teses distintas. O primeiro pode ser formulado assim:

(I) para qualquer proposição p, não é mais racional aceitá-la do que rejeitá-la.

E o relativismo assim:

(R) para qualquer proposição p, a racionalidade de aceitar ou rejeitar p é relativa à (cultura|sujeito...).

(I) não se segue logicamente de (R). Com efeito, enquanto (I) faz um uso absoluto do predicado "ser racional aceitar", (R) faz um uso relativo do mesmo predicado e sem uma premissa que explicite a conexão entre o uso relativo e o uso absoluto, não há como concluir (I) de (R).

Avaliada absolutamente, (R) é auto-refutante. Avaliada relativamente, ela é coerente. Ou seja, diante da pergunta, "é racional aceitar (R)?", podemos responder "sim" em relação a uma cultura que sustenta (R), mas necessariamente temos de dizer "não" se pretendemos que a racionalidade de aceitar (R) esteja desvinculada de qualquer (cultura|sujeito...). 

(I), avaliada absolutamente...sei lá o que dizer. Se aceito (I), eu a aceito por razão nenhuma - o que já é uma formulação estranha. Se não a aceito, também será por razão nenhuma. E que importância tem, na verdade, se eu a aceito ou não? (I) não serve de razão para nada. Se aceito, digamos, q, por razão alguma, não é por aceitar (I), afinal, já disse que aceito q por razão alguma. Aceitar (I) por razão alguma não tem qualquer papel de justificação não minha aceitação de q,t ou p...por razão alguma. Poderia igualmente rejeitar (I) por razão alguma e continuar aceitando q,t ou p por razão alguma. Ou, ao contrário, poderia aceitar qualquer coisa por qualquer razão. Qualquer apelo à coerência não tem força alguma, já que posso tanto aceitar quanto não aceitar este apelo, por razão alguma ou por qualquer razão. Enfim, uma vez que universalizamos a arbitrariedade, não há muito o que dizer, ou qualquer coisa pode-se dizer. Como dizem os lógicos, trivializamos. 

Se a verdade de (I) leva à trivialização, então parece óbvio que (I) é falsa. Porém, por que não poderia ser o caso de o nosso discurso estar trivializado? Sim, poderia, e, sendo assim, não preciso me comprometer com a tese mais forte de que (I) é necessariamente falsa; basta-me a tese mais fraca de que é provavelmente falsa ou prima facie falsa. E se alguém quiser discutir comigo a verdade ou falsidade de (I), agora sim tenho toda a razão em recusar a discussão, é o mais racional e sensato a se fazer. Se (I) é verdadeira e o nosso discurso está trivializado, então...sei lá, tanto podemos saber quanto não podemos saber que (I) é verdadeira, não há como discutir isso sem ser tragado pela irracionalidade. Se é falsa, talvez não possamos sabê-lo, mas, em virtude destas considerações, estamos totalmente justificados em supô-la falsa pelo menos para a finalidade de decidir a questão, "discutir ou não discutir a verdade de (I)?", já que assim pelo menos evitamos a irracionalidade da outra opção. 

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