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Mostrando postagens de Novembro, 2009

[159] Amor suicida

O "eu" abaixo *não deve* ser associado ao meu eu empírico. A discussão não é sobre o que esse "eu" vai ou não fazer, o que, em geral, pouco importa, aliás, para a discussão, este "eu" nem precisa existir, nem é a discussão sobre o que ele deveria ou não fazer, o que poderia, em geral, importar, mas não aqui e agora, é antes uma discussão sobre valores, sobre possíveis hierarquias de valores. Sim, o amor pode estar acima da vida, de diversas maneiras, em diferentes situações e contextos. Por que não? "Porque te amo, não nascerás", é o título de um dos últimos livros do Julio Cabrera.   Porque te amo, me matarei. Por que não? Vejamos mais de perto o "eu" que segue essa valoração: O dilema existe não por valorizar a vida, por achá-la, em si, um bem; o dilema existe por amá-la, por ela ser, para-mim, um bem. Ela não querer viver implica o meu sofrer. O meu não-sofrer, isto é, o seu viver, implica o seu sofrido viver. Mas o seu sofrido vive…

[158] Paradoxo do Prefácio, justificação e dedução

Resta ainda alguma dúvida de que a dedução não transmite justificação, em especial se aceitamos que a justificação é falível? O paradoxo do Prefácio (introduzido por Makinson) ilustra este ponto muito bem. Sabe-se que um autor tem fortes razões para pensar que cada uma das sentenças escritas no seu livro está justificada. Para reforçar esta ideia, podemos supor que ele revisou cada uma de suas afirmações e ainda submeteu o rascunho final ao apreço de seus amigos críticos. Ainda assim, por uma razoável cautela, ele escreve no prefácio que algum erro pode lhe ter escapado e que a responsabilidade pela falha é toda dele. Ora, tal autor mantém crenças inconsistentes se supomos que o mecanismo inferencial subjacente ao seu raciocínio é dedutivo. Como ele acredita que cada uma das sentenças do seu livro está justificada, ele crê justificadamente em:

(1) S1, S2, S3...Sn

Porém, quando ele afirma que muito provavelmente o seu livro contém algum erro, ele está assentido justificadamente a:

(2) Não…

[157] Ética da e na discussão

Cada vez mais me interesso pela ética da e na discussão. Cada vez menos a vejo presente nas discussões, o que diminui o meu apetite pelas mesmas. Comecemos com algo bem simples. A e B discutem. A diz algo que, para B, parece ser absurdamente falso, no sentido de que ele nao consegue vislumbrar nenhuma razão para se sustentar o que disse A. Digamos que B interpreta o que A disse como P. Numa discussão minimamente respeitosa, este já seria um motivo para B pensar que ele não entendeu A corretamente e, assim, deveria tentar averiguar com A se o que ele disse foi exatamente P. B, no entanto, ignora o princípio do benefício da dúvida e segue adiante na discussão. Volta-se para A, e afirma:

- Isto que você disse, P, é simplesmente ininteligível!

Ininteligibilidade não se aplica obviamente apenas a sentenças sem sentido, porém gramaticalmente corretas, ou a sentenças gramaticalmente incorretas; ela se aplica também a sentenças absurdamente falsas. Na verdade, neste último caso, não estamos apl…