A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…
A tese da mente estendida[1] tem implicações metodológicas[2]. Uma bastante óbvia é que a cognição de um organismo deve ser investigada pela observação do organismo no seu ambiente habitual ou pelo menos em uma emulação do mesmo. Se os processos cognitivos de um organismo se estendem ao seu ambiente, se a cognição é um processo que se estende no tempo e resulta da interação recorrente do organismo com o seu ambiente, formando com ele um sistema dinâmico acoplado, então a investigação adequada da cognição desse organismo não pode ser realizada isolando o organismo do seu ambiente habitual. Se, ao contrário, pensamos que os processos cognitivos de um organismo estão completamente encerrados no cérebro desse organismo, então ele pode ser estudado em situações que eliminam o seu ambiente habitual. Na verdade, nessa perspectiva tradicional, tanto melhor eliminar o ambiente habitual do organismo para se ter um controle maior sobre as variáveis que podem ter alguma influência sobre o compor…