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[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. A última tese alega que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Putnam argumentou em favor dessa tese nos anos 70 apoiando-se, em parte, no experimento mental da Terra Gêmea[1]. Nos seus textos sobre o tema, Putnam nos convida a imaginar um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido para a sobrevivência tanto quanto nós. Esse planeta é tão semelhante ao nosso que lá você encontra um "gêmeo" (doppelgänger) seu, alguém com a sua aparência, com praticamente a mesma história que a sua, as mesmas relações et…
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[196] Especialização, (ir)relevância, e progresso do conhecimento

"I want to explain why I think that much of the specialisation of contemporary philosophy is not a bad thing after all. In large part my argument depends on the engagement of philosophy with rest of knowledge. I want to defend the specialisation in philosophy that is a consequence of the overlap between a subfield of philosophy and another specialised subject matter, where that may be the history of philosophy itself [...] Our knowledge of the world has grown immeasurably since ancient times, and philosophers would be failing in their role if they did not specialise sufficiently to know enough to be able to point out exactly where lie the limits of our understanding"[1].
Não é incomum a ciência como um todo ser acusada de realizar muitas pesquisas irrelevantes[2]. Serviria de indício para essa acusação o fato de que artigos científicos são muito pouco lidos pelo público em geral. Nessa linha, alguém poderia alegar que a pesquisa acadêmica não atende as demandas sociais e e…

[195] Popper e o Princípio da Racionalidade

Popper é conhecido por ter proposto a falsificabilidade como critério de demarcação entre ciência e não-ciência. Assim, uma teoria com pretensão de cientificidade deve em princípio ser falseável ou testável. Uma teoria é falseável se ela faz proibições, isto é, se ela afirma que determinados eventos não vão ocorrer. Caso ocorram, a teoria é falseada. Na verdade, a falsificação sozinha não é suficiente para separar ciência de não-ciência, como reconhece o próprio Popper. Ela é apenas um critério de demarcação entre sistemas empíricos e não-empíricos. Nada impede que um grupo de cientistas mantenha na prática uma sistema empírico imune ao falseamento, muito embora ele seja, em princípio, falseável. Por exemplo, se esse grupo de cientistas rejeita sistematicamente os relatos da ocorrência de eventos que são proibidos pela teoria, ele age de modo não-crítico e não-científico. Assim, para caracterizar a demarcação adequadamente, Popper se vale também de regras metodológicas, regras que pr…

[194] Notas sobre a ética da crença

Resolvi organizar um pouco as minhas notas sobre um tema do qual a esfera pública, especialmente em tempos de pós-verdade, parece cada vez mais carente, a saber, a ética da crença.
Resumo:

Neste artigo, discuto a norma defendida por Clifford de que somente a crença baseada em indícios suficientes é legítima. Articulo os dois principais argumentos apresentados por Clifford em favor dessa norma, um que apela para o valor instrumental da crença baseada em indícios, e um segundo que apela para a credulidade acarretada e a corrupção da capacidade de evitar o erro se negligenciamos a referida norma. Sustento que o primeiro argumento é insuficiente para estabelecer a norma em geral. Crenças que não são meios para ações ficam de fora do escopo do primeiro argumento. O segundo argumento tem um alcance mais abrangente. Contudo, ele pode ser bloqueado se o agente segue uma norma intelectualista que visa insular as crenças injustificadas do restante da sua vida cognitiva e ativa. É uma questão …

[193] Ter evidência e crer com base na evidência

Pedro tem evidência de que Marcos é culpado de um crime, pois uma testemunha ocular narrou para Pedro como Marcos cometeu um crime. No entanto, Pedro veio a crer que Marcos é culpado de um crime porque tem um ódio irracional e muito intenso de Marcos. Por causa desse ódio, Pedro acaba buscando se convencer, por algum processo de racionalização, de que Marcos é uma pessoa má e criminosa. Bastou ver Marcos apressado, com cara de culpado, para que Pedro se convencesse de que Marcos é culpado de algum crime. Pedro tem evidência de que Marcos é culpado de um crime, mas Pedro não crê que Marcos é culpado de um crime com base nessa evidência. Ele desconfia tanto das pessoas que negligencia o relato da testemunha ocular. Ele crê que Marcos é culpado de um crime com base em motivos que nada têm a ver com a verdade da sua crença e, por isso, não a justificam. Na linguagem dos epistemólogos, Pedro tem justificação proposicional para a crença de que Marcos é culpado de um crime, pois ouviu o rel…

[192] Democracia, voto e falibilismo

É verdade que o indivíduo pode se enganar quanto a quais são os seus reais interesses. E se ele pode se enganar a esse respeito, ele pode tomar decisões que não sejam as melhores para ele. Mas também é preciso tomar muito cuidado quando se pretende dizer que uma pessoa ou toda uma classe de pessoas está enganada quanto aos seus reais interesses. Derrotados em eleições às vezes assumem essa posição quando criticam o voto de alguém ou de toda uma classe de pessoas. Se o crítico não tem uma concepção forte de natureza humana que já envolva o comprometimento com uma série de valores fundamentais, então ele terá de enfrentar uma dificuldade interpretativa que nem sempre é fácil de vencer: para saber se um indivíduo se engana em relação aos seus reais interesses é preciso saber quais valores esse indivíduo tem e que hierarquia esse indivíduo sustenta entre esses valores. Como muitos desses valores e mesmo as relações entre eles são latentes e se apresentam mais em atitudes do que em verbali…

[191] Crença, um bem comum

Quando respeitamos o intelecto dos outros e o nosso próprio, discutimos as crenças dos outros e colocamos as nossas em discussão, é simples. Pensar que respeitar a crença do outro (ou a sua própria) implica em jamais discuti-la parece presumir que o "intelecto" não tem qualquer interesse pela verdade ou talvez que a verdade seja completamente uma função das suas crenças. Ambas as alternativas não são muito plausíveis. Evidente que não somos apenas intelecto, nem que a verdade seja o nosso único interesse. Não temos de ser chatos conosco ou com os outros na discussão das crenças. A discussão cabe em alguns lugares e em alguns momentos. Nem tem de ser gratuita; acerca de alguns tópicos, pode ser que ela demande motivação. As crenças apenas não estão absolutamente imunes à discussão, como se tivéssemos com elas uma mera relação de propriedade, “são minhas e ninguém tem nada a ver com isso”. Não é bem assim se você tem alguma vida em comum e não é bem assim se você tem algum int…