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[199] Uma implicação metodológica da tese da mente estendida



A tese da mente estendida[1] tem implicações metodológicas[2]. Uma bastante óbvia é que a cognição de um organismo deve ser investigada pela observação do organismo no seu ambiente habitual ou pelo menos em uma emulação do mesmo. Se os processos cognitivos de um organismo se estendem ao seu ambiente, se a cognição é um processo que se estende no tempo e resulta da interação recorrente do organismo com o seu ambiente, formando com ele um sistema dinâmico acoplado, então a investigação adequada da cognição desse organismo não pode ser realizada isolando o organismo do seu ambiente habitual. Se, ao contrário, pensamos que os processos cognitivos de um organismo estão completamente encerrados no cérebro desse organismo, então ele pode ser estudado em situações que eliminam o seu ambiente habitual. Na verdade, nessa perspectiva tradicional, tanto melhor eliminar o ambiente habitual do organismo para se ter um controle maior sobre as variáveis que podem ter alguma influência sobre o comportamento do organismo e, portanto, afetar os resultados do estudo. Quanto mais isolado do seu ambiente habitual, melhor seria a nossa posição para desvendar os princípios internos que são responsáveis pelas cognições e comportamentos desse organismo. Para o defensor da mente estendida, esse procedimento é inadequado. Isolado do seu ambiente, o organismo não estaria em condições de exibir apropriadamente as habilidades adquiridas por um processo de interação com o seu ambiente, isto é, o organismo não estaria em condições de manter a dinâmica interativa estabelecida com o seu ambiente e que constitui em parte os seus processos cognitivos. Além disso, os efeitos colaterais sobre o próprio organismo por ele ter sido retirado do seu ambiente habitual podem ser tantos que em muitos casos o forçamos a um estado de anomia comportamental. O investigador pode ser levado então a tomar como normal o que é absolutamente anômalo. 

Por exemplo, pode-se pensar que a percepção de um organismo é regida por um conjunto de leis ou regularidades fixas internas, resultantes do processo de seleção natural. Tais leis produziriam as mesmas percepções diante das mesmas estimulações sensoriais. Esperaríamos então que essas regularidades se manifestassem em quaisquer circunstâncias em que o organismo se encontre. Retirar o organismo do seu ambiente não teria qualquer efeito sobre a sua percepção, e ajudaria o investigador no controle das variáveis. Assim, imobilizar um indivíduo numa cadeira de forma a impedi-lo de realizar movimentos com o corpo, a cabeça ou até mesmo com os olhos ajudaria a eliminar as variáveis ambientais que poderiam interferir numa pesquisa sobre a visão. Nesse caso, poderíamos identificar precisamente a informação que chega na retina num certo instante e investigar como ela é transformada na experiência visual que temos. Muita pesquisa sobre a visão foi e é feita assim. O mesmo não se aplica a concepções da percepção filiadas à tese da mente estendida. Segundo a teoria sensoriomotora da percepção, a percepção é antes pensada como um sistema flexível apto a rastrear e a detectar contingências sensoriomotoras ao longo do tempo. Ao interagir e explorar o ambiente, adquirimos e assimilamos habilidades que vinculam e associam certos tipos de ações e operações direcionadas a um objeto ambiental com um certo fluxo sensorial. A percepção é um processo que se estende ao longo do tempo e envolve ações constitutivamente, pois sem movimento não produzimos as contingências sensoriomotoras que a percepção rastreia. Se queremos compreender a capacidade perceptiva de um organismo, temos de considerá-lo no ambiente em que ele se tornou hábil a lidar com certas contingências sensoriomotoras. Olhar ao redor e se mover são fundamentais para o próprio processo de perceber. Isso não significa que não possa haver estudos controlados em laboratórios. Nada nesse sentido está sendo afirmado. Esses estudos precisam, no entanto, emular parte relevante do ambiente do organismo e possibilitar que o organismo tenha nesse novo cenário as interações exploratórias que ele normalmente teria no seu ambiente habitual. Do contrário, não estaríamos estudando a cognição do organismo, estaríamos antes impossibilitando o organismo de manifestar a sua cognição, forçando-o a um estado de anomia.

A título de ilustração da importância do ambiente para o estudo da cognição, é interessante notar como parte da literatura sobre a cognição animal, mesmo não estando necessariamente apoiada na tese da mente estendida, vem, segundo o relato de Marc Bekoff e Jessica Pierce, paulatinamente reconhecendo a importância de estudar os animais não-humanos no seu ambiente e não em situações de confinamento nada semelhantes ao seu habitat natural, situações essas que conduzem o organismo a desenvolver patologias comportamentais:
Scientists ignore behavioral pathologies such as stereotypies at their peril. Some researches seem to think that utterly barren environments are best, because they are all the same and you don’t introduce any variability into your study. All the animals will be doing the exact same thing: nothing. Barren cages are also cheap and easy, which is an added bonus for the harried researcher. Yet Garner argues that the opposite is true: enrichments may improve the validity, reliability, and replicability of results by reducing the number of abnormal animals introduced into a given study (The Animals’ Agenda, p. 87, ênfase minha). 
Assim, se a concepção da mente estendida estiver correta, devemos arranjar a investigação das ciências da cognição de maneira similar à luminosa proposta de Hume para como proceder a investigação da natureza humana (não pretendo fazer nenhuma sugestão anacrônica com essa observação):
We must therefore glean up our experiments in this science from a cautious observation of human life, and take them as they appear in the common course of the world, by men’s behaviour in company, in affairs, and in their pleasures (Treatise of Human Nature, “Introduction”). 
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[1] Na postagem [197], faço uma breve apresentação da tese da mente estendida.
[2] Esta recente conferência (2017) do Evan Thomson é bastante informativa e esclarecedora das implicações metodológicas do enactivism, um parente muito próximo da tese da mente estendida e que normalmente a envolve. 

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