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Mostrando postagens de 2009

[161] Modos de filosofar, filosofia e política

A filosofia tem muitos modos de ser, sem que nenhum tenha privilégio sobre os outros, ou pelo menos muitos deles são tão dignos e louváveis quanto qualquer um dos outros. Levou alguns séculos para que o comentário, um modo particular de filosofar, pudesse vir a ser. Ele sugriu apenas no séc. II a.C. A consciência nítida da diferença entre o comentário e a discussão aparece pela primeira vez em Alexandre de Afrodísio: "Essa forma de discurso (a discussão de teses) era habitual entre os antigos, e é dessa maneira que eles davam suas aulas, não comentando os livros como é o caso agora (com efeito, nessa época não havia livros desse gênero), mas, sendo posta uma tese, eles argumentavam a favor ou contra, para exercer sua faculdade de criar argumentações, apoiando-se em premissas admitidas por todos".

É natural que o comentário só tenha surgido após o estabelecimento de uma certa tradição, de outro modo, não haveria o que comentar. Porém, não é trivial que, uma vez que estejam dad…

[160] O valor da vida

Uma vida feliz pode não ter valor algum.  Este é um julgamento que podemos fazer externamente. Eu posso, de fora, olhar a vida de outra pessoa, reconhecer uma certa abundância de felicidade, de bem-estar, mas negar valor a esta vida, negar que seja uma vida louvável de ser vivida, o que não implica que não seja aceitável que seja vivida. Poderia alguém, no entanto, fazer o mesmo julgamento a respeito da sua própria vida? Acho que não. Pode realmente alguém reconhecer a sua vida como, no geral, feliz sem reconhecer, ao mesmo tempo, que ela tenha valor? Mesmo alguém que tenha muitos prazeres, mais prazeres que sofrimentos, se esta pessoa não vê o viver desses prazeres como algo louvável de ser vivido, ele não reconhecerá a sua vida como uma vida feliz. Ele necessariamente sentirá uma falta ou ausência que o afasta da vida feliz. A incógnita que carregamos em nossos corações é que não temos por certo esse ponto arquimediano a partir do qual poderíamos julgar o valor de nossas vidas. Gost…

[159] Amor suicida

O "eu" abaixo *não deve* ser associado ao meu eu empírico. A discussão não é sobre o que esse "eu" vai ou não fazer, o que, em geral, pouco importa, aliás, para a discussão, este "eu" nem precisa existir, nem é a discussão sobre o que ele deveria ou não fazer, o que poderia, em geral, importar, mas não aqui e agora, é antes uma discussão sobre valores, sobre possíveis hierarquias de valores. Sim, o amor pode estar acima da vida, de diversas maneiras, em diferentes situações e contextos. Por que não? "Porque te amo, não nascerás", é o título de um dos últimos livros do Julio Cabrera.   Porque te amo, me matarei. Por que não? Vejamos mais de perto o "eu" que segue essa valoração: O dilema existe não por valorizar a vida, por achá-la, em si, um bem; o dilema existe por amá-la, por ela ser, para-mim, um bem. Ela não querer viver implica o meu sofrer. O meu não-sofrer, isto é, o seu viver, implica o seu sofrido viver. Mas o seu sofrido vive…

[158] Paradoxo do Prefácio, justificação e dedução

Resta ainda alguma dúvida de que a dedução não transmite justificação, em especial se aceitamos que a justificação é falível? O paradoxo do Prefácio (introduzido por Makinson) ilustra este ponto muito bem. Sabe-se que um autor tem fortes razões para pensar que cada uma das sentenças escritas no seu livro está justificada. Para reforçar esta ideia, podemos supor que ele revisou cada uma de suas afirmações e ainda submeteu o rascunho final ao apreço de seus amigos críticos. Ainda assim, por uma razoável cautela, ele escreve no prefácio que algum erro pode lhe ter escapado e que a responsabilidade pela falha é toda dele. Ora, tal autor mantém crenças inconsistentes se supomos que o mecanismo inferencial subjacente ao seu raciocínio é dedutivo. Como ele acredita que cada uma das sentenças do seu livro está justificada, ele crê justificadamente em:

(1) S1, S2, S3...Sn

Porém, quando ele afirma que muito provavelmente o seu livro contém algum erro, ele está assentido justificadamente a:

(2) Não…

[157] Ética da e na discussão

Cada vez mais me interesso pela ética da e na discussão. Cada vez menos a vejo presente nas discussões, o que diminui o meu apetite pelas mesmas. Comecemos com algo bem simples. A e B discutem. A diz algo que, para B, parece ser absurdamente falso, no sentido de que ele nao consegue vislumbrar nenhuma razão para se sustentar o que disse A. Digamos que B interpreta o que A disse como P. Numa discussão minimamente respeitosa, este já seria um motivo para B pensar que ele não entendeu A corretamente e, assim, deveria tentar averiguar com A se o que ele disse foi exatamente P. B, no entanto, ignora o princípio do benefício da dúvida e segue adiante na discussão. Volta-se para A, e afirma:

- Isto que você disse, P, é simplesmente ininteligível!

Ininteligibilidade não se aplica obviamente apenas a sentenças sem sentido, porém gramaticalmente corretas, ou a sentenças gramaticalmente incorretas; ela se aplica também a sentenças absurdamente falsas. Na verdade, neste último caso, não estamos apl…

[156] Daltonismo, atribuição de conhecimento vs. ter conhecimento e ceticismo

Tomemos inicialmente um domínio bem restrito. Eu e fulano, que vou chamar de Awks, estamos diante de bolas verdes e vermelhas. Awks é daltônico. Quando Awks está diante de uma bola verde, ele diz que ela é verde. Mas quando ele está diante de uma bola vermelha, ele também diz que ela é verde. Ou seja, as duas bolas, para ele, são indistinguíveis quanto à cor. Há algumas situações que eu gostaria de distinguir: (1) Eu saber que Awks é daltônico; (2) Eu não saber que ele é daltônico; (3) Awks saber que é daltônico; e (4) Awks não saber que é daltônico.

Chamemos uma das bolas que está diante de mim e de Awks de 'B' e B é verde. Se eu sei que Awks é daltônico, então faz sentido que eu diga para uma outra pessoa que Awks não sabe se B é verde ou vermelho. Mas o que eu posso dizer com sentido para Awks? Awks está diante de B e diz 'B é verde'. A afirmação de Awks é verdadeira, mas não é conhecimento, uma vez que ele diria o mesmo diante de uma bola vermelha. Falta-lhe a justi…

[155] De quando a vaidade e a arrogância dão com os burros n'água

A falácia do sábio vaidoso.

Se você desconhece um assunto, o que seria razoável dizer sobre o assunto? Absolutamente nada, ou, no máximo, a confissão do seu não-saber sobre tal assunto. Há, no entanto, aqueles que preferem fazer algo bem diverso. Diante de um assunto que desconhecem, para não ter de reconhecer o seu não-saber, optam por desclassificar este assunto através de ironia, cinismo e piadas. A tática é fazer com que o interlocutor perceba o assunto em questão como insignificante, irrelevante e desprezível, como não digno de qualquer atenção. Assim, não saber nada sobre este assunto não é um demérito, ao contrário, é uma virtude. O resultado almejado é deixar incólume a percepção que o seu interlocutor tem do seu vasto saber, na pressuposição, é claro, de que não saber algo depõe contra a sua sapiência e erudição. Por esta estratégia, muitos "sábios" permanecem parecendo sábios a despeito de sua vasta insipiência. Ou não. É evidente que esta estratégia só tem chances…

[154] O que extrair da diafonia filosófica?

A passagem pela história da filosofia é, em grande medida, uma experiência cética, muito embora, não seja, em si mesma, um argumento robusto em favor do ceticismo, em especial um ceticismo que levante dúvida geral sobre a possibilidade de se obter conhecimento filosófico. Porém, esta experiência da diafonia certamente contribui para o reconhecimento de um ceticismo mais brando: é mais difícil chegar a um consenso em assuntos filosóficos que em assuntos físicos. Do que não se segue que seja impossível. Uma explicação para esta dificuldade mais acentuada é que a verdade filosófica é mais complexa ou difícil de ser obtida. Outra é que talvez ela não exista. A diafonia filosófica ela mesma, no entanto, não é mais evidência para uma do que para a outra explicação.

Desta diafonia, a qual todos os filósofos são submetidos durante a sua formação, pelo menos aqueles que passaram por uma formação acadêmica, era de se esperar que estes mesmos filósofos extraíssem algumas regras de prudência, em e…

[153] Sem a substância pensante, o suicídio é imoral

Aquela aula também não me deixou ileso. Logo que deixei os alunos, ocorreu-me pensar que a inexistência de uma substância pensante ameaçava um direito que sempre me foi muito caro. Se tudo o mais está perdido, se o horizonte de sentido se estreita à nulidade, sempre pensei poder, em última instância, apelar para a minha aniquilação. A minha existência sempre apareceu-me como mais minha do que qualquer outra coisa, muito mais minha inclusive que os meus pensamentos, os quais, tenho de confessar, por mais que brotem em mim, quase sempre têm um ancestral causal bem fora de mim. Já a minha existência estaria ali sempre bem presente a mim, predicando o que quer que eu fosse, estampando-se para mim e dizendo-me: "eu sou tua, só tua". Não que ela fosse essencial ao meu ser, meinongianos que o digam, mas certamente necessitada pelo meu querer ser, pela minha vontade de estar aí. De onde mais poderia provir a razão mínima de ser da minha existência senão desta minha vontade de ser? N…

[152] Descartes e o medo de errar

Vou me dar um minuto de licença filosófica para dar uma martelada nietzscheana em Descartes: só um espírito muito medroso rejeita como falsas mesmo as opiniões mais prováveis. O objetivo de Descartes é muito mais apropriar-se da verdade com absoluta segurança do que obtê-la. Seu fim não é propriamente a verdade, mas um modo específico de achegar-se a ela. É muito mais provável que se obtenha mais verdades correndo riscos epistêmicos do que o contrário. Descartes, no entanto, tem horror a qualquer risco. Em sua defesa, poder-se-ia dizer que ele não quer propriamente muitas verdades, mas quer absolutamente pelo menos uma. Mas o que se aproxima mais da finalidade de obter a verdade, obter várias ou obtê-la absolutamente? Se há mais de um modo de obter a verdade, não há qualquer razão para que um modo específico sacie mais a finalidade de obter a verdade do que outros. Privilegiar um ou outro modo tem menos a ver com a satisfação da finalidade de obter a verdade e muito mais com a satisfa…

[151] Uso não-comparativo de "parecer"

"A lua parece do tamanho da tampa de uma garrafa". Esta frase pode se refraseada como: "o tamanho da lua vista da Terra tem a aparência do tamanho da tampa de uma garrafa vista a meio metro de distância". Ou seja, estamos comparando o modo como duas coisas se parecem. Chisholm chamou este uso do "parecer" de "uso comparativo". Para entender este uso do "parecer", não precisamos evocar dados dos sentidos, experiências privadas, impressões etc. Enunciados como "A lua parece do tamanho da tampa de uma garrafa" se limitam a comparar a aparência entre dois objetos ou entre instâncias de propriedades e esta aparência não é nada subjetiva. Qualquer um pode, em condições adequadas, observá-la. Para ver que a lua parece do tamanho da tampa de uma garrafa, tenho de estar na Terra. Se eu estiver na estratosfera, a lua terá outra aparência.

Chisholm argumenta também que há um uso não-comparativo de "parecer". Quando digo, "…

[150] Critérios de qualidade filosófica e a academia brasileira

A academia filosófica deveria mudar seus critérios de qualidade filosófica? Os critérios hodiernos mais consensuais, na academia filosófica brasileira, para um bom texto acadêmico são: ampla bibliografia primária e secundária, comentário rasante, sem vôos, isto é, que deixe o menor espaço possível entre o que é dito sobre um texto e o que o texto ele mesmo diz, falar menos que o autor estudado, falar preferencialmente sobre um autor só e necessariamente falar de algum autor, da idéia de algum autor, do argumento de algum autor, enfim, estar, de alguma maneira, nas costas de alguém, não qualquer um, mas alguém de porte, de peso. Estes critérios obviamente excluem uma produção que seja mais pessoal. Uma busca nas bibliotecas de teses e dissertações evidencia isso. A academia brasileira aceita majoritariamente esses critérios. Ela é assim.

A pergunta que podemos nos fazer é se ela deve ser assim. Alguns diriam que tanto faz. O principal argumento para esta indiferença é o fato de ela não …

[149] Seminário sobre Semântica e Cognição: pesquisas recentes em metafísica e epistemologia

Promoção do PPG-Filosofia/UFRGS27 de julho, segunda-feira11h Rogério Severo (UFRGS/UFSM) – Holismo e Estruturas Lexicais12h intervalo14h Flávio Williges (UFRGS/UNISC) – Ceticismo e Alternativas Relevantes15h00 César Schirmer dos Santos (UFRGS) – Antiindividualismo e Memória
28 de julho, terça-feira11h Jônadas Techio (UFRGS) – Solipsism and Resentment: Pushing Strawson’s Descriptive Metaphysics to the Limits intervalo14h Paulo Faria (UFRGS) – Unsafe Reasoning15h André J. Abath (UFPB) – Conceitos e ContextoLocal: Mini-auditório do IFCH-UFRGS, Campus do Vale, Porto Alegre, RS RESUMOS:André J. Abath e Eduarda Calado (UFPB), “Conceitos e Contexto”O que separa os seres que possuem conceitos dos seres que não possuem? Quais os requerimentos que devem ser satisfeitos para que um organismo possa ser considerado como possuidor de conceitos? Ao buscarem responder tais perguntas, filósofos costumam dividir-se em ao menos dois grupos. No primeiro grupo, estão aqueles – como Donald Davidson, Rob…

[148] Carência do Absoluto

Alexandre Machado tem uma bela reflexão aqui mostrando como se pode ser fanático mesmo em relação a uma crença justificada. Abaixo segue-se uma reflexão que tenta apontar a causa psíquica do fanatismo: a carência do absoluto.

E se deus fosse o diabo? Nada mudaria. Assim como nada mudaria se deus existisse. Dostoievsky se questionava, "se deus não existe, então tudo é permitido"? Eis o problema do homem que se deixa corroer completamente pela incerteza e procura fora de si o fundamento para os seus valores. E tem algum fundamento? Valores não são todos iguais, alguns lhe são mais caros que outros. Podemos fundamentar alguns valores em outros mais preciosos. Mas lá no fundo, o que sustenta o seu valor mais querido? Nada. Ele carece tanto de fundamento quanto a sua certeza de que tem uma mão ao olhar para ela. São absolutos? De forma alguma. Rocha dura que nunca fura? Também não. Mas são vigas assim assentadas que só com muita mina para implodir. Ah, mas se é possível implodi-la…

[147] Ceticismo, sonho, vigília e contexto.

Uma pessoa que esteja sonhando não está em condições de saber se está sonhando ou se está acordado. Somente ao acordar se pode verificar: "eu estava sonhando" ou "as experiências que estava tendo eram experiências de sonho". Um motivo simples para isso é que, em sonho, o indivíduo não está com as suas capacidades cognitivas em pleno funcionamento. Em vigília, sim, pelo menos em princípio. É verdade que, em sonho, pode-se ter a falsa impressão de acordar de um sonho. E é verdade que, no sonho, você poderia falsamente pensar: "eu estava sonhando". O cético gostaria logo de concluir: se posso ter este pensamento tanto sonhando quanto em vigília, então não sei agora se estou a sonhar ou se estou em vigília. Mas esta inferência é inválida. Para torná-la válida, precisamos de uma premissa francamente falsa. Vejamos.

(1) Após acordar, em vigília, posso pensar: "estava sonhando".
(2) Após ter a impressão de acordar, em sonho, posso pensar: "estava
son…

[146] Tese KK e ceticismo

Parece-me razoável que:

(1) Se S está na situação/circunstância X, S sabe que p.

(2) Se S não está situação/circunstância X, S não sabe que p.

Condicionais como estes evidenciam a sensibilidade do saber ao contexto. Vamos imaginar uma situação mais concreta. A proposição p é "se chama 'S'". A situação X é aquela em que as faculdades mentais de S estão funcionando normalmente e ele se encontra em estado de vigília. Nesta situação, não resta dúvidas de que S sabe que se chama 'S'. Vamos imaginar agora uma outra situação: S leva uma pancada na cabeça e horas depois recobre a consciência, mas tem amnésia total. Ele não sabe quem é, onde está, enfim, não se lembra de nada. Um médico chega e lhe diz que ele se chama 'S'. Ora, nesta circunstância, S não sabe que se chama 'S'. Mesmo depois do médico ter lhe dito o seu nome, S tem apenas uma razão para crer que se chama 'S', mas dada a situação de amnésia total em que se encontra, não se pode dize…

[145] Newton da Costa

Hoje tive o prazer de conhecer o prof. Newton da Costa. Para quem não sabe, Newton da Costa é um lógico e filósofo brasileiro de renome internacional, inventor da lógica paraconsistente. Ele é pouco estudado e mencionando entre filósofos brasileiros. É muito comum um aluno de filosofia no Brasil terminar o curso de graduação sem nunca ter ouvido falar do Newton da Costa, embora seja raro um aluno terminar uma graduação em filosofia no Brasil sem nunca ter ouvido falar do Gianotti ou da Marilena Chauí. O fato destes últimos participarem ou terem participado da vida política do país contribui para que sejam mais notórios, o que, a meu ver, ainda não justifica esta ampla assimetria. Se parece inconcebível que as disciplinas de filosofia moderna em um bom curso de filosofia não cubram Descartes e Kant, eu diria que também é inconcebível que as disciplinas de lógica e filosofia da lógica (quando houver) de um bom curso de filosofia não façam qualquer menção ao Newton da Costa. Vejam que n…

[144] Somos realistas sobre a causa da dor, mas imaterialistas sobre a sensação de dor.

Continuado a discussão sobre dor ([137]), pretendo expor o seguinte: o senso comum embute tanto a tese de que a dor persiste quando não é atendida/percebida (realismo a respeito da dor) quanto a tese de que a dor só existe quando é atendida (imaterialismo a respeito da dor). Colocado nestes termos, o senso comum embutiria, então, uma contradição. No entanto, meu ponto essencial é que o realismo diz respeito à causa da sensação de dor e o imaterialismo diz respeito à sensação de dor propriamente. Não há desta forma contradição. O que acontece é que a mesma expressão, i.e. "dor de cabeça", pode ser usada em alguns contextos para se referir à causa da dor e, em outros, à sensação de dor. Vejamos algumas situações que ilustram este ponto.

Fui dormir sentindo dor de cabeça. Adormeci e sonhei. No meio do sonho, acordei e logo tomei a consciência dolorosa de que a minha dor de cabeça não havia passado. De imediato, lembrei-me que, no sonho, sentia-me bem. Pode-se contestar a fidelid…

[143] Sobre a natureza da filosofia

Se o que é filosofia ou filosófico fosse sempre decidido pela tradição filosófica, estaríamos até hoje às voltas apenas com a pergunta de Tales: qual é o princípio básico de onde provém todas as coisas? A história da filosofia é um contínuo processo de extensão criativa da própria filosofia. Tenho a impressão de que o mesmo vale para qualquer saber particular, talvez em menor grau. Será que os gregos contariam o cálculo de probabilidade como pertencendo à aritmética e os fractais como pertencendo à geometria? Sem tomar ciência do desenrolar da própria matemática entre lá e cá, dificilmente. Outro exemplo: na cabeça de um grego antigo, "teoria do caos" seria uma contradição em termos. Atualmente, esta expressão designa um corpo de conhecimento relativamente corroborado. Ou seja, até aonde vai a teoria é algo que não podemos agora estabelecer em definitivo, muito embora tenhamos, do nosso ponto de vista atual, limites bem definidos para o que contar como teoria. O mesmo vale p…

[142] Autonomia e consenso

Muitos podem achar engraçada esta manifestação poética do Claudio Costa. Não a cito aqui para indispor o leitor contra o filósofo ou para ridicularizá-lo. Muito pelo contrário. Cláudio Costa está entre os nomes de maior respeito da filosofia brasileira, eu acho. Não foi por acaso que coloquei o link para a sua página pessoal bem ali na coluna direita na seção reservada aos filósofos que considero criativos e originais, o que não implica que eu os veja como geniais, nem que eu não os veja como tais, enfim, digo logo antes que me atirem alguma pedra. O leitor curioso pode encontrar aqui outros vídeos do Claudio Costa discorrendo sobre temas filosóficos variados.

Mencionei a manifestação poética de Claudio Costa pelo seguinte motivo: o fato de ele não temer se expor à comunidade filosófica é um sinal da autonomia e auto-confiança de pensamento que ele já adquiriu diante desta mesma comunidade, o que é uma característica essencial para alguém que pretende filosofar de modo autêntico. Se…

[141] Ética da Verdade?

Podemos falar em ética da verdade? Isto é, pode haver um argumento moral em favor da crença na verdade absoluta? A crença na verdade absoluta tem um duplo efeito virtuoso, como ficou muito bem demonstrado aqui: (i) ela nos torna mais humildes diante das razões que nos são dadas por terceiros, pois se a verdade não é implicada pela nossa situação epistêmica, então razões de terceiros são bons motivos para revermos as nossas próprias razões e (ii) justamente por nos fazer rever as nossas próprias razões, ela é uma forte razão para evitarmos a apatia epistêmica, isto é, não precisamos esperar pelas razões alheias para revisar as nossas próprias. A crença na verdade absoluta nos obriga à revisão constante, o que é epistemicamente saudável. A descrença na verdade absoluta, na sua versão dogmática, tem, ao contrário, um duplo efeito vicioso: (iii) nos torna arrogantes com terceiros, já que suas razões são irrelevantes para o que cremos como verdadeiro e (iv) nos conduz à apatia epistêmica, …

[140] Palestra de Julio Cabrera e a trágica história da filosofia brasileira.

Esta é uma importante palestra de Julio Cabrera sobre o estado da filosofia ibero-americana, em especial, a brasileira e a argentina. Todos os alunos de filosofia em terras brasileiras deveriam assistir esta palestra, ela contém informações e discussões valiosas para o modo como estes alunos podem pensar e encaminhar a sua formação filosófica. Chamo atenção para dois pontos: (1) a filosofia profissional brasileira, tal como foi implantada em nosso país, acovardou o nosso pretendente à filósofo a ponto de ele sentir vergonha de se proclamar como tal; na melhor das hipóteses, ele se vê como um historiador da filosofia, um professor de filosofia ou meramente um comentador de filosofia. Curiosamente, como nos lembra Cabrera, não foi sempre assim. No final do século XIX, tivemos respeitáveis filósofos. Farias Brito, Tobias Barreto e muitos outros, ainda que suas filosofias fossem falhas ou mesmo fracas. Temos de lhes dar um desconto, já que, nesta época, o acesso a livros neste país era pa…

[139] Amoralidade e o sentido da razão.

Bernard Williams, diante do indivíduo que adota a postura amoral em virtude da falta de razões para agir assim ou assado, pois não vê sentido em nenhuma delas, diz que, neste caso, a falta não é da racionalidade, mas da humanidade. A humanidade fracassa diante deste indivíduo em lhe dar ajuda e esperança. Não lhe faltam razões, o que lhe falta é ver sentido nas razões. Porém, as razões não têm como fazer o indivíduo perceber tal sentido. O tecido envolvente que poderia despertar esperança no indivíduo não é o da racionalidade, mas o das relações humanas. O amoral por falta de sentido é o indivíduo que foi alijado da humanidade ou que se alijou da humanidade. Em todo caso, soa-me como uma fraqueza da razão dizer que ela não consegue embutir o seu próprio sentido, o que obviamente não implica que o sentido lhe seja acoplado irracionalmente. Significa apenas que isoladamente ela não o produz.

E, no entanto, Williams está correto. Nenhum argumento é capaz de fazer com que uma pessoa veja s…