Pular para o conteúdo principal

[148] Carência do Absoluto

Alexandre Machado tem uma bela reflexão aqui mostrando como se pode ser fanático mesmo em relação a uma crença justificada. Abaixo segue-se uma reflexão que tenta apontar a causa psíquica do fanatismo: a carência do absoluto.

E se deus fosse o diabo? Nada mudaria. Assim como nada mudaria se deus existisse. Dostoievsky se questionava, "se deus não existe, então tudo é permitido"? Eis o problema do homem que se deixa corroer completamente pela incerteza e procura fora de si o fundamento para os seus valores. E tem algum fundamento? Valores não são todos iguais, alguns lhe são mais caros que outros. Podemos fundamentar alguns valores em outros mais preciosos. Mas lá no fundo, o que sustenta o seu valor mais querido? Nada. Ele carece tanto de fundamento quanto a sua certeza de que tem uma mão ao olhar para ela. São absolutos? De forma alguma. Rocha dura que nunca fura? Também não. Mas são vigas assim assentadas que só com muita mina para implodir. Ah, mas se é possível implodi-las, eliminá-las, estou no vazio, no escuro. Que me serve de guia? Eis o problema daquele homem novamente: sua carência de certeza é proporcional à incerteza que vivencia. Não é a ausência do absoluto que o faz carente da certeza, é a carência do certo que o faz sentir a ausência do absoluto. O não-carente está relativamente satisfeito com as vigas que tem, até que lhe apareça uma forte, mas bem forte razão para pensar em contrário. Para o carente, até a razão chinfrim lhe deixa insatisfeito com o que tem. O carente quer o absoluto e sente mais do que tudo a sua falta justamente por estar carente, amedrontado, inseguro quanto ao que fazer. Não tem em si a força necessária para andar, por isso a busca fora, no imutável. E, pelo mesmo motivo, ele é o tipo que, se não se engana achando que encontrou o absoluto, conclui que tudo é permitido e arruína a sua vida em um caos completo. Tudo e qualquer coisa lhe é e não é guia ao mesmo tempo. Claro, se não há um absoluto, ou não o encontro, ou, ainda pior, perco a esperança de encontrá-lo quando sinto a sua falta mais do que tudo, vivo por completo o desespero. Desesperado aceito qualquer coisa. O carente que não encontra o absoluto se fere mortalmente a cada instante. Pior ainda é o carente que se engana achando ter encontrado o absoluto. Para ele o sancionado e permitido é muito bem definido. Ele abraça esse absoluto com toda a intensidade da sua carência. A força com que agora o defende é proporcional à carência que sentia. Ele range os dentes a quem se lhe opõe. Ele mata se for preciso, se suspeitar que querem lhe tirar o aconchego do absoluto. No fundo, ele teme o retorno da carência. Esse carente acaba ferindo mais aos outros que a si mesmo. Sua ação é definida e precisa, violentamente precisa, ele jamais se realinha.

E o não-carente? Ah, ele vai seguindo a vida com o bom-senso e a prudência aristotélicas. Ele anda, para e escuta as vozes alheias. Pensa, realinha-se caso ache necessário e continua o ciclo. E para ele, tudo é permitido? Não, mas a sua linha do que é e o que não é permitido também não está traçada para todo o sempre. Ele se permite o retraçado, movido pela sua força interna, não pelo oba-oba do carente que concluiu que tudo é permitido. Para este, não há retraçado, só rabiscos.

Assim, a questão de se tudo é ou não permitido, caso não haja um absoluto, não se conclui por uma martelada demonstrativa, ela se fecha pela psicologia. É preciso se conhecer, perceber as suas necessidades e carências.

Comentários

Flavio disse…
Eros,

Gostei muito do teu post. Suspeito que o fanatismo, assim como algumas posições filosóficas reducionistas (do tipo: transparência completa ou opacidade completa) resultam de um desconforto com a condição humana, com a ausência de padrões absolutos que acompanha boa parte de nossa vida com conceitos. Indo numa direção diferente da tua, queria acrescentar q essa ânsia pelo absoluto é inerente à nossa condição, é constitutiva do humano. Por isso, me parece salutar sempre desconfiar de nossos princípios. A vida não é quieta, mas gostaríamos que fosse. E esse desejo pode nos levar a fixação por alguma espécie de verdade perfeita e aprisionadora.

Flavio
Eros disse…
Oi Flávio,

Concordo contigo que o desconforto com a condição humana nos provoca o desejo de transcendê-la, porém, parece-me que em uns o desconforto é maior que em outros, pelas razões mais diversas, o que faz com que aqueles primeiros desejem mais o absoluto que estes segundos. Como você, acho que a filosofia, ao nos dar consciência da nossa condição, pode nos auxiliar a lidar melhor com este desconforto. Algumas racionalizações podem sim aplacar desejos irrealizáveis.

abraços,
Eros.
Klass disse…
Parabéns pelo teu post. Cura Paicológica.
-==-Erwin_Claus* disse…
Mas nas suas opiniões, a procura de um absoluto é inerente ao humano, não seria ela inerente a sociedade que criamos, por ela criar uma certa verdade universal sobre tudo?
Tiago disse…
Olá......

Bom texto, mas estranho.....

Vou pela opinião do Flávio para poder tecer meu comentário “a carência quanto ao absoluto é inerente ao homem”. Eu também creio nisso, esta carência parece-me intrínseca ao homem, e se assim o for então o próprio apelo do homem ao absoluto faz parte de sua verdadeira razão, e portanto se compreende naquilo que é a sua própria verdade. Com tal, não pode ter valor menor do que qualquer outra pretensão que a oponha. Afinal, trata-se da verdade. Então não há a menor razão para que o sujeito que pretenda o absoluto se fruste, mesmo por que esta verdade ainda traz em si o fato de que o próprio absoluto é racionalmente injustificável e, ao menos mundanalmente, inalcançável.

O elemento estranho ao texto é a suposta contraposição entre o carente e o não carente. Em algum momento vc diz que o carente “não têm em si a força necessária para andar” em contraposição ao não carente que “se move por sua força interna”. Mas isto só se figura de fato como contraposição se “esta força interna” do não carente não tiver ela mesma nada de externo. Oras, se esta força é de fato exclusivamente interna, prevalecendo sempre sobre elementos externos, então ela é sim alicerce para um posso-querer arbitrário, e portanto, para o não carente, vale com toda a sua força o “tudo é permitido”. O que segue disto é que se ele não se permite a certas coisas é por que existe algo externo que assim dita, isto que se diz reconhecer no íntimo é também, de alguma maneira, externo. Então o não carente, que nega o “tudo é permitido, também não traz em si a força necessária para andar.


De qualquer maneira, eu acredito ser um erro perder de vista o fato de que o próprio homem é posterior ao mundo, então qualquer que seja a sua verdade, é algo que o antecede e que se dá de encontro, esta verdade íntima do homem é a própria verdade do mundo (independentemente do que isto seja).

Abraços......TC

Postagens mais visitadas deste blog

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[194] Notas sobre a ética da crença

Resolvi organizar um pouco as minhas notas sobre um tema do qual a esfera pública, especialmente em tempos de pós-verdade, parece cada vez mais carente, a saber, a ética da crença.
Resumo:

Neste artigo, discuto a norma defendida por Clifford de que somente a crença baseada em indícios suficientes é legítima. Articulo os dois principais argumentos apresentados por Clifford em favor dessa norma, um que apela para o valor instrumental da crença baseada em indícios, e um segundo que apela para a credulidade acarretada e a corrupção da capacidade de evitar o erro se negligenciamos a referida norma. Sustento que o primeiro argumento é insuficiente para estabelecer a norma em geral. Crenças que não são meios para ações ficam de fora do escopo do primeiro argumento. O segundo argumento tem um alcance mais abrangente. Contudo, ele pode ser bloqueado se o agente segue uma norma intelectualista que visa insular as crenças injustificadas do restante da sua vida cognitiva e ativa. É uma questão …