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Mostrando postagens de Dezembro, 2005

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Blindsight ou visão-cega, por mais paradoxal que soe, nada mais é do que visão residual sem consciência. Explico-me, uma pessoa cuja área V1 do cérebro foi lesada perde a capacidade de ter experiências visuais em uma certa porção do seu campo visual, mas ela não perde a capacidade de ser sensível às informações que normalmente gerariam experiências nesta porção do campo. Isto significa minimamente que nem toda função visual depende da consciência visual. É possível "ver" sem ver. Os portadores de blidnsight não experimentam a sua lesão como um buraco negro em seu campo visual. É como se, da noite para o dia, a "janela visual" fosse diminuida de tamanho.

Prosopagnosia é a condição na qual o sujeito não é capaz de reconhecer faces, distinguir rostos familiares de estranhos. Esta falha já não é perceptiva, mas mnemônica, pois estas pessoas são ainda capazes de discriminar uma face da outra, notar suas diferenças. Estes casos servem para evidenciar que a capacidade de …

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O que faz o filósofo, qual a sua especialidade? Eu diria metaforicamente que o filósofo é mestre em separar grãos de areia. Ele é capaz de tomar dois grãos em seus dedos, notar suas semelhanças e pincelar as suas diferenças, quando nem mesmo o melhor dos microscópios é capaz de dar ao homem comum essa percepção. Substitua agora os grãos pelos conceitos e terás uma imagem literal do que faz o filósofo. Ele é um fazedor de distinções, um meta-lingüístico por excelência. Para o filósofo, a linguagem é uma floresta a ser devastada. Mal sabe ele que a sua atividade é ecologicamente correta: ele devasta semeando. Quando olha para trás, uma floresta ainda mais densa emergiu onde ele pensava ter deixado apenas poeira. Assim, podemos concluir que os filósofos formam a única categoria profissional que gera, no seu próprio exercício, a demanda pela sua existência.

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A experiência de X me fornece pelo menos o conhecimento da localização de X, e qualquer pessoa capaz de ter a experiência de X tem a capacidade de localizar X. Implicita e indiretamente, a experiência de X também fornece o conhecimento da existência de X. Essas cognições perceptivas não precisam envolver conceitos ou a capacidade de representar X com elevado grau de abstração ou generalidade . Conceitos aparecem apenas quando começamos a enriquecer a nossa concepção de X, quando começamos a adquirir conhecimentos relacionais de X, ou seja, quando X é colocado em relação com outras coisas e eventos.