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Mostrando postagens de 2010

[181] Da onipresença do Regresso

Eu não preciso saber que sei para saber; se precisasse, teria de enfrentar um regresso. Pois para saber que sei, teria também de saber que sei que sei e assim por diante. Porém, se eu posso saber sem saber que sei, eu não posso igualmente enfrentar o regresso que questiona que sei. A única saída parece ser: se eu sei, então eu sei que sei. Objetivamente, isto parece ser verdadeiro, mas aonde nos leva? A lugar algum, pois se eu não sei que sei, então não sei. E o regresso outra vez aparece espreitando na pergunta: o que é o caso? Que você sabe ou que você não sabe? Se você sabe, então você sabe que sabe que sabe...Mas se não sabe, então você não sabe que sabe...Em todo caso, se te serve de consolo, uma coisa é certa: ou você sabe, ou você não sabe. E se você sabe, então você sabe, ainda que não saiba disto.

[180] Você se preocupa tanto quanto eu, mas enquanto faço algo, você se isenta

Nós podemos, se quisermos, aumentar as nossas dúvidas, os nossos padrões epistêmicos, ao ponto de nos fazer parecer impossível decidir uma questão de grande importância. Podemos fazer, mas por que o faríamos? Uns dirão: "porque a questão é de grande importância e não quero correr riscos, quero me isentar de qualquer responsabilidade de fazer mal a alguém". Outros dirão: "justamente porque a questão é de grande importância e afetará muitos, não posso me isentar, quero fazer o bem aos envolvidos, correrei os riscos". Parece-me que ambos estão certos, segundo diferentes razões. Há uma diferença importante: o primeiro está mais preocupado em não fazer mal aos outros; o segundo, ao contrário, está mais preocupado em fazer bem aos outros. Nenhum me parece ser moralmente melhor que o outro. Ambos se mostram igualmente preocupados com os outros. É a mesma preocupação traduzida em diferentes atitudes, uma negativa, não fazer mal, e outra positiva, fazer o bem. É preciso, n…

[179] Não sabemos se somos patéticos, mas não por isso o seríamos também

Colocando em perspectiva. Se não é possível que alcancemos qualquer verdade, então objetivamente não faz sentido buscarmos quaisquer verdades. Uma vida em busca de verdades seria, assim, patética e absurda. Como, porém, não faz sentido dizer que poderíamos saber esta verdade sem cair em contradição, jamais estaremos em condição de saber se vivemos uma vida patética. Podemos ao menos contemplar esta possibilidade, o que já é suficiente para nos causar certa perturbação. Ou seja, o fato de ser impossível saber que estamos na situação de sermos incapazes de alcançar qualquer verdade não nos traz qualquer conforto uma vez que a mera possibilidade de que estejamos nesta situação mina a pretensão do conhecimento de que não estamos nesta situação. Alguém pode dizer: "fácil, basta encontrarmos alguma verdade para eliminar esta possibilidade, assegurando, assim, o conhecimento de que não estamos nesta situação de absoluta ignorância". Muito justo. A dificuldade é que isto pode ser o …

[178] Fred Dretske na UFRGS

O Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRGS estará recebendo, nos próximos dias 11 e 12 de Novembro de 2010, o Prof. Fred Dretkse, da Duke University (Emeritus, Stanford University), um dos mais importantes e influentes filósofos de nossos dias, autor de contribuições fundamentais à epistemologia e à filosofia da mente

Em sua estadia em Porto Alegre, o Prof. Dretske proferirá duas palestras:

Quinta-feira, 11/11/2010, às 15:30h, no Pantheon do IFCH: "What We See: The Texture of Conscious Experience"

Sexta-feira, 12/11/2010, às 14h, no Pantheon do IFCH: "I Think I Think, Therefore I Am . . . I Think: Skeptical Doubts About Self Knowledge"

Fonte: Departamento de Filosofia da UFRGS



[177] Thomas Nagel e o absurdo da vida

O ceticismo que, por um lado, nos recomenda a não levar qualquer projeto de vida com absoluta seriedade é o mesmo que faz descortinar diante dos nossos olhos o absurdo da vida. O passo atrás que Nagel diz sempre ser possível dar diante da vida que você tem e dos valores aos quais adere, é o passo que nos faz ver o caráter contingente e arbitrário das nossas vidas; e depois deste passo, deste movimento, fica ecoando em nossas mentes a pergunta: "por que levar a sério essa vida tão arbitrária e mesmo cômica?". Cômica sim, pois se arbitrária, nada mais cômico que levá-la a sério. E, contudo, voltamos, sem o auxílio de qualquer razão, às nossas vidas ordinárias, aos projetos que julgamos valiosos. Quanto a isso, não temos escolha. Simplesmente voltamos. Em nosso seio habita tanto a razão duvidosa que nos leva ao passo atrás rumo ao absurdo da vida, quanto a emoção crente que nos leva ao passo à frente de volta à vida. Mas este movimento de ir e vir não é sem efeito, ele deixa as…

[176] O argumento do conhecimento de Jackson e conceitos fenomênicos

Na primeira metade do século passado, a teoria dos dados dos sentidos foi geralmente sustenta pelo argumento da ilusão (Price, Moore e Russell, para citar alguns, recorreram a este argumento). Mas já nas décadas de 50 e 60, o argumento foi duramente criticado, especialmente por Austin em Sense and Sensibilia. Alguns anos mais tarde, em 1977, Frank Jackson tenta sustentar a teoria dos dados dos sentidos por um novo caminho. Ela seria necessária para explicar certos usos não-comparativos de expressões que envolvem a locução "parecer", como em "coisas brancas parecem brancas". O que se segue abaixo é uma breve tentativa de reconstruir o argumento que estabelece que há de fato usos não-comparativos de expressões que envolvem a locução "parecer". Antes de saber se a teoria dos dados dos sentidos é necessária para explicar este uso, temos claro de nos certificar de que haja este uso.

Mary nasceu e cresceu numa sala onde todas as coisas são pretas ou brancas. Ela…

[175] Diário de um Filósofo no Brasil

O professor Julio Cabrera lançará na próxima semana, na UnB, o seu livro Diário de um Filósofo no Brasil.

Interessados no livro podem adquiri-lo diretamente pela Editora Unijuí.

[174] É da fraqueza que nascem as aparências

Não ser capaz de reconhecer as suas fraquezas só reforça a sua fraqueza no geral. Poucos têm a força para este reconhecimento, que, de fato, não é fácil, não só pela pressão interna, mas também pela externa. Relutamos em ver no espelho a nossa face mais feia. Incomoda. Também relutamos em mostrar aos outros o que temos de mais feio. Nos envergonha. E os outros, muitos deles, não poupam esforços em nos fazer se sentir envergonhados. A demonstração de fraqueza é recepcionada por muitos com demonstração de suposta força. Batem justamente quando nos mostramos fracos. A razão de baterem, nesta circunstância, é também fruto da fraqueza deles. Covardia sempre será uma atitude de fraco, do fraco que deseja parecer forte, do fraco que só bate quando o outro está desarmado, humilhado ou desamparado. Forte que é forte não quer bater em quem é fraco ou está fraco, seria uma vergonha e demérito para a sua real força. Forte bate em forte e ajuda o fraco a ficar forte. Para tal fim, às vezes, bate …

[173] Três momentos em que Popper, o anti-indutivista, precisa da indução

Para Popper, pouco importa saber como chegamos a uma teoria quando estamos interessados em justificá-la. Pode interessar à psicologia e à sociologia saber como os cientistas formulam as suas teorias, os fatores que os influenciam etc. Porém, nada disso contribui para a justificação da teoria. A questão de saber como formulamos as nossas teorias pertence ao contexto da descoberta, que é distinto, para Popper, do contexto da justificação.

Quanto à justificação da teoria, o máximo que podemos fazer é testá-la. A partir do nosso aparato lógico, extraímos dedutivamente previsões da teoria e investigamos se essas previsões se verificam. Se elas não se verificam, algo vai mal com a teoria. Se elas se verificam, continuamos a extrair mais previsões e a fazer mais testes com a teoria. Seu sucesso nos testes não nos licencia a inferir a sua verdade, apenas que podemos aceitá-la e continuar testando-a. E assim prossegue a atividade científica.
Tudo isso vai bem...

(1) Mas sem um limitador sobre qu…

[172] A probabilidade indutiva

Argumentos indutivos são geralmente caracterizados como aqueles cujas premissas, caso verdadeiras, tornam a conclusão provável. Cezar Mortari, por exemplo, eu seu livro Introdução à Lógica, diz que, no caso dos argumentos indutivos, "não há a pretensão de que a conclusão seja verdadeira caso as premissas o forem - apenas que ela é provavelmente verdadeira" (p. 24). Em seguida, ele ainda aponta uma dificuldade para as lógicas indutivas que é a de determinar o grau de probabilidade necessário para tornar um argumento indutivo forte. Um argumento que confere a probabilidade de 95% à conclusão é forte, mas outro que confere apenas 20%, não. Onde traçaremos o limite? Esta é de fato uma dificuldade para as lógicas indutivas.

O ponto para o qual quero chamar atenção aqui é outro. Apesar de ser um avanço usar o conceito de probabilidade para caracterizar os argumentos indutivos, sem maiores detalhes, muito pouco esclarecimento se ganha na verdade. Isto se deve ao fato de que o conce…

[171] Oxford Bibliographies Online: Philosophy

Em breve a Oxoford University Press estará lançando uma enciclopédia de bibliografias, isto é, uma enciclopédia cujos verbetes objetivarão apresentar uma lista das principais publicações e contribuições na área. Certamente será uma ferramenta muito valiosa.

Aqui um exemplo, o ceticismo contemporâneo, por Duncan Pritchard, editor, aliás, da enciclopédia.

Aqui alguns verbetes de interesse a epistemólogos, que estarão presente já no lançamento da enciclopédia.

E finalmente aqui a página para a Oxford Bibliographies Online: Philosophy

[170] A premissa de que a natureza é uniforme não tem serventia

Alguns filósofos sustentaram que a assunção do princípio da uniformidade da natureza é necessária para validar ou justificar a indução. Assim, uma inferência como:

(A)
Todos os corvos examinados até n são negros.
:. Todos os corvos são negros.

poderia ser validada pelo acréscimo da referida premissa:

(B)
A natureza é uniforme
Todos os corvos examinados até n são negros.
:. Todos os corvos são negros.

O problema óbvio desta estratégia é que a observação de um corvo não-negro em n+1 falsearia a premissa de que a natureza é uniforme, se achamos que a introdução desta nova premissa transforma a indução numa dedução. Sim, pois se o argumento é dedutivo e a conclusão é falsa, então pelo menos uma premissa também é falsa. Se não transforma, então não é exatamente claro que papel a premissa cumpre no argumento indutivo.

Se o enunciado de que a natureza é uniforme nos informa apenas que as regularidades não-acidentais persistem uniformes, ele diz muito pouco, absolutamente nada que aumentaria o suporte …

[169] Filosofia deve ser levada a sério também

O problema do estudante de filosofia não levar a própria filosofia a sério, isto é, de aquiescer exclusivamente ao desfrute lúdico da exegese dos textos filosóficos ao invés de questionar pela correção e verdade dos mesmos, é que ele se priva de extrair uma lição ética importantíssima que a experiência cética nos proporciona ao seremos expostos à história da filosofia: que devemos, em princípio, estar sempre abertos às razões alheias, já que a verdade pode não estar em nossas mãos. Esta é uma lição que, eu penso, deveríamos fomentar não só nos alunos de filosofia, mas em qualquer pessoa. Além de trazer à tona o respeito mútuo, ela representa o primeiro passo em direção à difícil tarefa de compreender o mundo e a nós mesmos.

[168] O que fulano disse é verdadeiro?

(A) O que fulano disse é verdadeiro?
Apesar da aparente simplicidade da questão, ela esconde certa complexidade. A pergunta, na verdade, se desdobra em duas: (1) O que fulano disse? e (2) Aquilo que fulano disse é verdadeiro? Assim, há várias maneiras de erramos ao responder a questão. Suponhamos que fulano tenha dito "bla bla bla". Podemos errar ao responder a questão (A) se dissermos "não", quando, na verdade, "bla bla bla" é verdadeiro ou "sim", quando falsa. Mas também podemos errar ao responder a questão se identificarmos erroneamente o que fulano disse, a despeito de darmos a resposta correta para o que ele realmente disse. Assim, se identificarmos o que fulano disse como "blu blu blu" e respondermos "sim" à questão (A), mesmo que "bla bla bla" seja verdadeira, teremos falhado em responder a questão.
Quando lemos um texto, para cada afirmação lida, podemos fazer a pergunta (A). Porém, como (A) se desdobra em dua…

[167] Argumentos indutivos são irredutíveis a argumentos dedutivos

Existe a esperança de que argumentos indutivos possam ser transformados em argumentos dedutivos através da adição de premissas. Assim, um argumento indutivo como:

(1) A1...An cachorros latem
:. Todos os cachorros latem

Seria transformado em um argumento dedutivo adicionando a premissa de que todos os caninos latem:
(1) Todos os caninos latem
(2) A1...An cachorros latem
:. Todos os cachorros latem.

Na verdade, o argumento acima dispensa (2) e se transforma realmente num argumento dedutivo com a substituição de (2) por (2'): Todos os cachorros são caninos.

(1) Todos os caninos latem.
(2') Todos os cachorros são caninos.
:. Todos os cachorros latem.

Se esta transformação soou muito artificial, tomemos mais um exemplo de inferência indutiva:

(1) O bule de água esteve no fogo pelos últimos 10 minutos
:. Provavelmente, a água está fervendo.

O exemplo é interessante por partir de uma afirmação particular para concluir outro fato particular, o que leva muitos a pensar com mais facilidade que há uma…

[166] Relativismo e Irracionalismo 2

Adendo à entrada [102].Irracionalismo e relativismo são teses distintas. O primeiro pode ser formulado assim:

(I) para qualquer proposição p, não é mais racional aceitá-la do que rejeitá-la.

E o relativismo assim:

(R) para qualquer proposição p, a racionalidade de aceitar ou rejeitar p é relativa à (cultura|sujeito...).

(I) não se segue logicamente de (R). Com efeito, enquanto (I) faz um uso absoluto do predicado "ser racional aceitar", (R) faz um uso relativo do mesmo predicado e sem uma premissa que explicite a conexão entre o uso relativo e o uso absoluto, não há como concluir (I) de (R).

Avaliada absolutamente, (R) é auto-refutante. Avaliada relativamente, ela é coerente. Ou seja, diante da pergunta, "é racional aceitar (R)?", podemos responder "sim" em relação a uma cultura que sustenta (R), mas necessariamente temos de dizer "não" se pretendemos que a racionalidade de aceitar (R) esteja desvinculada de qualquer (cultura|sujeito...). 

(I), avalia…

[165] Das diferenças argumentativas entre a primeira pessoa do singular e do plural

Constantemente me chamam a atenção por mesclar, em um mesmo texto, a primeira pessoa do singular com a primeira pessoa do plural. Dizem que, por uma questão de estilo, é preciso uniformizar. Eu acho essa razão muito fraca e que deixo de transmitir informação relativamente valiosa ao leitor quando uniformizo. Meus usos da primeira pessoa do singular e do plural seguem um padrão muito bem definido: no singular, quando quero deixar claro os meus compromissos teóricos, o que eu vou defender, qual é o objetivo do texto que escrevo, quais premissas dúbias assumo como verdadeiras; no plural, quando a argumentação está sendo propriamente desenvolvida, quando, supondo os compromissos explicitados, com os quais o leitor não precisa estar em absoluto de acordo, o raciocínio a partir deles deve soar pelo menos razoável a qualquer leitor. É também a diferença entre não convidar o leitor a defender o que defendo e convidar o leitor a pensar comigo em uma defesa particular do que defendo.

Estilo nem …

[164] Bernad Williams e Jaakko Hintikka sobre os rumos da filosofia

Dois textos excelentes para nos ajudar a pensar no futuro da filosofia e nas suas relações com as demais disciplinas do conhecimento: Williams, B. Philosophy as Humanistic Discipline e Hintikka, J. Philosophical Research: Problems and Proposals.

O texto do Bernard Williams bate duro no que ele chama de cientismo, a ideia de que a filosofia tem os mesmos objetivos da ciência e deve assimilar o modo de operar desta última, não só metodologicamente, mas também no gênero e estilo discursivo. A filosofia, neste caso, torna-se uma disciplina Frankenstein. Sem o aparato experimental da ciência, suas conjecturas tomam a forma de observações programáticas que poderiam ser desenvolvidos pelas ciências empíricas. O cientista também faz isso nas suas falas informais, mas ele tem como fundamento para estas observações a sua prática diária. Já o filósofo parece, neste terreno, mais com um diletante. Que interesse terá para o cientista as observações programáticas de um filósofo que tem conhecimento…

[162] Filosofia e Coragem

"E, contudo, parece ser melhor, até talvez um dever, que pela salvação da verdade se destruam os laços que temos com os que nos estão próximos, sobretudo se formos filósofos. Sendo ambos queridos para nós, é mais de acordo com a lei divina de preferir a verdade" (Aristóteles, Ética a Nicômaco).

Em suma, filosofar exige coragem, inclusive coragem de, numa situação extrema, romper os laços de amizade se, por alguma razão, eles obscurecem o caminho em direção à verdade. Claro está que aqueles que são amigos da verdade podem verdadeiramente ser amigos entre si.

A coragem é condição necessária para o filosofar. O indivíduo que não está preparado para enfrentar a solidão filosófica e intelectual não pode propriamente ser chamado de filósofo. Evidentemente que a coragem não é suficiente para o autêntico filosofar. Um parvo pode ser extremamente corajoso (embora seja duvidoso que ele possa ser tomado por corajoso se não compreende os riscos que assume) e muitas afirmações francamente …