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[179] Não sabemos se somos patéticos, mas não por isso o seríamos também

Colocando em perspectiva. Se não é possível que alcancemos qualquer verdade, então objetivamente não faz sentido buscarmos quaisquer verdades. Uma vida em busca de verdades seria, assim, patética e absurda. Como, porém, não faz sentido dizer que poderíamos saber esta verdade sem cair em contradição, jamais estaremos em condição de saber se vivemos uma vida patética. Podemos ao menos contemplar esta possibilidade, o que já é suficiente para nos causar certa perturbação. Ou seja, o fato de ser impossível saber que estamos na situação de sermos incapazes de alcançar qualquer verdade não nos traz qualquer conforto uma vez que a mera possibilidade de que estejamos nesta situação mina a pretensão do conhecimento de que não estamos nesta situação. Alguém pode dizer: "fácil, basta encontrarmos alguma verdade para eliminar esta possibilidade, assegurando, assim, o conhecimento de que não estamos nesta situação de absoluta ignorância". Muito justo. A dificuldade é que isto pode ser o caso sem que o saibamos. Qualquer que seja a verdade que apresentarmos, em sendo ela de fato uma verdade, ela, a verdade, eliminará objetivamente a referida possibilidade, mas disto não se segue que teremos eliminado racionalmente esta possibilidade, pois, a não ser que estejamos em condições de dizer que sabemos que a verdade que afirmamos ter em mãos é, de fato, uma verdade em oposição a uma aparência de verdade, não poderemos eliminar racionalmente a referida possibilidade. E como poderíamos com razão proclamar que sabemos que p, ainda que tenhamos boas razões para p, se contemplamos ao mesmo tempo a possibilidade de que somos incapazes de alcançar a verdade? Toda a evidência que temos disponível, ainda que ela aponte de modo avassalador para a verdade de p, é compatível com a possibilidade de que sejamos incapazes de alcançar a verdade. Parece assim que, muito embora possamos objetivamente saber alguma verdade (cremos que p, p é verdadeira e a evidência para ela é avassaladora) e, em virtude deste fato, a possibilidade de que não somos capazes de alcançar a verdade seja eliminada, nós, enquanto agentes cognitivos, não somos capazes de eliminar racionalmente esta possibilidade e, portanto, não estamos em condições de dizer que sabemos que não estamos na referida situação.

Assim, tanto não podemos, sem contradição, saber que estamos na situação de não sermos capazes de alcançar a verdade quanto não podemos racionalmente dizer que sabemos que não estamos nesta situação. Pelas mesmas razões, tanto não podemos saber que vivemos uma vida patética e absurda se procuramos a verdade quanto não podemos racionalmente dizer que sabemos não viver uma vida patética e absurda se procuramos a verdade. Ora, mas nada disso faz de nós racionalmente patéticos e absurdos se continuamos a procurar a verdade enquanto simplesmente aparecer a nós que não estamos na referida situação. E que a busque continue!

Comentários

Cleber disse…
"A dificuldade é que isto pode ser o caso sem que o saibamos. Qualquer que seja a verdade que apresentarmos, em sendo ela de fato uma verdade, ela, a verdade, eliminará objetivamente a referida possibilidade, mas disto não se segue que teremos eliminado racionalmente esta possibilidade, pois, a não ser que estejamos em condições de dizer que sabemos que a verdade que afirmamos ter em mãos é, de fato, uma verdade em oposição a uma aparência de verdade, não poderemos eliminar racionalmente a referida possibilidade."

Eu vou fazer uma objeção meio bobinha a esse cenário cético, mas gostaria de ouvir tua opinião.

Como é possível que SAIBAMOS que não sabemos que p (isto é, que saibamos que não eliminamos racionalmente a possibilidade de que ~p embora creiamos em p) sem que NÃO tenhamos afastado a possibilidade de que estejamos enganados quanto a esse estado metaepistêmico cético ele mesmo?

Por que esse estado de dúvida que também é conhecimento ("eu SEI que não sei que p porque não afastei racionalmente as alternativas relevantes de acordo com as quais ~p") não poderia virar-se sobre si mesmo? Por que, quando se trata de dizer que eu sei que não sei, esse primeiro "sei" não é alvo do mesmo escrutínio?
Eros disse…
A resposta pirrônica para isto, até aonde consigo ver, é abster-se de tomar qualquer posição sobre se sabemos ou não que não sabemos que p. Veja que eu não disse, diante da referida hipótese (HC) que não é eliminada, que não sabemos que p, mas sim que não estamos em condições de dizer que não sabemos que p. Disto não decorre que sabemos que não sabemos que p (está em jogo aqui uma distinção entre ter conhecimento e atribuir conhecimento. não estar em condições de atribuir conhecimento não implica necessariamente em não possuí-lo). Além disso, o pirrônico não dogmatiza a sua evidência, ele não dirá: "eu sei que a minha evidência é compatível com p e HC". Ele apenas dirá: (M) "parece a mim aqui e agora que a evidência disponível é compatível com p e HC". E ele sabe (M)? Talvez até saiba, mas, novamente, ele se absterá de dizer que sabe, pois não se vê em condições de dizer que sabe, a evidência disponível é novamente compatível com (M) e (HC) e, portanto, dirá apenas que: "parece a mim aqui e agora que (M)". E assim por diante.

O ceticismo pirrônico não nega, na maneira como eu o entendo, que tenhamos conhecimento, mas mina as nossas razões que nos legitimaria a dizer que o possuímos. É por isso que muitos comentadores dizem que o pirrônico ataca muito mais a justificação que o conhecimento; já o ceticismo cartesiano, ataca o conhecimento e é por esta razão que ele não resiste a críticas como a sua, a de Davidson, a de Wittgenstein e muitas outras.

Todas essas coisas estão apenas me parecendo ser assim aqui e agora.
Eros disse…
E obrigado pela objeção! Ajuda-me a entender o pirronismo ou a pensar que o entendo.
Cleber disse…
Eros, vou tentar elaborar minha objeção. Eu não tou muito familiarizado com a literatura sobre o assunto, então me perdoa a ingenuidade.

Suponhamos que eu seja o cético pirrônico. Suponhamos que eu tenha evidência para p, mas que não afastei a possibilidade de que ~p. Daí, segue-se que eu não sei que p. Acho que até aí estamos de acordo (a nossa divergência anterior está em que eu afirmava que daí seguia-se que eu SEI que não sei que p). Daí, também, segue-se que eu não estou em condições de dizer acerca de mim mesmo que sei que p nem que sei que ~p.

O que eu quero é tentar demonstrar que esse meu estado não é isento de uma crença metaepistêmica (uma crença sobre a minha situação de ignorância). Vou tentar provar que, mesmo que eu me abstenha de me pronunciar sobre o meu estado de ignorância, essa abstenção NÃO É ausência de crença (como eu imagino que tu queira me caracterizar). Vou tentar demonstrar, em seguida, que essa crença é incompátivel com a minha da hipótese cética. E ela é incompatível porque é uma crença da forma "eu sei que...".

Creio que p e entretenho mentalmente a possibilidade de que ~p, nos mais diversos cenários clássicos das tragédia metafísica e epistemológica. Chego à conclusão de que não posso dizer que sei que p porque as não afastei a possibilidade de que ~p. Parece-me, portanto, que as evidências para p são compatíveis com ~p. Enquanto cético pirrônico, não afirmo que SEI que as evidências para p são compatíveis com ~p. No momento em que entretenho a possibilidade de que ~p, creio que (p ou ~p). Se creio que as evidências para p são compatíveis com ~p, essa minha argumentação ela mesma é evidência para ~p (se o meu argumento cético contra mim mesmo NÃO fosse evidência para ~p, não haveria razão sequer para eu cogitar a possibilidade de ~p). Portanto, eu creio que (p ou ~p) e tenho evidência tanto para p quanto para ~p. Portanto, uma vez que creio (p ou ~p) e tenho evidência para ambos, eu falo de mim para mim mesmo que SEI que (p ou ~p). Eu creio em "eu sei que (p ou ~p)".

Ora, como cético pirrônico, eu devo considerar as evidências que possuo e chegar à conclusão de que não posso falar isso. Mas, para falar que "eu sei que (p ou ~p)" é falso (conhecimento é crença verdadeira justificada, eu penso), eu devo ou negar que creio que (p ou ~p), devo negar que (p ou ~p) é o caso ou devo negar que tenho justificação para (p ou ~p). Negar que (p ou ~p) é o caso é logicamente impossível. E negar tanto que creio que (p ou ~p) ou negar que tenho evidência para (p ou ~p) é, ipso facto, solapar as bases do próprio fundamento para eu iniciar a dúvida cética.

Eu não sei se fui claro.

Eu tenho um sentimento de que o cético sempre acaba, ao fim e ao cabo, comendo o próprio rabo. Além disso, não me satisfaz a tua declaração de que o cético pirrônico se abstém de pronunciar-se sobre o seu estado metaepistêmico. Parece-me, e isso foi o que tentem mostrar, que, no momento em que o cético põe-se em dúvida, ele, ipso facto, entretém uma crença metaepistêmica da forma "eu sei que..." que é incompatível com a emergência da dúvida ela mesma.

Vê o que tu acha. Não sei se tu terá tempo para analisar o argumento, mas digo que me diverti bastante escrevendo isso aqui. hehehe
Eros disse…
Oi Cleber,

"Suponhamos que eu seja o cético pirrônico. Suponhamos que eu tenha evidência para p, mas que não afastei a possibilidade de que ~p. Daí, segue-se que eu não sei que p".

Para o Pirrônico, não se segue; para o cartesiano, se segue. Se o conhecimento é factivo e se ele é crença verdadeira justificada, o Pirrônico pode ter a crença que p (ainda que ele não se auto-atribua esta crença), ter evidência para ela e ela ser verdadeira, e, portanto, ter conhecimento.

O pirrônico também não diria "creio que p e entretenho mentalmente a possibilidade de que ~p", mas sim: "entretenho mentalmente a possibilidade de que p e a possibilidade de que ~p". O que aparece evidente para ele não é tomado como crença, embora seja usado como guia para a vida prática, inclusive para raciocinar e argumentar.

Mas vamos ao teu argumento, vou reformular algumas coisas, pois não me parece que o pirrônico se auto-atribua crenças de partida. Parece que tenho a evidência E e parece que ela é compatível com p e com ~p. Se E é compatível com p, então parece que E é evidência para p. De igual modo, Se E é compatível com ~p, então parece que E é evidência para ~p. E, assim, parece que E é evidência para (p ou ~p). E, assim, eu deveria poder estar em condições de dizer "eu sei que (p ou ~p).

Mas E também parece ser compatível com HC. Mas se HC é verdadeira, então E não é suficiente para estabelecer (p ou ~p) em detrimento de HC. Esta é a quarta possibilidade que você não considerou. E continua sendo evidência para (p ou ~p), mas E também é evidência para HC. Na impossibilidade de decidir, o pirrônico não se vê autorizado a dizer que sabe que (p ou ~p).

O que eu acho problemático nesta argumentação pirrônica é a própria HC (estou na situação de não ser capaz de alcançar a verdade). Parece que, em princípio, ela é compatível com qualquer E. Mas então eu não deveria pelo menos poder dizer que sei que HC é compatível com qualquer E? E, neste caso, eu deveria poder dizer que conheço HC, o que geraria uma franca contradição. O problema é que,se entretenho a possibilidade de HC, então não posso dizer que HC é compatível com qualquer E, ainda que me apareça aqui e agora como sendo. Portanto, parece que também não estou autorizado a dizer que sei que HC é compatível com qualquer E.

Muito boa a discussão, mas acho que agora só poderei voltar à ela depois da ANPOF.
rapsodo disse…
Uma contribuição embasada em alguns aspectos do raciocínio do filósofo Derrida. Segundo tal linha de raciocínio, poderíamos perguntarmos como se configura ou está configurada a idéia de verdade, ou seja, como sei que algo é verdade senão a partir de um referencial de oposição? O que temos então seria a condição de verdade na pretensão do "único" no omento em que se estabelece como tal. A crítica ou a denúncia de Derrida seria a partir desta condição binária , herança de uma metafísica da "presença" que teve seu início em Platão, onde uma necessária hierarquia é enfatizada tal como assim foi entre mundo intelgível e mundo sensível e a partir daí Belo e o que não é belo, verdadeiro e falso, presença ausência verdadeiro e falso e enfim fala e escrita. Tudo dentro desta configuração aponta para uma verdade que se estabelece naturalmente e de forma original, ou seja , inquestionável e assim o privilégio em uma oposição sempre pender para um lado em detrimento de outro. Seria possível escapar deste binômio imposto e aceito dentro da própria concepção de epistême? Talvez através da suspeita do que e do como estas configurações de verdade se estabelecem e talvez ainda seja possível observarmos que tal estrutura repouse em identidades vazias por nos colocarmos naquilo que o filósofo franco argelino denominou como indecidibilidade.

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