Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2006

[51]

Boa piada Filosófica, sobre como refutar a existência de uma cadeira. Se você não pode simplesmente negar que algo existe, então a melhor estratégia para negar que algo existe é simplesmente ignorar que este algo existe. Assim o ônus da prova é do seu oponente. Ele é quem tem de provar que esse algo existe.

[50]

O que significa dizer 'eu creio na razão'? Por analogia à frase 'eu creio eu Deus', quer dizer que a pessoa que a enuncia acredita na existência da razão. Neste caso, supõe-se que a razão seja alguma coisa. Mas não me parece que seja isso que se tenha em mente ao enunciar 'eu creio na razão'. Este enunciado seria melhor parafraseado por 'eu confio na razão', ou, para detalhar um pouco mais, 'eu confio na razão como meio para solucionar problemas'. Aqui a razão é mais um meio, um processo e menos um objeto, o que nos gera de imediato dois tipos de problema: i) que tipo de processo a razão encerra e ii) como podemos saber que a razão é um processo confiável para solucionar problemas? Ambas as perguntas podem ser respondidas de várias maneiras e a segunda só pode ser enfrentada se pressupormos uma resposta para a primeira. Uma solução comum para a primeira é identificar o referido processo com o processo de raciocinar, de inferir, e dizer que ele é…

[49]

Se eu sugerisse que entre a Terra e Marte há uma bule chinês girando em torno do sol em uma órbita elíptica, ninguém estaria apto a refutar a minha afirmação desde que eu fosse cuidadoso o bastante e acrescentasse que o bule é muito pequeno para ser revelado pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se eu seguisse adiante e disesse que, visto que a minha afirmação não pode ser refutada, duvidar dela seria uma presunção intolerável por parte da razão humana, então dever-se-ia naturalmente pensar de mim que falo um contra-senso. Se, no entanto, a existência desse bule fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada a cada domingo, e implantada na mente das crianças na escola, então a hesitação em acreditar na sua existência seria uma marca de excentricidade e legitimaria chamar, sobre o incrédulo, a atenção do psiquiatra em uma era iluminada e a do Inquisitor em um tempo passado. (Russell).

Wittgenstein também trata, em Da Certeza, de asserções que são indubitáveis. …

[48]

Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.

[47]

Toda paixão, com efeito, por mais etérea que possa parecer, na verdade enraíza-se tão somente no instinto natural dos sexos; e nada mais é que um instinto sexual perfeitamente determinado e individualizado. (Schopenhauer)

Esta é, basicamente, a tese que Schopenhauer desenvolve no seu livro "Metafísica do Amor". O amor tem um fundamento, o instinto dirigido à perpetuação da espécie. Eu não duvido da acuidade biológica desta afirmação. É bem provável que todos os sistemas neurais que possibilitam as sensações e experiências amorosas tenham sido selecionados naturalmente. Também não duvido que o meu faro sexual seja dirigido pelo instinto. Eu só acho que o nome do livro deveria ser "A biologia do Amor". Saber qual é a causa do amor não nos ajuda em absolutamente quase nada para saber como é o amor e os significados que ele pode vir a ter para a existência humana. O que muda na minha vida enquanto vivo um amor? E depois de vivê-lo, que impressões ele deixa? Que novos ho…

[46]

Quanto mais consciência houver, tanto mais eu haverá. Pois que, quanto mais ela cresce, mais cresce a vontade, e haverá tanto mais eu quanto maior for a vontade. Num homem sem vontade, o eu é inexistente. Todavia, quanto maior for a vontade maior será nele a consciência de si mesmo (Kierkegaard).

Sim. Mil vezes sim. Um homem em um rio. Ele tem uma escolha. Nadar contra a correnteza ou deixar-se levar por ela. A força que precisa fazer para ir contra o rio é a medida da sua vontade. A física aqui é clara. A reação do rio ao seu ímpeto dar-lhe-á a consciência corpórea da sua própria força. Aquele que se deixa levar pela correnteza, ao contrário, não sente um movimento sobre si e, portanto, não tem como se perceber. A escolha do homem no rio é completamente visível àqueles que permanecem na margem. Sua resistência à correnteza fa-lo-á se destacar do próprio rio, ele cavalga sobre as águas. Aqueles que se deixam levar, ao contrário, submergem e se confundem com o caldo da correnteza. Não…

[45]

Vou supor, para ser breve, que o conhecimento implica a certeza. Se eu sei que p, então estou certo que p. Se lermos "estou certo que p" como uma expressão de sucesso, então a certeza implica o conhecimento. Se eu estou certo que p, então eu sei que p, já que não posso estar em erro. Por outro lado, se lermos "estou certo que p" como uma expressão do grau de convicção, então a certeza não implica o conhecimento. Posso ter as melhores evidências em favor de p que consigo imaginar e sentir-me completamente convicto de que p, mas ainda assim, é possível que eu esteja em erro e, portanto, não saiba que p. Vamos agora ao assunto que me interessa. É possível uma decisão sem arrependimentos? Sim, se ela estiver baseada no conhecimento. Mas acredito que ela também seria possível mesmo que estivesse baseada na convicção. Vamos supor que fiz o melhor de mim ao reunir as evidências e, assim, atingi o grau máximo de convicção que poderia, naquela situação, conceber. Neste caso…

[44]

Se o encontro é efetivo, então sei que ele é efetivo. Se não é, posso me confundir e pensar que ele é efetivo. Como, então, posso saber se estou ou não a confundir? Vejamos se podemos avançar. Se ele é efetivo e eu sei que ele é efetivo, eu tenho a certeza de que ele é efetivo. Sinto-me seguro. Falo aqui da certeza psicológica, ela tem um efeito sobre a minha conduta. Se, por outro lado, o encontro não é efetivo, posso pensar que ele é efetivo e ter a mesma certeza sensitiva de que ele é efetivo. A certeza, assim, não me serve para distinguir quando realmente sei que o encontro é efetivo de quando apenas penso que ele é efetivo. Contudo, a certeza sensitiva serve para algo mais fundamental. Ela serve para que eu não perca a vida, não perca o tempo certo do encontro efetivo. Façamos um paralelo brutal. Estou no meio de uma rua e um ônibus vem violentamente em minha direção. Estou certo que o ônibus vem e que se não fizer nada, morrerei. Não importa se eu sei que o ônibus vem ou se apen…

[43]

Há um momento certo para encontrar a pessoa certa. Se ela aparecer muito antes ou muito depois, vai encontrá-la, mas não apanhá-la. Não existe destino, apenas sorte ou azar. O máximo que você pode fazer é adotar um comportamento mais arriscado. Jogue mais. Assim você aumenta as chances de encontros e desencontros. Tendo mais encontros, aumenta as chances de que algum deles possa vir a se dar no momento certo. O nosso máximo sempre é incerto.

[42]

Eu posso disputar com outro homem a atenção de uma mulher, mas não o seu amor. Amor não se disputa, nem se conquista, apenas se encontra. É por isso que eu não disputo mulher alguma. Se eu já não caio como uma luva para a alma dela, então não há mais nada que eu possa fazer.

[41]

O arrogante convence, pois consegue transmitir a sua convicção pessoal. Seu brado ecoa nas mentes alheias como uma certeza inabalável. Imagino que nestas mentes a força da locução é confundida com a justificação. Nada mais distante da verdade! Estou, contudo, sendo injusto, nem todo arrogante convence pela arrogância. Muitos, de fato, sabem e são capazes de transmitir razões junto com as suas convicções. Palmas para eles. Outros, no entanto, confiam na sua força locutora e se arrogam o direito de convencer apenas no grito. É assim! Não seja idiota! O xingamento melindra o interlocutor não-arrogante que, se não aceita de imediato a convicção do arrogante, também não a contesta. O não-arrogante teme parecer imbecil. Nisto, o arrogante tira vantagem, ele não teme errar, pois, na sua visão de si, ele não erra. Um interlocutor que se deixa melindrar pelo brado alheio e teme parecer imbecil é mesmo um imbecil.

O interlocutor ideal não se deixa levar pela percepção que a plateia tem do seu c…

[40]

Para a minha amiga que se surpreendeu com a idéia de que lógicos se deleitem com a poesia:

Ora, filósofos são criadores de possibilidades, lógicos são cientistas das possibilidades e os poetas são exploradores das possibilidades. Estas tarefas não são exclusivas, sendo assim, não é incomum ver um poeta lógico, um filósofo poeta, um lógico filósofo etc. O filósofo cria compulsivamente em virtude da sua vontade de abarcar o mundo. Às vezes, ele cria o que não pode ser criado. Cabe ao lógico, então, fazer uma faxina. Ele tem compulsão por limpeza. Verdade seja dita, o lógico também é muito criativo e engenhoso. Suas ferramentas usadas para limplar a sujeira deixada pelo filósofo são forjadas por ele mesmo. Mas de que adiantaria um mundo rico e limpo se não houvesse ninguém para explorá-lo? Então vem o poeta que aponta as belezas que o filósofo nem vê ao criar, que se diverte interagindo com as novas possibilidades. O poeta vive compulsivamente. Um precisa do outro. O filósofo carece do es…

[38]

Assuma o seu presente, decida! Metade do seu corpo está para fora de um poço. Suas pernas estão para o lado de dentro. Alguns fantasmas as seguram e puxam para baixo. Elas são o seu passado. Seu futuro é todo o horizonte que você pode vislumbrar do lado de fora mais tudo aquilo que está além dele. Uma planície infinita com direções infinitas. Você tem medo de escolher o caminho errado. Mas que sentido tem falar de caminhos certos ou errados se são em número infinito e se você não tem a perspectiva do destino? Se fosse possível percorrer todos eles e comparar os seus destinos, talvez pudéssemos falar em pior ou melhor caminho. Esta possibilidade, contudo, não existe. Aceite a sua limitação. Só tens um destino visível: a escolha. Seja forte, balance as pernas, chute seus fantasmas. Ninguém disse que seria fácil. Quando conseguir sair do poço, não olhe para dentro. Seus fantasmas inspiram compaixão, irão pedir a tua mão, como se eles pudessem ultrapassar a linha do presente em direção ao…

[37]

Quem é mais livre, aquele que se deixa levar pelas suas paixões ignorando os seus imperativos morais ou aquele que as enfrenta para seguir os ditames da razão? Os gritos de Nietzsche contra o espírito apolínio nos atordoa. Não é ele um grilhão, uma prisão para os impulsos criativos? Por outro lado, não é menos verdadeiro dizer que somos escravos das nossas emoções. O arrependimento ilustra bem isso. A sua força é proporcional à intensidade da paixão que causou a ação desditosa. Quem devemos libertar, a vontade ou a paixão? Essa tensão é a base da esquizofrenia humana.

[36]

Quanto mais certeza você quiser, menos certezas você terá. Descartes e a sua dúvida hiperbólica que o digam. Se eu aceito a pergunta cética, ao ceticismo sou levado. Posso honestamente não aceitá-la?

[35]

Você acorda pela manhã em uma amnésia profunda, não se lembra de nada, nem mesmo o seu nome. O desespero toma conta por você não saber quem é. Mas o fato é que agora você tem a chance de ser quem realmente é. Sem o peso do passado, as escolhas do presente ficam levíssimas. Você pode se escolher sem medos ou traumas.

[34]

Escolher não é difícil em virtude de todas as conseqüências que se terá de arcar. Isso é fácil, pois geralmente temos como medir o peso das conseqüências e se seremos capazes de suportá-lo. Escolher é difícil por causa do peso inestimável de todos os seus EUs possíveis que você deixa definitiva e irremediavelmente para trás quando opta por apenas um deles. A escolha envolve sempre uma negação múltipla de si. Os nostálgicos sofrem mais para escolher.

[33]

Se assumo como dado aquilo que aparece diretamente à consciência, então proposições podem ser dadas. Algumas crenças são formadas sem um processo de reflexão ou inferência consciente, são automáticas, são formadas por mecanismos sub-pessoais. Pode-se dizer que a experiência traz à consciência uma determinada crença. Algumas memórias também são dadas. Elas simplesmente aparecem, embora outras possam ser evocadas por um processo que demanda concentração e atenção. Mas, ainda assim não seriam dadas, no momento em que surgem? Mas o essencial do dado não é ele simplesmente ser dado, mas ser dado com uma determinada força, é ele aparecer ao sujeito impondo o seu conteúdo. O sujeito não se sente confortável em questioná-lo. Isso elimina boa parte das memórias e a maiora das crenças. E uma experiência é sempre mais dada que qualquer crença.

[32]

Teoria internalista mínima da justificação: a crença p está justificada para S pelo estado mental de conteúdo q somente se S tem acesso consciente ao conteúdo q e q torna p provável.

Teoria internalista doxástica mínima da justificação: a crença p está justificada para S pela crença q somente se S q é uma crença ocorrente e q torna p provável.

Teoria internalista procedural mínima da justificação: a crença p está justificada para S pelo estado mental de conteúdo q somente se S tem acesso consciente ao conteúdo q, S obteve p baseando-se em q e q torna p provável.

Teoria internalista procedural robusta da justificação: a crença p está justificada para S pelo estado mental de conteúdo q somente se S tem acesso consciente ao conteúdo q, S obteve p baseando-se em q, q torna p provável e S teve acesso consciente ao procedimento por meio do qual obteve a crença p ao se basear em q.