Vou supor, para ser breve, que o conhecimento implica a certeza. Se eu sei que p, então estou certo que p. Se lermos "estou certo que p" como uma expressão de sucesso, então a certeza implica o conhecimento. Se eu estou certo que p, então eu sei que p, já que não posso estar em erro. Por outro lado, se lermos "estou certo que p" como uma expressão do grau de convicção, então a certeza não implica o conhecimento. Posso ter as melhores evidências em favor de p que consigo imaginar e sentir-me completamente convicto de que p, mas ainda assim, é possível que eu esteja em erro e, portanto, não saiba que p. Vamos agora ao assunto que me interessa. É possível uma decisão sem arrependimentos? Sim, se ela estiver baseada no conhecimento. Mas acredito que ela também seria possível mesmo que estivesse baseada na convicção. Vamos supor que fiz o melhor de mim ao reunir as evidências e, assim, atingi o grau máximo de convicção que poderia, naquela situação, conceber. Neste caso, não há como se arrepender, pois isso implicaria em pensar que poderia ter reunido mais evidências para lhe basear a decisão. Uma outra questão. É legítimo que me recriminem por voltar atrás em uma decisão? Sim, se eu decidi baseado no conhecimento, então só por ignorância ou por um impulso irracional poderia voltar atrás. Contudo, se decidi baseado na convicção, então, pelo menos epistemicamente, não posso ser recriminado por voltar atrás. Se no decurso da minha ação percebo que as minhas evidências eram parcas, mesmo que, ao decidir, não pudesse conceber como não poderiam ser suficientes, estou completamente legitimado a voltar atrás. O que talvez alguém possa me dizer é que, embora eu não possa ser recriminado epistemicamente por voltar atrás em uma decisão baseada na convivcção, eu posso ser recriminado moralmente não tanto por voltar atrás, mas por baseá-la na convicção. Decisões deveriam se basear apenas no conhecimento. Contudo, exigir que eu tome todas as minhas decisões com base no conhecimento é exigir, em termos práticos, que eu quase nada decida. E estando nós no mundo empírico, parece-me menos moral fazer essa exigência do que seguir em frente com base nas minhas convicções.
Irracionalismo é a tese de que os nossos julgamentos são arbitrários. O irracionalismo pode aplicar-se apenas a um setor do conhecimento humano. Por exemplo, podemos ser irracionalistas morais. Assim, julgamentos morais sobre como agir, o que fazer, o que é certo e errado são arbitrários, não temos uma razão para eles, eles não se fundam em nada que possa legitimá-los diante dos outros. Podem ser fomentados por nossas emoções ou desejos, mas nada disso tira a sua arbitrariedade diante da razão. Chegaríamos ao irracionalismo moral se tivéssemos razões para pensar que não há nada na razão que pudesse amparar julgamentos morais. Isto é, dado um dilema moral do tipo "devo fazer X ou ~X", não há ao que apelar racionalmente para decidir a questão. Donde se seque que, qualquer decisão que você tomar, seja a favor de X, seja de ~X, será arbitrária. Como poderia a razão ser tão indiferente à moralidade? Primeiro vejamos o que conferiria autoridade racional a um julgamento moral, pois ...
Comentários