Vou supor, para ser breve, que o conhecimento implica a certeza. Se eu sei que p, então estou certo que p. Se lermos "estou certo que p" como uma expressão de sucesso, então a certeza implica o conhecimento. Se eu estou certo que p, então eu sei que p, já que não posso estar em erro. Por outro lado, se lermos "estou certo que p" como uma expressão do grau de convicção, então a certeza não implica o conhecimento. Posso ter as melhores evidências em favor de p que consigo imaginar e sentir-me completamente convicto de que p, mas ainda assim, é possível que eu esteja em erro e, portanto, não saiba que p. Vamos agora ao assunto que me interessa. É possível uma decisão sem arrependimentos? Sim, se ela estiver baseada no conhecimento. Mas acredito que ela também seria possível mesmo que estivesse baseada na convicção. Vamos supor que fiz o melhor de mim ao reunir as evidências e, assim, atingi o grau máximo de convicção que poderia, naquela situação, conceber. Neste caso, não há como se arrepender, pois isso implicaria em pensar que poderia ter reunido mais evidências para lhe basear a decisão. Uma outra questão. É legítimo que me recriminem por voltar atrás em uma decisão? Sim, se eu decidi baseado no conhecimento, então só por ignorância ou por um impulso irracional poderia voltar atrás. Contudo, se decidi baseado na convicção, então, pelo menos epistemicamente, não posso ser recriminado por voltar atrás. Se no decurso da minha ação percebo que as minhas evidências eram parcas, mesmo que, ao decidir, não pudesse conceber como não poderiam ser suficientes, estou completamente legitimado a voltar atrás. O que talvez alguém possa me dizer é que, embora eu não possa ser recriminado epistemicamente por voltar atrás em uma decisão baseada na convivcção, eu posso ser recriminado moralmente não tanto por voltar atrás, mas por baseá-la na convicção. Decisões deveriam se basear apenas no conhecimento. Contudo, exigir que eu tome todas as minhas decisões com base no conhecimento é exigir, em termos práticos, que eu quase nada decida. E estando nós no mundo empírico, parece-me menos moral fazer essa exigência do que seguir em frente com base nas minhas convicções.
Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...
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