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Quanto mais consciência houver, tanto mais eu haverá. Pois que, quanto mais ela cresce, mais cresce a vontade, e haverá tanto mais eu quanto maior for a vontade. Num homem sem vontade, o eu é inexistente. Todavia, quanto maior for a vontade maior será nele a consciência de si mesmo (Kierkegaard).

Sim. Mil vezes sim. Um homem em um rio. Ele tem uma escolha. Nadar contra a correnteza ou deixar-se levar por ela. A força que precisa fazer para ir contra o rio é a medida da sua vontade. A física aqui é clara. A reação do rio ao seu ímpeto dar-lhe-á a consciência corpórea da sua própria força. Aquele que se deixa levar pela correnteza, ao contrário, não sente um movimento sobre si e, portanto, não tem como se perceber. A escolha do homem no rio é completamente visível àqueles que permanecem na margem. Sua resistência à correnteza fa-lo-á se destacar do próprio rio, ele cavalga sobre as águas. Aqueles que se deixam levar, ao contrário, submergem e se confundem com o caldo da correnteza. Não existem para si e muito menos para os outros.

E eu adianto: um homem só pode ser livre tendo vontade, pois a escolha só é possível tendo-se consciência do eu escolhido. Quanto mais vontade houver, tanto mais livre será. Só a consciência plena de si lhe permite seguir em frente. Não são as razões que me movem, isto seria extemporâneo, mas sim o meu eu ciente de si mesmo.

Comentários

Leben disse…
Há alguém que, em sã e plena consciência da importância e gravidade da vida, deixa-se levar pela correnteza? Há? Conhece alguém assim? Conhece alguém que acredite que o ser humano nada, integral e lucidamente, sempre a favor da correnteza e impelido por ela?

Um homem não só pode ser livre tendo vontade; esta não é condição primeira da liberdade. Um homem somente pode ser livre se puder escolher, ou não escolher, ao longo da vida – com a MÁXIMA consciência de si – entre várias possibilidades.
Se o ser humano tem ou terá vontades, eis aí uma outra questão...
E essa consciência fundamental de si, preliminarmente, somente pode ser adquirida e construída através de um respeito incondicional estrito.


Sinto que preciso pensar mais nesse filosofema de n° 46...
awks disse…
Que se deixa levar a vida inteira, provavelmente não, mas que se deixam levar na maior parte do tempo, sim. Nem todos têm fôlego para ser quem são a vida inteira.

Eu ainda mantenho. Só escolhe entre possibilidades quem tem vontade. Quem não a tem, joga dados, o que é a mesma coisa que se deixar levar.
awks disse…
Difícil é encontrar alguém que tenha passado a vida inteira, em cada instante , nadando contra a correnteza.
Leben disse…
Conheço pessoas que sempre tiveram fôlego, de ser quem são, a vida inteira, e que passaram e passam, a cada instante daquela, nadando contra a correnteza.

Mantenho o que disse: é necessário, antes de se pensar em ter ou não vontade, estar pleno para ver as possibilidades. Não se deve confundir a possibilidade (enquanto direito) de ser pleno (que deve preceder a tudo) com a escolha, entre possibilidades, tendo-se vontade.
awks disse…
Eu conheço poucas pessoas que sempre tiveram fôlego. Não vou dizer que são mais raras, mas a minha experiência me leva a pensar que sim.

Um eu sem vontade não existe, logo, não pode ver possibilidade alguma, muito menos escolher. E vontade não pode ser confundida com desejo. Nem é algo que alguém pensa ter. É antes o fundamento para este pensamento. A vontade não deve também ser confundida com aquela motivação que costumeiramente chamamos de "força de vontade". A vontade pura se confunde com o próprio ato da escolha. Ser livre não é ter opções, mas escolher voluntariamente. Eu poderia ter uma opção só e ainda assim ser livre.
Leben disse…
Não existe um eu sem possibilidade. E é óbvio que não se confunda vontade com desejo. O homem livre é aquele para o qual foram dadas todas as condições de ter possibilidade, faça ele disso ou não, a expressão da vontade que por termos haja e possua. O próprio ato da escolha deriva da possibilidade, e não da vontade pura. Ser livre não é ter opções, mas sim a possibilidade de estar pleno para escolher ou não, inclusive entre ser ou não ser livre. se você possui toda a plenitude de possibilidade, mesmo sem opção, já é livre, haja vista que poderá construir (se desejar) as próprias opções. De que servirá a opção e a vontade se o ser não se construiu na possibilidade plena de si? De que valerão todas as letras do alfabeto, colocadas sob a égide de qualquer vontade, se não se foi dada a possibilidade integral de compreendê-las?
sANdrA fasolo disse…
Este diálogo entre o filósofo Eros & a filósofa Olga está tão genial que não vou sequer interferir. Vou é publicá-lo em um de meus blogs. Está muito especial, vocês percebem que possuem sintonia mesmo quando estão dialeticamente exercitando o pensamento um do outro?
beijos
Leben disse…
Sandra, suas palavras se vindas, tão bem-vindas, cairão, aqui, no fulcro de uma sintonia maior; jamais interferência.

O espectro tem vários comprimentos de onda, e não comporta soluções de continuidade. Destarte, suas considerações são, inequivocamente, substrato para uma maior construção e aprendizado.

Um abraço para vocês.
Leben disse…
"Chuva cai
Forte ou mansinha
Que esta terra
Quer te sugar todinha".

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