Quem é mais livre, aquele que se deixa levar pelas suas paixões ignorando os seus imperativos morais ou aquele que as enfrenta para seguir os ditames da razão? Os gritos de Nietzsche contra o espírito apolínio nos atordoa. Não é ele um grilhão, uma prisão para os impulsos criativos? Por outro lado, não é menos verdadeiro dizer que somos escravos das nossas emoções. O arrependimento ilustra bem isso. A sua força é proporcional à intensidade da paixão que causou a ação desditosa. Quem devemos libertar, a vontade ou a paixão? Essa tensão é a base da esquizofrenia humana.
Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...
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