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[180] Você se preocupa tanto quanto eu, mas enquanto faço algo, você se isenta

Nós podemos, se quisermos, aumentar as nossas dúvidas, os nossos padrões epistêmicos, ao ponto de nos fazer parecer impossível decidir uma questão de grande importância. Podemos fazer, mas por que o faríamos? Uns dirão: "porque a questão é de grande importância e não quero correr riscos, quero me isentar de qualquer responsabilidade de fazer mal a alguém". Outros dirão: "justamente porque a questão é de grande importância e afetará muitos, não posso me isentar, quero fazer o bem aos envolvidos, correrei os riscos". Parece-me que ambos estão certos, segundo diferentes razões. Há uma diferença importante: o primeiro está mais preocupado em não fazer mal aos outros; o segundo, ao contrário, está mais preocupado em fazer bem aos outros. Nenhum me parece ser moralmente melhor que o outro. Ambos se mostram igualmente preocupados com os outros. É a mesma preocupação traduzida em diferentes atitudes, uma negativa, não fazer mal, e outra positiva, fazer o bem. É preciso, no entanto, alertar para o triste destino do primeiro: em virtude do seu receio primário de fazer qualquer mal, ele corre o risco de jamais se envolver, se comprometer e mesmo amar, pois nenhuma dessas coisas se realizam, no mundo sublunar em que nos encontramos até agora, sem assumir algum risco de eventualmente fazer algum mal ao tentar fazer o bem. Triste destino que eu aponto, mas que não posso recriminar.

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