Pular para o conteúdo principal

[180] Você se preocupa tanto quanto eu, mas enquanto faço algo, você se isenta

Nós podemos, se quisermos, aumentar as nossas dúvidas, os nossos padrões epistêmicos, ao ponto de nos fazer parecer impossível decidir uma questão de grande importância. Podemos fazer, mas por que o faríamos? Uns dirão: "porque a questão é de grande importância e não quero correr riscos, quero me isentar de qualquer responsabilidade de fazer mal a alguém". Outros dirão: "justamente porque a questão é de grande importância e afetará muitos, não posso me isentar, quero fazer o bem aos envolvidos, correrei os riscos". Parece-me que ambos estão certos, segundo diferentes razões. Há uma diferença importante: o primeiro está mais preocupado em não fazer mal aos outros; o segundo, ao contrário, está mais preocupado em fazer bem aos outros. Nenhum me parece ser moralmente melhor que o outro. Ambos se mostram igualmente preocupados com os outros. É a mesma preocupação traduzida em diferentes atitudes, uma negativa, não fazer mal, e outra positiva, fazer o bem. É preciso, no entanto, alertar para o triste destino do primeiro: em virtude do seu receio primário de fazer qualquer mal, ele corre o risco de jamais se envolver, se comprometer e mesmo amar, pois nenhuma dessas coisas se realizam, no mundo sublunar em que nos encontramos até agora, sem assumir algum risco de eventualmente fazer algum mal ao tentar fazer o bem. Triste destino que eu aponto, mas que não posso recriminar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…