Pular para o conteúdo principal

[168] O que fulano disse é verdadeiro?

(A) O que fulano disse é verdadeiro?

Apesar da aparente simplicidade da questão, ela esconde certa complexidade. A pergunta, na verdade, se desdobra em duas: (1) O que fulano disse? e (2) Aquilo que fulano disse é verdadeiro? Assim, há várias maneiras de erramos ao responder a questão. Suponhamos que fulano tenha dito "bla bla bla". Podemos errar ao responder a questão (A) se dissermos "não", quando, na verdade, "bla bla bla" é verdadeiro ou "sim", quando falsa. Mas também podemos errar ao responder a questão se identificarmos erroneamente o que fulano disse, a despeito de darmos a resposta correta para o que ele realmente disse. Assim, se identificarmos o que fulano disse como "blu blu blu" e respondermos "sim" à questão (A), mesmo que "bla bla bla" seja verdadeira, teremos falhado em responder a questão.

Quando lemos um texto, para cada afirmação lida, podemos fazer a pergunta (A). Porém, como (A) se desdobra em duas questões, conforme enfatizamos mais (1) ou (2), temos dois tipos de leitura possíveis. Ou seja, podemos ler tendo por finalidade muito mais saber o que fulano realmente disse do que se o que ele disse é verdadeiro ou falso ou, ao contrário, pode nos interessar muito mais em saber se o que fulano aparentemente disse é verdadeiro ou falso do que o que ele realmente disse. Óbvio que, para saber uma coisa, temos de saber em boa medida a outra. Estes saberes não são independentes entre si. Ainda assim, o resultado da leitura sofre influência da questão enfatizada. Se enfatizamos a primeira questão, obtemos um tipo de leitura que se chama de dicto; caso enfatizamos a segunda questão, obtemos a leitura de re. Esses tipos de leitura estão muito bem formuladas por Brandom na passagem abaixo.

Eu sustento que a leitura de um texto através do seu conteúdo conceitual se dá pela exploração dos papeis inferenciais das suas afirmações: determinar com o que alguém estaria comprometido ao aceitar tais afirmações e o que poderia legitimá-lo a tais comprometimentos, qual seria a evidência a favor e contra tais comprometimentos e para o que eles seriam evidência a favor e contra. As inferências em questão são tipicamente inferências com várias premissas. Isto significa que para cada afirmação que se identificou como central ou fundamental, há uma escolha possível com respeito à fonte a partir da qual extrair hipóteses auxiliares com as quais a afirmação é unida para determinar o seu papel inferencial. Uma leitura de dicto restringe as premissas colaterais disponíveis a outras afirmações feitas no texto (ou corpus) em questão. Uma leitura crítica ou de re, entretanto, busca as suas hipóteses auxiliares não nas afirmações atribuídas ao autor sendo lido, mas nas afirmações defendidas por aquele que está fazendo a leitura - não a partir do que mais o autor toma como sendo verdadeiro, mas a partir do que é verdadeiro, segundo o leitor. O resultado é uma avaliação do que realmente se segue e seria evidência para as afirmações em questão, o que quer que seja que o autor tenha pensado. Eu não penso que uma ou outra maneira de abordar um texto, por exemplo, um texto filosófico, é "melhor" do que a outra. Cada uma oferece uma perspectiva legítima a respeito do conteúdo conceitual, isto é, o papel inferencial das afirmações feitas em um texto, cada uma provê um tipo distintivo de iluminação do texto que ela discute. Na medida em que esteja claro com que conjunto de regras se está comprometido, nenhum empreendimento deve ser pensado censurável em princípio. Tal é, de qualquer modo, a metodologia hermeneutica que a minha semântica inferencialista subscreve (Brandom, Sketch of a Program for a Critical Reading of Hegel).

Eu diria também que a leitura de dicto tenta determinar o que é verdadeiro no texto a partir da compreensão que se tem do texto, ao passo que a leitura de re tenta determinar a compreensão do texto a partir do que é verdadeiro. Estas leituras se complementam. A leitura de dicto está associada mais ao fazer história da filosofia e a leitura de re, ao fazer filosofia.
--------------------------
Leituras:

Comentários

Gregory Gaboardi disse…
Extremamente esclarecedor este texto. Me parece, inclusive, que ele é revelador acerca da natureza de uma dicotomia como 'analítica/continental'. Não que os autores se pautem por um ou outro tipo de leitura (em geral elas se encontram combinadas), mas tenho a impressão de que (como você encerra o texto) haja um enfoque maior na leitura de dicto no caso da tradição continental e um enfoque maior na leitura de re no caso da tradição analítica. Entretanto, pode ser só uma impressão equivocada e precipitada da minha parte.

De qualquer maneira, parabéns pelo texto.
Eros disse…
Obrigado Gregory.
Eu penso que o par "filosofia/história da filosofia" é menos carregado politicamente e mais frutífero para pensar as mais diversas práticas que encontramos mundo afora nos departamentos de filosofia do que o par "analítico/continental". Este último par em vários contextos provoca tantas emoções que eu o acho em geral argumentativamente catastrófico. Sem contar que é muito mais difícil/nebuloso dar condições necessárias e/ou suficiente para os conceitos deste par.
Concordo com o Greg que o texto é extremamente esclarecedor. E concordo com o Eros que, se pudermos evitar os termos "analítico" e "continental", tanto melhor.
Gregory Gaboardi disse…
Também acho que a distinção analítica/continental deveria ser superada. O problema é que recentemente li o trabalho de Deleuze (por interesse próprio, quis entrar em contato direto com aquilo pelo que eu já herdava certo preconceito)e posso dizer que confirmei as expectativas pessimistas. O apreço pela clareza ainda é uma característica distintiva (da tradição analítica ou do modo analítico de fazer filosofia) demais. Não que eu esteja generalizando, mas este apreço pela clareza ainda produz uma distinção nítida entre as tradições e me pareceu que a leitura de re é especialmente exigente na questão da clareza, isto explicaria sua intimidade com a tradição analítica. Enfim, o meu ponto é que embora a distinção analítica/continental deva ser superada, ela ainda é facilmente encontrada na literatura e, constatando suas disparidades, pode ser percebido o ênfase em um dos tipos de leitura.

Postagens mais visitadas deste blog

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…