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[176] O argumento do conhecimento de Jackson e conceitos fenomênicos

Na primeira metade do século passado, a teoria dos dados dos sentidos foi geralmente sustenta pelo argumento da ilusão (Price, Moore e Russell, para citar alguns, recorreram a este argumento). Mas já nas décadas de 50 e 60, o argumento foi duramente criticado, especialmente por Austin em Sense and Sensibilia. Alguns anos mais tarde, em 1977, Frank Jackson tenta sustentar a teoria dos dados dos sentidos por um novo caminho. Ela seria necessária para explicar certos usos não-comparativos de expressões que envolvem a locução "parecer", como em "coisas brancas parecem brancas". O que se segue abaixo é uma breve tentativa de reconstruir o argumento que estabelece que há de fato usos não-comparativos de expressões que envolvem a locução "parecer". Antes de saber se a teoria dos dados dos sentidos é necessária para explicar este uso, temos claro de nos certificar de que haja este uso.

Mary nasceu e cresceu numa sala onde todas as coisas são pretas ou brancas. Ela tem uma mente brilhante e é capaz de conhecer absolutamente todos os fatos físicos do mundo. Assim, mesmo presa na sala, Mary sabe o que há na face oculta da Lua. Embora Mary nunca tenha visto nada verde, pois não há nada colorido na sala onde nasceu e vive, Mary sabe que a grama é verde. Não há, deste modo, nenhum fato físico que Mary não saiba.
No entanto, prossegue o experimento de pensamento, há certos fatos que Mary não sabe. Mary não sabe como se parece ver a grama verde. Se Mary fosse levada para fora da sala e conhecesse o nosso mundo, apesar de saber todos os fatos físicos, ela ainda teria conhecimento para adquirir: conhecimento sobre como as coisas coloridas se parecem.

Antes de avançarmos, um esclarecimento. Se Mary está num quarto onde tudo é preto e branco, como ela poderia saber que a grama é verde? O ponto do experimento de pensamento não é ter uma história detalhada de como ela vem a saber fatos físicos tal como a grama é verde. E também concedemos que a grama é verde é um fato físico. Talvez ela só possa conhecer este fato indiretamente. Um daltônico, por exemplo, não sabe distinguir entre vermelho e verde. Mas isso não significa que ele não possa saber que morangos são vermelhos e limões são verdes. Ele pode saber estes fatos, por exemplo, por testemunho. Como Mary tem uma televisão no seu quarto e acesso aos melhores livros, talvez ela tenha aprendido assim também. Mas estes são detalhes que não queremos explorar no nosso experimento de pensamento. O ponto é: concedamos que Mary saiba todos os fatos físicos, há ainda fatos que ela desconhece? Não importa que nós, fora do quarto de Mary, geralmente saibamos alguns fatos físicos auxiliados por certas experiências que Mary, justamente por estar no quarto, não pode ter. Concedamos que ela tem como saber estes mesmos fatos por outras vias: inferências, testemunho etc. Se a grama é verde é um fato físico, então Mary conhece este fato, já que conhece todos os fatos físicos. De qualquer modo, ainda permanece a questão: há algum fato que ela desconhece? Parece que sim, parece que lhe falta conhecimento sobre como as coisas coloridas se parecem.

Mas que conhecimento é este que Mary, que conhece todos os fatos físicos que há para conhecer, ainda não sabe? Certamente não é o fato, por exemplo, de que a grama é verde. Isso Mary já sabe. O que Mary parece não saber é o fato de que a grama verde se parece assim. Assim como? Assim como ela se parece para mim e para você que vê a grama verde. Ora, mas nada impede que houvesse uma televisão preto e branca no quarto de Mary e que ela também já tivesse visto a grama verde através da televisão. Neste caso, também ela não saberia que a grama verde se parece assim? Assim como? Assim como parece para ela ao ver a grama verde na televisão.

O que falta aqui é uma maneira de captar diretamente o fato que se supõe que Mary desconhece e que viria a saber se saísse do seu quarto e olhasse para a grama verde. Afinal, qual é o fato que Mary desconhece? A intuição que nós temos é que há uma diferença entre a experiência de Mary de ver a grama verde através da televisão e a nossa experiência de ver a grama verde, para além do fato de a vermos diretamente e ela através da televisão. É esta diferença na experiência, o modo colorido como vemos a grama verde, que Mary desconhece. O que queremos é captar exatamente a maneira como o verde da grama nos parece. Precisaríamos, assim, de uma descrição direta das características da nossa própria experiência. Só assim conseguiríamos enunciar o fato exato que Mary desconhece.

O que alguns filósofos sugerem (Frank Jackson é um deles), então, é que além dos conceitos de cores que normalmente usamos para falar de objetos físicos, há também conceitos de cores para falar de propriedades intrínsecas da nossa própria experiência perceptiva: os conceitos fenomênicos. De posse desses conceitos, poderíamos, então, substituir a maneira indireta de caracterizar a experiência que temos ao ver a grama verde por uma caracterização direta. A maneira indireta era: a experiência que eu e você temos de ver a grama verde em condições normais de observação. A maneira direta é: a grama verde parece verde.

Mas Mary não conhece o fato de que a grama verde parece verde? Se Mary sabe todos os fatos físicos, por que ela não saberia que a grama verde parece verde? O ponto destes filósofos é que a locução "parece verde" tem duas acepções: uma comparativa e outra fenomênica. Mary entende apenas a acepção comparativa e, portanto, só conhece o fato comparativo. Na acepção comparativa, dizer que a grama verde parece verde quer dizer apenas que a grama verde se parece com o modo como coisas verdes geralmente se parecem. O que Mary, então sabe, ao saber que a grama verde parece verde é que a grama verde parece com o modo como coisas verdes geralmente se parecem. Porém, ela não conhece este modo, pois justamente ela não tem o tipo de experiência que eu e você temos quando vemos a grama em condições normais de observação. Ou talvez possamos dizer que ela conheça um modo, já que podemos supor que todos os objetos verdes que ela vê pela televisão preto e branca lhe aparecem, no que diz respeito ao tom acinzentado, de modo semelhante. Assim, Mary conhece a maneira como objetos verdes geralmente parecem a ela. Mas Mary não conhece a maneira como objetos verdes geralmente parecem a nós, nós que estamos fora do quarto. Novamente: Mary sabe que a grama verde tem, mesmo para nós, uma aparência similar a de outras coisas verdes vistas em condições normais de observação, mas não sabe como é esta aparência para nós. Apenas neste sentido comparativo Mary sabe que a grama verde parece verde.

Mas gostaríamos de descrever este modo particular das coisas verdes aparecem a mim e a você em condições normais de observação. Não só em condições normais de observação, pois, com iluminação adequada, uma parede branca pode parecer verde. Então alguns filósofos sugeriram que a locução "parece verde" tem, além do uso comparativo, um uso fenomênico, um uso pelo qual descrevemos não mais uma propriedade dos objetos físicos, mas uma característica intrínseca da nossa experiência. E somente as pessoas que têm a experiência adequada podem corretamente aplicar o conceito fenomênico à característica da experiência que ele visa captar. Como Mary vive num mundo preto e branco, ela não tem a experiência de tipo adequado que lhe permitiria aplicar corretamente o conceito "parece verde" em seu uso fenomênico. Quando "parece verde" é usado na acepção fenomênica, Mary, ainda no quarto, não tem como saber que a grama verde parece verde. Quem sabe, neste sentido não-comparativo, que a grama verde parece verde conhece exatamente a maneira como objetos verdes parecem em condições normais de observação.

Notemos que a introdução de conceitos fenomênicos não precisa ser epistemologicamente independente da aquisição de conceitos comparativos, nem da aquisição de conceitos para falar sobre como objetos físicos efetivamente são. Pode muito bem ser o caso que só seja possível aprender a dominar o conceito fenomênico "parece verde" depois que se aprendeu a reconhecer coisas que são coloridas e a comparar as maneiras como elas parecem, isto é, somente depois que já aprendemos um vocabulário suficientemente amplo para falar de objetos circundantes e as suas propriedades. Mas uma vez que se domina o conceito fenomênico "parece verde", estamos aptos a dizer coisas como "parece verde, mas sei que é branco" ou ainda "parece verde, mas não sei que cor tem", sem precisar pressupor que a pessoa em questão saiba identificar objetos verdes, embora tenha de saber identificar objetos de outras cores; e sem precisar até pressupor que haja objetos verdes, objetos que parecem verdes em condições normais de observação. Frank Jackson dá o exemplo de um certo matiz de vermelho que só se vê no pôr do sol, o qual não é cor de objeto algum no mundo. Este vermelho especial aparece no cenário do pôr do sol, mas não é a cor do sol. Vamos supor que chamemos este vermelho de "vermelho-pôr-do-sol". Não podemos ler o conceito "parece vermelho-pôr-do-sol" comparativamente, pois não há objetos vermelhos-pôr-do-sol e, assim, não há como tornar verdadeira uma frase como "parece com o modo como objetos vermelhos-pôr-do-sol geralmente parecem". E, no entanto, "parece vermelho-pôr-do-sol", nesta circunstância, seria verdadeira, o que mostra, segundo Jackson, que o conceito envolvido não pode ser o conceito comparativo.

Com a introdução dos conceitos fenomênicos, conceitos que captam, então, qualidades intrínsecas da nossa experiência, parece que conseguimos expressar fatos sobre a nossa própria experiência, fatos que Mary, por estar presa em um quarto onde tudo é preto e branco, não pode conhecer, mesmo sabendo absolutamente tudo que há para saber fisicamente. E, assim, Jackson chega a um argumento contra o reducionismo epistemológico. Há certos conhecimentos sobre a nossa própria experiência que não se reduzem a conhecimentos sobre o mundo físico, o nosso cérebro incluso. O argumento poderia ser resumidamente assim:

(1) Mary conhece todos os fatos físicos.

(2) Há fatos que Mary desconhece, a saber, fatos sobre como um objeto físico colorido se parece a um observador normal em condições normais de observação, i.e., a grama verde parece verde, quando "parece verde" é usada na acepção fenomênica.
:.
Logo, o conhecimento de fatos sobre como objetos físicos coloridos se parecem não se reduz ao conhecimento de fatos físicos.

Jackson apresenta o seu argumento como um argumento contra o fisicalismo: nem todos os fatos se reduzem a fatos físicos. Fatos sobre a qualidade da experiência, o modo como as coisas nos aparecem, seriam não-físicos, visto que, por suposição, Mary sabia todos os fatos físicos antes de sair do quarto preto e branco. Assim, se ela descobre algo novo ao sair do quarto, este algo novo tem de ser não-físico. Mas podemos ver também o argumento como colocando dúvidas sobre a premissa (1). Sim, Mary descobre novos fatos ao sair do quarto, fatos físicos e, portanto, ela não poderia conhecer todos os fatos físicos antes. Porém, ainda gostaríamos de marcar um contraste. Fatos sobre as qualidades da nossa experiência, embora físicos, só são conhecidos através de conceitos fenomênicos, conceitos que a Mary, antes de sair do quarto, não tinha como adquirir. O conhecimento novo que ela adquire ao sair do quarto não poderia, então, ser reduzido ao conhecimento que ela tinha antes de sair do quarto. Nesta leitura, o argumento de Jackson veta apenas o reducionismo epistemológico, mas não o ontológico e, assim, o fisicalismo poderia continuar verdadeiro.

É importante notar que o argumento de Jackson foca, em um primeiro momento, apenas o reducionismo epistemológico. O argumento acima não é suficiente para sustentar o não-reducionismo ontológico, isto é, a tese de que fatos sobre como objetos físicos se parecem não se reduzem aos fatos físicos. Pode muito bem ser o caso que o conhecimento sobre X não se reduza ao conhecimento sobre Y, mas que X se reduza a Y no nível ontológico. Em todo caso, alguns filósofos pensam ser razoável usar a tese do não-reducionismo ontológico para explicar o não-reducionismo epistemológico. Por que o conhecimento de fatos sobre como objetos físicos coloridos se parecem não se reduz ao conhecimento de fatos físicos? Ora, porque os fatos sobre como objetos físicos coloridos se parecem não se reduzem aos fatos físicos. Contudo, esta é apenas uma explicação possível e sem um argumento independente a seu favor, ela não tem força contra outras explicações igualmente possíveis, por exemplo, a de que o não-reducionismo epistemológico se deva a características do nosso aparato cognitivo.

Há várias maneiras de resistir ao argumento de Jackson e elas têm sido sistematicamente defendidas por vários filósofos: (1) uma delas é tentar bloquear a introdução dos conceitos fenomênicos, isto é, conceitos fenomênicos, na verdade, não existem, pois não conseguimos pensar coerentemente suas condições de aplicação e correção; (2) outra é conceder que os conceitos fenomênicos existem, que só aqueles que têm as experiências adequadas podem aplicá-los corretamente etc; mas que isto não impede o conhecimento de fatos expressos através destes conceitos por meio de conceitos não-fenomênicos, isto é, Mary poderia conhecer que a grama verde parece verde mesmo quando "parece verde" é usado na acepção fenomênica, embora o seu conhecimento deste mesmo fato fosse mediado por outros conceitos.

Em um momento posterior, desenvolverei argumentos em favor de (1) e (2).

* O argumento de Jackson não deve ser confundido com o argumento do "como se parece ser" de Thomas Nagel. Nagel explora a idéia de que, por mais que saibamos toda a física sobre o que são morcegos, não conseguimos imaginar como é ser um morcego. O que Nagel aponta vai além do que demanda o argumento de Jackson. O que está em questão no argumento de Nagel é a irredutibilidade da perspectiva da primeira pessoa à perspectiva da terceira pessoa. O argumento de Jackson não explora a idéia de que Mary não tem como saber como é ser uma outra pessoa qualquer fora do quarto. O conhecimento da perspectiva da primeira pessoa, que envolve o conhecimento do que é ser uma pessoa ou um animal, também extrapola a física. Porém, o argumento de Jackson não vai tão longe. Quando Mary sai do quarto, ela descobre algo sobre eu e você, ela descobre como é ou como se parece uma propriedade da sua e da minha experiência sem precisar, com isso, ter um conhecimento de como é ser eu ou você. É verdade que este conhecimento que Mary adquire é pelo menos parte do conhecimento de como é ser eu ou você.

Leituras:

Jackson, F. Perception. Cambridge University Press, 1977.

Jackson, F. What Mary Didn't Know. The Journal of Philosophy, 85(5), 1986, pp. 291-295.

Jackson, F. Epiphenomenal Qualia. The Philosophical Quarterly, 32(127), 1982, pp. 127-136

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Agradeço ao amigo e professor Alexandre Machado por comentários e críticas à primeira versão da postagem.

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