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[165] Das diferenças argumentativas entre a primeira pessoa do singular e do plural

Constantemente me chamam a atenção por mesclar, em um mesmo texto, a primeira pessoa do singular com a primeira pessoa do plural. Dizem que, por uma questão de estilo, é preciso uniformizar. Eu acho essa razão muito fraca e que deixo de transmitir informação relativamente valiosa ao leitor quando uniformizo. Meus usos da primeira pessoa do singular e do plural seguem um padrão muito bem definido: no singular, quando quero deixar claro os meus compromissos teóricos, o que eu vou defender, qual é o objetivo do texto que escrevo, quais premissas dúbias assumo como verdadeiras; no plural, quando a argumentação está sendo propriamente desenvolvida, quando, supondo os compromissos explicitados, com os quais o leitor não precisa estar em absoluto de acordo, o raciocínio a partir deles deve soar pelo menos razoável a qualquer leitor. É também a diferença entre não convidar o leitor a defender o que defendo e convidar o leitor a pensar comigo em uma defesa particular do que defendo.

Estilo nem sempre tem razão, menos razão ainda quando, por exemplo, importamos uma norma estilística literária para o contexto da escrita filosófica. Alternar entre sinônimos pode, na literatura, enfadar menos o leitor, mas na filosofia, propicia a confusão conceitual. Não sei qual é o rationale da uniformização do número da pessoa nos mais diversos contextos de discurso, mas me parece claro, e agora estou inclusive sendo coerente com o que digo, ao usar a primeira pessoa do singular, que, num contexto francamente argumentativo, é mais razoável não uniformizar do que uniformizar, pelos motivos arrolados acima.

A este respeito eu sigo bem de perto o Descartes das Meditações Metafísicas. Na primeira meditação, onde ele vai introduzir o argumento do sonho, ele começa, na primeira pessoa, narrando a situação em que ele se encontra, em especial, a situação epistêmica de não conseguir distinguir sono de vigília: "quantas vezes aconteceu-me sonhar, à noite, que estava neste lugar, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse todo nú em minha cama?". A primeira pessoa do singular marca algo que ele está assumido, algo que ele vai defender. Porém, em seguida, quando ele vai desenvolver o argumento em favor da tese de que a experiência de vigília é indistinguível da experiência de sonho, ele usa a primeira pessoa do plural: "Suponhamos então, agora, que estamos adormecidos...que abrimos os olhos, que remexemos a cabeça, que estendemos as mãos...". Alguém em sã consciência pediria a Descartes para reescrever as suas meditações uniformizando os usos da pessoa do discurso?

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