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[154] O que extrair da diafonia filosófica?

A passagem pela história da filosofia é, em grande medida, uma experiência cética, muito embora, não seja, em si mesma, um argumento robusto em favor do ceticismo, em especial um ceticismo que levante dúvida geral sobre a possibilidade de se obter conhecimento filosófico. Porém, esta experiência da diafonia certamente contribui para o reconhecimento de um ceticismo mais brando: é mais difícil chegar a um consenso em assuntos filosóficos que em assuntos físicos. Do que não se segue que seja impossível. Uma explicação para esta dificuldade mais acentuada é que a verdade filosófica é mais complexa ou difícil de ser obtida. Outra é que talvez ela não exista. A diafonia filosófica ela mesma, no entanto, não é mais evidência para uma do que para a outra explicação.

Desta diafonia, a qual todos os filósofos são submetidos durante a sua formação, pelo menos aqueles que passaram por uma formação acadêmica, era de se esperar que estes mesmos filósofos extraíssem algumas regras de prudência, em especial, esta : não tachar a filosofia do vizinho como não-filosófica. Pode-se ficar tentado a aceitar uma exceção: a não ser que se muna de argumentos muitos bons, não tacharás a filosofia do vizinho como não-filosófica. Esta exceção, no entanto, já é, aos olhos de alguns filósofos, por demais filosófica, já encorpora, digamos, a idéia restritiva de que toda tese filosófica precisa ser sustentada por argumentos. E talvez haja muitos filósofos que aceitem que se possa defender uma tese filosófica simplesmente arrotando-a. Neste caso, a mencionada exceção seria, na verdade, um preconceito filosófico. Podemos tentar uma exceção mais branda: não tachar a filosofia do vizinho como não-filosófica a não ser que haja amplo consenso entre os filósofos de que aquela "filosofia" não é filosofia. Esta exceção tem a vantagem de nos legitimar a desclassificar a proclamação que um filósofo faça de que, por exemplo, a astrologia é filosófica. Porém, ela tem a desvantagem grave de favorecer em demasia a parcimônia e a inércia da tradição filosófica. Ela nos legitimaria a rejeitar um novo modo de pensar que talvez pudesse ser uma extensão da tradição filosófica. Outra desvantagem desta exceção é a dificuldade em determinar a amplitude do consenso que legitimaria a sua aplicação. A questão não é fácil e certamente precisaria de um acordo prévio que não podemos, neste assunto, pressupor. Assim, também esta exceção não é razoável.

Na verdade, nem mesmo a regra inicial é razoável, ela é forte demais. Não tachar jamais a filosofia do vizinho parece já incorporar algo muito mais radical do que a experiência da diafonia nos licencia, parece implicar a tese negativa de que nenhuma verdade filosófica jamais poderá ser obtida, uma verdade, por exemplo, que ilumine claramente que um certo discurso não é filosófico. Ainda assim, acho que a experiência da diafonia filosófica tem algo a nos dizer no terreno ético-prático, algo assim: seja absolutamente o mais prudente e responsável possível antes de proferir que a filosofia do vizinho é não-filosófica. Fazer isto é ser justo com a história da filosofia ou com a experiência que você tem ao passar por ela, além de ser respeitoso com o seu colega de trabalho.

Comentários

Só posso dizer que concordo. Às vezes é difícil ser assim, prudente. Mas o que chateia não é a falha de alguém ao tentar sê-lo, mas o fato de sequer tentar.
Eros disse…
Oi Alexandre,

De fato, não é fácil, diria até que é dificílimo, mas por isso mesmo que virtude não é algo que se conquista ou se obtém, é algo que exercemos, às vezes bem, outras vezes não muito bem.

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