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[161] Modos de filosofar, filosofia e política

A filosofia tem muitos modos de ser, sem que nenhum tenha privilégio sobre os outros, ou pelo menos muitos deles são tão dignos e louváveis quanto qualquer um dos outros. Levou alguns séculos para que o comentário, um modo particular de filosofar, pudesse vir a ser. Ele sugriu apenas no séc. II a.C. A consciência nítida da diferença entre o comentário e a discussão aparece pela primeira vez em Alexandre de Afrodísio: "Essa forma de discurso (a discussão de teses) era habitual entre os antigos, e é dessa maneira que eles davam suas aulas, não comentando os livros como é o caso agora (com efeito, nessa época não havia livros desse gênero), mas, sendo posta uma tese, eles argumentavam a favor ou contra, para exercer sua faculdade de criar argumentações, apoiando-se em premissas admitidas por todos".

É natural que o comentário só tenha surgido após o estabelecimento de uma certa tradição, de outro modo, não haveria o que comentar. Porém, não é trivial que, uma vez que estejam dadas as condições para que o comentário possa surgir, o comentário necessariamente tenha de surgir. É muito menos trivial ainda que, uma vez surgido, ele seja mais louvável que o modo de filosofar que se tinha até então. E, no entanto, muitos filósofos levantam a bandeira em favor de um único e exclusivo modo de filosofar. Como encarar o levantar desta bandeira? É ele um ato político, filosófico ou a filosofia é necessariamente política?

Este ato pode ser filosófico. O filósofo pode basear-se numa filosofia da história da filosofia para chegar a uma certa monotonia do filosofar. Ele poderá dizer, por exemplo, que o filosofar é o produto de um lugar e de uma época. Só há variedade na sucessão, mas em um momento e lugar precisos, há apenas um filosofar legítimo. Pode ser que haja uma dinâmica nesta sucessão, o que serviria para justificar o "disparate" em tentar reavivar modos passados de filosofar. Claro que a própria filosofia da história da filosofia deverá ser feita no modo apropriado ao seu tempo. Esta auto-aplicação da filosofia a si mesma não é, neste caso, uma ameaça à sua legitimidade, como parece acontecer com algumas versões do relativismo, ela apenas implica restrições ao modo de fazer a filosofia da história da filosofia. Assim, parece inteligível que um filósofo defenda filosoficamente que certos gêneros filosóficos/modos de filosofar são mais apropriados do que outros para o filosofar em um determinado período.

Porém, é inegável que haverá embate. Um outro filósofo pode defender uma filosofia da história da filosofia diferente. Enquanto para o primeiro, agora, só deveríamos filosofar pelo modo X, para o segundo filósofo, só deveríamos filosofar agora pelo modo Y. Pode haver ainda um terceiro filósofo que nega a necessidade de haver qualquer restrição quanto aos modos de filosofar em qualquer época, e um quarto que nega esta necessidade pelo menos para a época presente...

Tendo em vista esta diafonia filosófica quanto aos modos legítimos de se filosofar, gostaríamos de poder dizer o seguinte: (1) cada um dos 4 ou mais filósofos está legitimado em defender as suas posições; (2) mas nenhum dos filósofos está completamente legitimado a, tendo o poder para fazê-lo, eliminar modos de filosofar diferentes daquele que preconiza. Ou seja, embora aceitemos que qualquer um defenda qualquer ideia, não aceitamos que qualquer ideia possa servir de guia para as nossas decisões ou possa servir sempre e sem maiores restrições. É justamente neste ponto que alguns filósofos levantam novamente a bandeira. Eles sustentam que a restrição de não aceitar qualquer ideia como guia de ação está assentada na pressuposição de que a ausência de certeza absoluta bloqueia o uso de uma ideia na prática com toda a sua força. Eles dizem que esta pressuposição está atrelada a uma outra: há uma verdade, no caso em questão, sobre o modo correto de se filosofar no período X, a ser obtida. Seguem afirmando que não compartilham estas pressuposições. E, na ausência destes pressupostos, sustentam que filosofia e política convergem. O que isto significa? Isso significa que a defesa que o primeiro filósofo faz da sua ideia não se dá no plano puramente argumentativo, no plano do convencimento. A defesa se dá no plano da arena, da luta, nas discussões, nos meandros institucionais, nos bastidores, nas fofocas de corredor etc; e se o primeiro filósofo tem meios de eliminar os outros 3 (não necessariamente seus corpos, mas a expressão das suas ideias), valer-se destes meios faz parte de uma luta política-filosófica legítima. O primeiro filósofo ganhar a disputa não tem nada a ver com ele descobrir ou aproximar-se da verdade, ou ter melhores argumentos, tem a ver com ele se sobrepor aos demais em poder, em ser mais capaz que os demais em criar, forjar e impor "a verdade".

Eu acho que a prudência em não aceitar tout court qualquer ideia como guia para a prática não depende de um pano de fundo metafísico acoplado de ceticismo. A própria aceitação de um plano político envolve reconhecer que o outro está legitimado em lutar, sim, lutar, por uma ideia oposta a sua sem ter necessariamente de ter argumentos que, aos seus olhos, convençam. É exatamente por isso que taxamos a postura deste outro de política e não de teórica. Porém, sob o risco de esvaziar o próprio plano político, nem toda postura/atitude é legitimamente política. Necessariamente reconhecemos limites, ainda que móveis, para as posturas legitimamente políticas. Ou seja, mesmo quando pensamos apenas politicamente, reconhecemos certas restrições sobre o que podemos fazer. E destas restrições inerentes à política podemos extrair prudência para o agir. Eu não uso o máximo do meu poder para fazer valer a minha ideia justamente por reconhecer que este atropelo brutal do outro desqualifica a minha luta como legítima.

Onde há pouco acordo e muita divergência, há infelizmente uma forte tentação pela arbitrariedade.

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