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[140] Palestra de Julio Cabrera e a trágica história da filosofia brasileira.

Esta é uma importante palestra de Julio Cabrera sobre o estado da filosofia ibero-americana, em especial, a brasileira e a argentina. Todos os alunos de filosofia em terras brasileiras deveriam assistir esta palestra, ela contém informações e discussões valiosas para o modo como estes alunos podem pensar e encaminhar a sua formação filosófica. Chamo atenção para dois pontos: (1) a filosofia profissional brasileira, tal como foi implantada em nosso país, acovardou o nosso pretendente à filósofo a ponto de ele sentir vergonha de se proclamar como tal; na melhor das hipóteses, ele se vê como um historiador da filosofia, um professor de filosofia ou meramente um comentador de filosofia. Curiosamente, como nos lembra Cabrera, não foi sempre assim. No final do século XIX, tivemos respeitáveis filósofos. Farias Brito, Tobias Barreto e muitos outros, ainda que suas filosofias fossem falhas ou mesmo fracas. Temos de lhes dar um desconto, já que, nesta época, o acesso a livros neste país era parco e nem tínhamos ainda um sistema universitário. Muitos desses filósofos eram auto-didatas. De qualquer forma, foram filósofos, tinham atitude de filósofo. Que atitude é esta? A atitude de questionar criticamente as filosofias que estão absorvendo, seja a de Platão, seja a de Kant ou Hegel. Não só a atitude crítica, mas também e principalmente a propositiva. Eles tentaram resolver problemas filosóficos e articular sistemas filosóficos. Se obtiveram sucesso ou não, é outra questão. Mas, por esta atitude crítica e propositiva, foram genuínos filósofos. Quem olha para a robusta academia brasileira de filosofia e inspeciona a sua produção nos últimos 40 anos, não vai encontrar este espírito filosófico nas inúmeras teses, dissertações e artigos que são produzidos. Comentamos, comentamos e não cansamos de comentar. Cabrera chega a dizer: tivemos filósofos sem filosofia, agora temos muita filosofia sem filósofos. Trágica situação, que é preciso mudar. Não há dúvidas de que temos de resgatar a atitude filosófica de nossos antigos intelectuais. (2) O segundo ponto diz respeito à natureza da filosofia. Cabrera se esforça por não tomarmos a questão como fechada. Não teremos avançado muito filosoficamente se apenas substituirmos os nossos comentários sobre filósofos europeus por reflexões que visem responder problemas filosóficos herdados da tradição europeia. O ponto não é defender uma filosofia nacional, o que, ele reconhece, seria descabido. A filosofia é universal. O ponto é não tomar a tradição filosófica como estipulando limites rígidos do pensamento filosófico ou do que é filosófico. De nacionalista, apenas o seguinte: não podemos apenas importar, ou mesmo nos limitar a montar a filosofia em terras brasileiras, temos também de produzi-la e criá-la. O filósofo no extremo da autenticidade alarga criativamente os limites da própria filosofia.

Um passo de cada vez. Neste momento, eu penso, já fazemos muito nos libertando das obrigações exegéticas, o que não implica obviamente reprovar as práticas exegéticas ou mesmo considerá-las de menor valor. É certo, porém, que não há qualquer razão para que elas sejam hegemônicas em nossa academia. A este respeito sou enfático: elas não devem ser hegemônicas.

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