Pular para o conteúdo principal

[143] Sobre a natureza da filosofia

Se o que é filosofia ou filosófico fosse sempre decidido pela tradição filosófica, estaríamos até hoje às voltas apenas com a pergunta de Tales: qual é o princípio básico de onde provém todas as coisas? A história da filosofia é um contínuo processo de extensão criativa da própria filosofia. Tenho a impressão de que o mesmo vale para qualquer saber particular, talvez em menor grau. Será que os gregos contariam o cálculo de probabilidade como pertencendo à aritmética e os fractais como pertencendo à geometria? Sem tomar ciência do desenrolar da própria matemática entre lá e cá, dificilmente. Outro exemplo: na cabeça de um grego antigo, "teoria do caos" seria uma contradição em termos. Atualmente, esta expressão designa um corpo de conhecimento relativamente corroborado. Ou seja, até aonde vai a teoria é algo que não podemos agora estabelecer em definitivo, muito embora tenhamos, do nosso ponto de vista atual, limites bem definidos para o que contar como teoria. O mesmo vale para a filosofia. Sua sina, ainda mais que a de outros saberes particulares, é se estender.

Cabrera nos chama a atenção (veja [140]) para o seguinte: enquanto o filósofo europeu-americano imerso na sua tradição filosófica não exerce absoluta parcimônia sobre a sua própria tradição, forçando-a aqui e ali a estender-se, nós, herdeiros canhestros desta tradição, paradoxalmente adotamos a atitude de maior conservadorismo possível diante desta tradição. Tomamos como diamante puro e lapidado aquilo que nem absolutamente nos pertence. Falta-nos não só lapidar o diamante, como cavucar em nossas minas os nossos próprios. Se eles podem estender a filosofia, nós também podemos.

Se a falta de ligações explícitas com a tradição filosófica nos faz ver um texto como menos filosófico tanto pior para a nossa visão filosófica. A filosofia não deveria se orgulhar de uma visão míope. O fato, por exemplo, de a tradição filosófica européia-americana ter, nos últimos dois séculos, se aproximado enquanto gênero do artigo científico, do paper, em detrimento dos diálogos, dos ensaios e sabe-se lá de que mais outros gêneros, só depõe contra a filosofia enquanto filosófica, pois ao invés de fomentar a sua extensão, força a sua redução a apenas uma de suas facetas.

Não se deve esperar do vôo filosófico a mesma parcimônia do rastejar físico. As semelhanças de família entre as entidades filosóficas são como as semelhanças entre indivíduos de uma família altamente miscigenada; já as semelhanças de família entre teorias científicas estão mais próximas das semelhanças entre indivíduos de uma família austríaca ou japonesa. Entre o primeiro grupo de semelhanças e o segundo, há uma diferença de grau substancial. Com isto quero dizer que há prima facie mais espaço na filosofia para a criatividade que na ciência ou que a primeira é mais flexível e extensível que a segunda.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[194] Notas sobre a ética da crença

Resolvi organizar um pouco as minhas notas sobre um tema do qual a esfera pública, especialmente em tempos de pós-verdade, parece cada vez mais carente, a saber, a ética da crença.
Resumo:

Neste artigo, discuto a norma defendida por Clifford de que somente a crença baseada em indícios suficientes é legítima. Articulo os dois principais argumentos apresentados por Clifford em favor dessa norma, um que apela para o valor instrumental da crença baseada em indícios, e um segundo que apela para a credulidade acarretada e a corrupção da capacidade de evitar o erro se negligenciamos a referida norma. Sustento que o primeiro argumento é insuficiente para estabelecer a norma em geral. Crenças que não são meios para ações ficam de fora do escopo do primeiro argumento. O segundo argumento tem um alcance mais abrangente. Contudo, ele pode ser bloqueado se o agente segue uma norma intelectualista que visa insular as crenças injustificadas do restante da sua vida cognitiva e ativa. É uma questão …