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[144] Somos realistas sobre a causa da dor, mas imaterialistas sobre a sensação de dor.

Continuado a discussão sobre dor ([137]), pretendo expor o seguinte: o senso comum embute tanto a tese de que a dor persiste quando não é atendida/percebida (realismo a respeito da dor) quanto a tese de que a dor só existe quando é atendida (imaterialismo a respeito da dor). Colocado nestes termos, o senso comum embutiria, então, uma contradição. No entanto, meu ponto essencial é que o realismo diz respeito à causa da sensação de dor e o imaterialismo diz respeito à sensação de dor propriamente. Não há desta forma contradição. O que acontece é que a mesma expressão, i.e. "dor de cabeça", pode ser usada em alguns contextos para se referir à causa da dor e, em outros, à sensação de dor. Vejamos algumas situações que ilustram este ponto.

Fui dormir sentindo dor de cabeça. Adormeci e sonhei. No meio do sonho, acordei e logo tomei a consciência dolorosa de que a minha dor de cabeça não havia passado. De imediato, lembrei-me que, no sonho, sentia-me bem. Pode-se contestar a fidelidade da minha memória, mas tendo pensado isso a respeito de um sonho que estava em curso logo após acordar, parece-me razoável supor que esta memória é correta. Eu estava sonhando, logo, eu estava tendo algum tipo de consciência, mas não estava ciente da dor.

Vejo-me, então, às voltas novamente com a questão da realidade não-percebida ou não da dor. Pode a dor persistir enquanto ela não é sentida? A expressão "a minha dor de cabeça não havia passado" pode ser enganadora se nos leva a pensar que a dor de cabeça, isto é, a sensação dolorosa tipicamente provocada por cefaleia, persistiu todo o tempo, como se ela, de fato, não tivesse deixado de ser todo esse tempo em que estava dormindo e sonhando. Mas não é necessário que a expressão seja interpretada assim. Com ela podemos querer indicar apenas que, seja lá qual for a causa neurológica da dor de cabeça, ela persistiu, ela não deixou de ser. O termo "dor de cabeça", nesta interpretação da referida expressão, não se refere à dor de cabeça, à sensação de dor, mas à causa da dor de cabeça. Outra situação: torço o pé enquanto ando e provoco uma lesão muscular que gera muita dor quanto tento me apoiar sobre este pé. Mais tarde, deitado na cama, me perguntam: "a dor no pé passou?". Não sinto nada, mas ao tentar me levantar, sinto a forte dor muscular e respondo: "não passou" ou "meu pé ainda dói". Com esta frase não quero dizer que a dor muscular sentida persistiu todo este tempo, mas sim que a sua causa persiste.

Em outras construções, "dor de cabeça" claramente se refere à sensação de dor. Quando digo, por exemplo, que a "minha dor de cabeça está muito forte" refiro-me à sensação de dor, é sobre ela que afirmo a sua intensidade. Não faz sentido dizer da causa da dor de cabeça que ela é muito ou pouco forte, ainda mais se levarmos em contra que sequer temos acesso epistêmico direto à causa da dor de cabeça. Não vejo o meu cérebro.

A frase "Eu tenho dor" não é equivalente à frase "Eu sinto dor", pois há situações em que se usa "Eu tenho dor" para se referir à causa da dor e não à sensação de dor. "Eu tenho dor" pode ser uma forma abreviada de dizer "Eu tenho dor de dente", ou "Eu tenho dor de cabeça", ou "Eu tenho dor na perna", mesmo que, no momento em que a frase é proferida, não se esteja sentindo dor, pois, por exemplo, sua atenção está concentrada em outra coisa. Com estas frases, a pessoa não expressa a sua dor, mas comunica ou relata o dano ou injúria física que alguma parte do seu corpo está sofrendo. As mesmas frases, em outros contextos, expressam a dor. Nestes contextos, "Eu tenho dor" é equivalente à "Eu sinto dor".

Parece-me perfeitamente normal, o seguinte diálogo entre A e B:
A: Você não parece bem, há algo errado?
B: Estou com um pouco de dor de cabeça.
Então A e B começam a discutir filosofia atentamente. Depois de um certo
tempo, A observa.
A: Você parece melhor agora, a dor de cabeça passou?
B responde de imediato e sem qualquer movimento introspectivo: Parece
que sim.

O fato de B poder dizer "parece que sim" com sentido implica que ele poderia estar errado, ou seja, implica que ele poderia estar com dor de cabeça, mas não percebê-lo. De duas uma: ou a sensação de dor pode existir sem ser percebida (o que parece contraditório) ou a causa
primordial da sensação de dor de cabeça pode estar atuante sem necessitar o seu efeito: a sensação de dor. Temos como decidir?

Austin nos dá uma pista. Ele diz o seguinte sobre as distinções: "uma distinção que, na verdade, não somos capazes de estabelecer é - para dizê-lo delicadamente - uma distinção que não vale a pena fazer" (Sentido e Percepção, p. 106). Este ponto aplicado à questão acima redunda no seguinte: se não somos capazes de estabelecer a distinção entre ser uma sensação de dor sentida e ser uma sensação de dor não-sentida, então é melhor não fazer esta distinção. Só iremos cair em confusões se o fizermos. Um pato, enquanto eu o vejo, existe e continua a existir quando lhe viro as costas. Fulano, que se encontra no ambiente e o vê, grita para mim: "o pato está a andar". Eu posso ter dúvidas de que se trata do mesmo pato que estava a ver e lhe pergunto se ele tem a mancha abaixo do olho que havia observado e fulano confirma. Talvez isto apenas mostre que o pato é/existe sem ser sentido por mim, mas não que ele é/existe sem ser absolutamente sentido por alguém, já que fulano agora o observa. Não importa, já estabelecemos uma distinção aqui: ser um x sentido por mim e ser o mesmo x, mas não sentido por mim. Se nem esta distinção for possível estabelecer em relação à sensação de dor, então muito menos essa: ser uma sensação de dor sentida por alguém e ser a mesma sensação de dor, mas não sentida absolutamente por ninguém.

Qual é a dificuldade para estabelecer a distinção mais fraca? O ponto é que não tenho qualquer critério de identidade para a sensação de dor atendida além de ela ser atendida/sentida. Já o pato posso tanto ver quanto tocar. Tenho como individuar o pato por duas modalidades perceptivas distintas. E como sei que se trata do mesmo pato? Ora, posso ver e tocá-lo simultaneamente. Mas não tenho como individuar a sensação de dor a não ser sentindo-a. Que outro critério me permite aferir que a sensação de dor persiste quando não é atendida? Não parece haver tal critério alternativo e, na sua ausência, não temos como estabelecer a distinção entre a sensação de dor sentida por mim e a mesma sensação de dor porém não sentida por mim. Sem esta distinção, podemos dizer que o ser e o ser percebido da sensação de dor coincidem completamente ou melhor que todo o ser da sensação de dor se resume no seu ser percebida/atendida.

A situação é diferente quando se trata da causa da dor. Muito embora a situação normal seja inferir a sua existência a partir da sensação de dor, em muitos casos posso ver a ferida e mesmo quando não podemos ver a injúria, como no caso da dor de cabeça, que nem é na verdade uma lesão no tecido cerebral, mas alguma configuração atípica dos neurônios e neurotransmissores, há certas crenças teóricas que permitem individuar esta configuração mesmo na ausência da sensação de dor. No caso da causa da dor podemos, então, falar de algo que persiste mesmo quando não é sentido; aliás, persiste mesmo quando o seu efeito padrão, a sensação de dor, não é sentida.

As situações da causa da dor de cabeça e da sensação de dor não são simétricas. Temos crenças teóricas sobre estados cerebrais bem corroboradas para individuar a mesma causa da dor de cabeça que individuo indiretamente por estar atento ao seu efeito, a sensação de dor. Mas não temos quaisquer crenças teóricas sobre estados mentais que individuem a mesma sensação de dor que individuo diretamente ao estar atento a ela. Nossa psicologia popular não foi tão longe a ponto de elaborar crenças e conceitos sobre estados mentais de tal forma que fizesse sentido falar em particular do estado mental de dor que ele tem o caráter fenomenológico que tem, isto é, é dado de algum modo à uma consciência, porém não é atendido. Como já disse, essa idéia soa inclusive contraditória. Como o caráter fenomenológico da dor, que, a princípio, parece indissociável do estar ciente, pode persistir quando não estou atento a ele?

Pode ser que a ciência da consciência (não necessariamente a ciência do cérebro ou a neurologia) se desenvolva a ponto dar sentido à idéia da persistência da sensação de dor mesmo quando ela não é atendida. Pode ser que venhamos a fazer distinções entre diferentes níveis de consciência e atenção de tal modo que faça sentido dizer de uma sensação de dor que ela persiste mesmo quando não-atendida. Mas se isso acontecer, em um certo sentido mais profundo, 'sensação de dor' não significará mais o que atualmente significa.

Até lá me alinho com o senso comum: imaterialista quanto à sensação de dor e realista quanto à causa da dor.

Comentários

Concordo com tudo. Muito claro e bem argumentado. Eu apenas acrescentaria algo com relação ao exemplo da dor no pé. Costumamos dizer "Meu pé ainda dói" mesmo quando não estamos sentido a dor no momento em que o dizemos. Essa é uma abreviação, naquele contexto, de "meu pé ainda dói quando piso". Além disso, o fato de dizermos que o pé dói, ao invés de dizermos que ainda sentimos dor, indica que não estamos falando da dor, mas da sua causa, que ela ainda é operante em certas condições.
Eros disse…
Obrigado, Alexandre. Boa dica de acréscimo, vou incorporá-lo.
Abraços,
Eros.

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