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[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos sobre qual estado o indivíduo A se encontra. Também não há muita dificuldade, ao observar um indivíduo A, em saber se ele está dormindo e provavelmente sonhando ou em vigília. Para distinguir a percepção em ordem da alucinação precisamos apenas de alguns relatos de A sobre o que ele vê.

A dificuldade filosófica real aparece quando abandonamos a perspectiva da terceira pessoa e assumimos a perspectiva da primeira pessoa. Nos colocamos no lugar de A e agora nos perguntamos se podemos saber em qual situação de experiência nos encontramos: estamos a sonhar, a perceber ou a alucinar? A pergunta pode ser de difícil ou fácil solução conforme os recursos que admitimos como legítimos na resposta. Se o sujeito só pode apelar à sua experiência presente, então ele teria de encontrar nas características da sua experiência presente evidência suficiente para distinguir entre os três estados de experiência.

Geralmente, podemos distinguir sonho de percepção pelo fato de o primeiro ser mais caótico, incoerente e menos sistemático que a percepção. As mudanças na experiência de sonho são muito mais rápidas, drásticas e arbitrárias do que as que encontramos na experiência perceptiva. Estas características mais gerais a respeito de como a experiência se organiza e se compõe serviriam, assim, para separar sonho de percepção. No entanto, o conhecimento destas diferenças depende
da memória e de um acesso independente às experiências de sonho e de percepção de modo que se possa associar determinadas características a um tipo de experiência e outras características a outro tipo de experiência. Esta via de distinção não está, portanto, disponível para aquele que considera legítimo apenas a experiência presente.

O que se pede da experiência presente é muito mais do que ela pode fornecer. Pede-se dela que ela contenha em si, no modo como ela aparece ao indivíduo, uma certa marca inconfundível que seja suficiente para apreender o seu tipo: sonho, percepção ou alucinação. Espera-se que uma
qualidade intrínseca da experiência contenha evidência sobre uma outra qualidade ou propriedade da experiência que talvez seja extrínseca e relacional. O fato de uma experiência ser uma experiência de sonho, perceptiva ou alucinatória é, talvez, uma característica que depende da relação desta experiência com outros fatores do indivíduo e/ou do mundo. Se a diferença entre estas experiências é relacional, então obviamente não temos como distingui-las a partir da experiência presente apenas.

Como decidimos, no entanto, se a diferença entre estas experiências é relacional ou não? Mesmo supondo que haja uma diferença intrínseca, isto é, que ter a experiência de sonho é qualitativamente distinto de ter a experiência perceptiva, que também é qualitativamente distinto de ter a experiência de alucinação, ainda assim, apenas pela experiência presente, não temos como atribuir facilmente ao sujeito o conhecimento do tipo de experiência que ele tem. Como ele não pode ter, ao mesmo tempo, a experiência de sonho e de percepção, ele não tem como dizer qual é qual. Mas até isso é problemático: mesmo que ele pudesse ter os dois tipos de experiência simultaneamente, para distinguir um do outro e dizer qual é qual, ele já teria de ter previamente o conhecimento destes tipos, através do qual ele reconheceria, então, as suas instâncias. Ou seja, alguma versão do mito do dado, tal como caracterizada por Sellars, teria de ser defendida. Se o indivíduo tem ao seu dispor apenas a experiência presente e não pode apelar a qualquer outro saber para distinguir sonho de percepção, então a única forma de ele saber que a experiência presente é, por exemplo, uma experiência de sonho depende de ele ter a capacidade de identificar diferentes experiências de sonho como sendo do tipo sonho. Tal capacidade tem de ser inata ou pelo menos independente da aquisição de qualquer outro conhecimento.

Mesmo que não seja razoável atribuir este tipo de conhecimento a um sujeito, não podemos descartar a possibilidade de que as experiências de sonho, de alucinação e de percepção sejam intrinsecamente distintas. O fato de o sujeito não ter a capacidade de distinguir uma experiência da outra independentemente de outras coisas que ele sabe ou venha a saber não implica que estas experiências não sejam intrinsecamente distintas. Estas experiências podem ser qualitativamente distintas mesmo que eu não as reconheça como qualitativamente distintas. É claro que eu as percebo como qualitativamente distintas, isto é, o caráter delas, enquanto propriedade intrínseca da experiência, está presente para mim em minha experiência. Contudo, reconhecer tal caráter demanda mais do que isto.

Comentários

Lucas Lazzaretti disse…
Primeiramente, meus saudosos parabéns pelo texto. Está muito bem escrito e as idéias bem concatenadas. Portanto me limitarei a tecer um pequeno e despretensioso comentário sobre o tema que você tratou. Sendo assim, me perdoe se minha compreensão foi deturpada ou simplória. Mas começo com o seguinte questionamento; dentro da diferença entre percepção, sonho e alucinação, há algo que é em verdade um ponto de intersecção? Ou seja, há entre essas três formas de relação fenomênica algo que seja comum entre elas? Pois bem, acredito que sim. Intrinsecamente o sonho e a alucinação são deturpações das bases fornecidas pela percepção. Por mais que os sonhos se caracterizem por um caráter caótico, em sua maioria, não devemos esquecer sobre aqueles sonhos que nos fornecem sensações tão fortes que chegamos a confundir por um momento com a realidade. O mesmo segue para as alucinações. Sob efeito de uma droga, ou até mesmo um esquizofrênico tem relações sensitivas, estabelecem uma relação fenomênica que é facilmente confundida com a realidade. Exemplifica-se com casos como o do matemático John Nash que por muito tempo estabeleceu contato com pessoas que de fato não existiam.
Quero chegar com essas divagações ao ponto culminante que afirma que para que os sonhos e alucinações se estabeleçam é preciso que exista um padrão para seguirmos. Até mesmo os quadros de Salvador Dali captam sua surrealidade a partir de uma realidade possível. Se sonhamos com aranhas gigantes, ou temos alucinações desse tipo é devido ao fato de que nossas percepções forneceram subsídio para tal, em outras palavras, já percebemos as aranhas.
Fica assim estabelecido que há um conjunto maior que poderia ser conhecido como conjunto das percepções e dois conjuntos menores que são inseridos no conjunto da percepção, e são esses conjuntos o dos sonhos e o das alucinações. Há diferença entre sonhos e alucinações? Parece haver. Os sonhos não seguem a seqüência comum a percepção. Os sonhos tomam como base fundamental a realidade fornecida pela percepção, mas não seguem a linearidade pertinente a percepção. As alucinações em contrapartida têm como plano de fundo a realidade linear da percepção, porém tem inserida nessa realidade fatos que destoam com maior ou menos grau. Podemos ver, quando alucinados, uma simples criança que está em todo lugar em que vamos, ou até mesmo um pequeno cavalo branco com um chifre na cabeça. Ora, como distinguir então a percepção de sonho e alucinação? A percepção seria o campo em que as relações fenomênicas se dão de uma forma previsível, esperada. Os sonhos são onde as relações se dão com base na realidade, mas todo o "palco" se encontra deturpado. Na alucinação o "palco" se encontra fixo e os “atores” são alheios a peça. Quem nos fornecerá subsídios para a compreensão sobre qual experiência estamos tendo é, no fundo, o conhecimento dessas diferenças. Se fossemos jogados em um livro de Júlio Verne, na viagem ao centro da terra, poderíamos supor que estávamos sonhando. O palco se encontraria deturpado, como é o caso de Alice nos País das Maravilhas de Lewis Carroll e Dreams do Kurosawa. No entanto, ao vermos o filme "Clube da Luta" temos uma viva demonstração de alucinação, como também em alguns contos de Edgar Allan Poe.
Espero ter me feito claro, o que acho difícil em um assunto tão tortuoso, e com o qual você lidou com maestria. Ao dispor para futuras conversas.
Eros disse…
Oi Lucas,

Excelentes reflexões, você desenvolveu muito bem algumas diferenças entre sonho, alucinação e percepção na terceira pessoa. Acho que tem de ser por aí mesmo. Questionei se era possível distinguir estes tipos de experiência tendo em vista apenas a experiência presente pois esta é a postura cartesiana hiperbólica. Esta postura tenta extrair do fato de não podermos distinguir um tipo de experiência do outro o fato de não sabermos quais experiências são percepções verídicas. Mas este é um argumento que não dá para levar adiante se de partida já não podermos dar sentido à distinção entre sonhos, alucinação e percepção. Quem está preso à experiência presente e ao acesso que se tem dela apenas pela primeira pessoa, não tem como levantar a distinção, eu acho. Não tem como pensá-la.
Anônimo disse…
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