Não faz muito sentido esperar ou por um evento muito pouco provável, ou por um evento muito provável, se desconsiderarmos os benefícios que se pode obter com a ocorrência do evento. Sendo assim, uma espera é mais racional quanto mais a probabilidade de ocorrer o evento esperado estiver próxima de 0.5. Mas não se trata aqui da probabilidade objetiva e sim da probabilidade estimada, ou da probabilidade de um evento ocorrer relativamente ao conhecimento que o sujeito tem. Em outras palavras, um evento pode ter a probabilidade 1, mas, para um determinado sujeito, em virtude do que ele sabe, sua estimativa pode ser de que a probabilidade deste evento ocorrer seja 0.5. É racional que ele espere a ocorrência deste evento. Outro fator que pesa sobre a racionalidade da espera é o bem ou prejuízo que a ocorrência de um evento pode acarretar para um sujeito. Novamente, devemos entender o bem/prejuízo estimados. Quanto maior o bem decorrente de um evento, mais racional é a espera pela ocorrência deste evento. A probabilidade de um evento ocorrer e o bem acarretado pela ocorrência de um evento não caminham lado a lado e um pode contrabalancear o outro. Esperar por algo muito pouco provável é irracional, mas se o benefício do que se espera for muito grande, então essa espera se torna racional.
Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...
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