Solidão fabricada: emerge quando a sua razão fica febril o suficiente para aceitar a dúvida cética. Primeiro você corta o seu contato com o mundo, expulsando-se dele. Este efeito é obtido por um processo de inflação infinita do Eu. De uma hora para outra, você se apropria do mundo no qual habita, dizendo-lhe só seu, produto da sua subjetividade. Não apenas as suas sensações e percepções são suas, o que é óbvio, mas também o conteúdo delas, o que não era óbvio. O mundo, então, diminui na medida que cresce o Eu. Você está agora sozinho no seu próprio mundo, na sua matrix. O próximo passo, já implicado pelo primeiro, é duvidar que as pessoas ao seu redor, que agora nem são mais pessoas, ao menos não com corpos, mas sim fabulações mentais, tenham uma mente, que elas tenham emoções semelhantes às suas e possam, assim, compartilhar o que você sente. Seu egoísmo com respeito ao seu, sim, só seu, mundo é tão gritante que lhe parece absurda a idéia de que outra pessoa pudesse compartilhá-lo. Se mente ou subjetividade é o que você tem, então ninguém mais a tem. A solidão que antes era apenas física, agora se torna também mental. Absoluta. Ninguém jamais poderá te entender e compreender. Então, você se sente terrivelmente só. Idéias têm poder sobre a emoção. Podemos dizer que este tipo de solidão é burguesa, está disponível aos poucos que têm acesso ao mercado de idéias metafísicas. E assim a filosofia pode vender solidão e depressão a quem não basta ter essas coisas sem uma razão.
Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.
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