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[66] Obter a verdade vs. obter a verdade garantidamente.

Na primeira meditação, Descartes afirma que a sua razão lhe diz para se abster de dar o seu assentimento não só a opiniões que sejam obviamente falsas, mas também a opiniões que não sejam completamente certas e indubitáveis. O corolário dessa afirmação é que, se você tem uma razão para duvidar de uma opinião, então está justificado em rejeitá-la. No entanto, Descartes não nos dá nenhuma razão para a sua afirmação inicial. Não é claro que devamos rejeitar uma opinião que não seja completamente certa. De onde provém a justificativa para este dever? Um motivo seria evitar o engano. Embora, por razões práticas, seja vantajoso evitar o engano, não é, ao mesmo tempo, vantajoso evitá-lo pelo preço de rejeitar todas as crenças incertas. Mas há razões teóricas para se evitar o engano. Se o seu objetivo é descobrir quais das suas opiniões são verdadeiras, então deve evitar o engano e, assim, rejeitar tudo que não for completamente certo. O que temos aqui é um raciocínio instrumental de adequação de meios a fins. Se a finalidade é obter a verdade, então o meio é evitar o engano. Mas há um certo exagero aqui. Embora evitar o engano seja um meio para obter a verdade, não é claro que ele seja o único meio. Descartes talvez dissesse que é o único meio que garante a obtenção da verdade, enquanto outros meios pudessem obtê-la sem dar a garantia de que realmente a obtiveram. Se assim for, então não podemos dizer que a finalidade de obter a verdade isoladamente justifica o dever de se evitar o engano. Precisamos encorpar essa finalidade para que ela suporte a afirmação inicial de Descartes. Precisamos dizer que a finalidade é obter a verdade garantidamente, com absoluta certeza. Mas, então, fica evidente que o dever de só aceitar o que é completamente certo já está embutido na finalidade e, assim, esta não serve para justificar aquele.

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