Não é pouco comum o depressivo lançar-se mão da idéia não-voluntarista de que lhe é completamente impossível alterar as suas paixões. Seu fado, seu sofrimento, sua depressão são experiências que ele sofre sem qualquer escolha. Ele padece a própria dor, está a ela aprisionado, o que torna o seu martírio ainda maior: como se não bastasse a dor emocional propriamente dita, tem ainda de encarar a sua própria impotência e fraqueza. Embora essa idéia tenha uma boa dose de verdade, o seu exagero torna-se mentiroso. De fato, as paixões, as emoções são fenômenos que padecemos, nos ocorrem. No entanto, se, por um lado, não é possível que tragamos à tona uma paixão diretamente por uma decisão, por uma volição, é, por outro, perfeitamente factível fomentar e causar indiretamente uma paixão ou emoção pelo raciocínio, deliberação ou imaginação, dimensões da mente que estão sob razoável controle da volição. Não é, aliás, por outro meio além da estimulação da imaginação, que a retórica obtém a sua finalidade do convencimento. O discurso é pintado de imagens que nos sensibiliza, emociona e, assim, adocica o julgamento. Ora, o próprio sujeito pode usar a retórica para manipular a sua saúde mental. Basta que se conheça o suficiente e aprenda as leis associativas da sua própria mente, percebendo quais imagens geralmente despertam quais emoções, para fomentar imaginações em conformidade com estas leis. O depressivo, na verdade, sabe disso, inconscientemente ele usa essa estratégia, mas não para o seu bem e sim para aprofundar ainda mais a sua dor. Quando o depressivo pinta a sua dor com os tons mais lúgubres do cinza e do negro, está ele exercendo a sua vontade de poder, sobre si mesmo, é verdade, despertando por meio de uma imagem funesta a compaixão dele por ele mesmo. E se já não bastassem a dor emocional propriamente dita e o sofrimento por reconhecer a própria fraqueza, agora ele terá também de padecer a compaixão que ele mesmo despertou em si. De fato, o depressivo é um doente, um doente parcialmente responsável pela sua própria doença.
Voltei ao assunto da ética da crença (veja aqui a minha contribuição anterior 194 ) para escrever um texto que possivelmente será publicado como um verbete em um compêndio de epistemologia. Nesta entrada, decidi enfatizar três maneiras pelas quais a discussão sobre normas para crer se relaciona com a ética, algo que nem sempre fica claro neste debate: (1) normas morais servem de analogia para pensar normas para a crença, ainda que os domínios normativos, o epistêmico e o moral, sejam distintos; (2) razões morais são os fundamentos últimos para adotar uma norma para crer e (3) razões morais podem incidir diretamente sobre a legitimidade de uma crença, a crença (o ato de crer) não seria assim um fenômeno puramente epistêmico. O item (3) representa sem dúvida a maneira mais forte pela qual, neste debate, epistemologia e ética se entrelaçam. Sobre ele, abordei sobretudo o trabalho da Rima Basu que, a meu ver, é uma das contribuições recentes mais interessantes e inovadoras ao debate da ét...
Comentários