Pular para o conteúdo principal

[4]

O experimento referido em [3] foi formulado pelo psicólogo Peter Wason e ficou conhecido com o teste de seleção de Wason. O teste é simples. 4 cartas são dispostas com suas faces voltadas para cima. Essas cartas podem ter letras ou números em suas faces e contra-faces. Um exemplo seria a sequinte seqüência:

A B 2 1

Pede-se, então, aos participantes do experimento, que digam qual o número mínimo de cartas que eles devem virar para verificar o enunciado: se a carta tem uma vogal na sua face, então o elemento na face oposta é par.

O resultado surpreende é que aproximadamente 90% das pessoas escolhem as cartas A e 2, evidenciando a constância de um raciocínio que não se conforma com as condições de verdade da implicação material. A resposta correta é obviamente A e 1. Um enunciado da forma "Se A, então B" é falso apenas quando o antecedente é verdadeiro e o conseqüente é falso. Desta maneira, o enunciado a ser comprovado só será falso se a carta tiver a face A e a face oposta for impar ou, tendo uma face impar, a face oposta for uma não-vogal.

A dificuldade maior das pessoas está em perceber que o enunciado da forma "Se não-B, então não-A" é equivalente ao enunciado da forma "Se A, então B". Como são equivalentes, a falsidade do enunciado "se a face da carta é impar, então a face oposta é uma não-vogal" implica a falsidade do enunciado original. Deste modo, temos de virar a carta 1 para verificar se o enunciado original é verdadeiro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…