Pular para o conteúdo principal

[19]

Qual a duração de uma experiência perceptiva? Uma coisa é certa: sua duração é menor que o tempo requerido para que uma representação possa servir de premissa em um argumento. Eu posso ver que o vermelho-51 é diferente do vermelho-52, mas instantes depois, se me mostrarem um vermelho-52, não sei dizer se se trata do primeiro ou do segundo vermelho vistos inicialmente. A representação perceptiva do vermelho dura apenas enquanto o objeto vermelho está diante dos meus sentidos. E a memória do vermelho não seria a confirmação de que esta representação pode durar mesmo quando o objeto está ausente? Não, a memória do vermelho é uma representação resultante de um módulo mental que tem por entrada a representação perceptiva. Prova disto é que uma memória jamais é tão rica em detalhes quanto uma percepção. Memorizar é abstrair.

Uma inferência demanda um conteúdo relativamente duradouro por duas razões: (i) para que o conteúdo da premissa se veja refletido no conteúdo da conclusão ele precisa perdurar durante a transição dos estados envolvidos em uma inferência. (ii) para que o sujeito apreenda p como inferida de q e não de r, este sujeito precisa manter q na sua memória de trabalho. Como a experiência é fugaz, não podemos entender o seu papel de justificação pelo modelo da inferência. O conteúdo da experiência perceptiva não pode ser a premissa de um argumento.

Mas é óbvio que o modelo da inferência não esgota os modelos de justificação.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[197] Breve introdução à tese da mente estendida

A tese da mente estendida é distinta e não se confunde com o externismo acerca dos conteúdos mentais. Nesta breve introdução, apresento em linhas gerais o externismo acerca dos conteúdos mentais para, em seguida, contrastá-lo com a tese da mente estendida. Identifico e apresento, então, os principais comprometimentos da tese da mente estendida.

A tese do externismo acerca dos conteúdos mentais afirma que as relações causais que temos com o ambiente determinam, de alguma forma, o conteúdo dos nossos estados mentais, ou seja, aquilo que percebemos, ou aquilo acerca do qual pensamos algo, ou aquilo que desejamos etc. depende dos objetos com os quais interagimos causalmente. Um argumento comum em favor dessa tese é inspirado no argumento clássico de Putnam para o externismo semântico[1]. Imaginemos um planeta muito semelhante ao nosso, praticamente gêmeo nas aparências. Ele é abundante em um líquido muito semelhante à água, povoado com seres inteligentes como nós e que usam esse líquido…