Pular para o conteúdo principal

[19]

Qual a duração de uma experiência perceptiva? Uma coisa é certa: sua duração é menor que o tempo requerido para que uma representação possa servir de premissa em um argumento. Eu posso ver que o vermelho-51 é diferente do vermelho-52, mas instantes depois, se me mostrarem um vermelho-52, não sei dizer se se trata do primeiro ou do segundo vermelho vistos inicialmente. A representação perceptiva do vermelho dura apenas enquanto o objeto vermelho está diante dos meus sentidos. E a memória do vermelho não seria a confirmação de que esta representação pode durar mesmo quando o objeto está ausente? Não, a memória do vermelho é uma representação resultante de um módulo mental que tem por entrada a representação perceptiva. Prova disto é que uma memória jamais é tão rica em detalhes quanto uma percepção. Memorizar é abstrair.

Uma inferência demanda um conteúdo relativamente duradouro por duas razões: (i) para que o conteúdo da premissa se veja refletido no conteúdo da conclusão ele precisa perdurar durante a transição dos estados envolvidos em uma inferência. (ii) para que o sujeito apreenda p como inferida de q e não de r, este sujeito precisa manter q na sua memória de trabalho. Como a experiência é fugaz, não podemos entender o seu papel de justificação pelo modelo da inferência. O conteúdo da experiência perceptiva não pode ser a premissa de um argumento.

Mas é óbvio que o modelo da inferência não esgota os modelos de justificação.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[102] Relativismo e Irracionalismo

Irracionalismo é a tese de que os nossos julgamentos são arbitrários. O irracionalismo pode aplicar-se apenas a um setor do conhecimento humano. Por exemplo, podemos ser irracionalistas morais. Assim, julgamentos morais sobre como agir, o que fazer, o que é certo e errado são arbitrários, não temos uma razão para eles, eles não se fundam em nada que possa legitimá-los diante dos outros. Podem ser fomentados por nossas emoções ou desejos, mas nada disso tira a sua arbitrariedade diante da razão. Chegaríamos ao irracionalismo moral se tivéssemos razões para pensar que não há nada na razão que pudesse amparar julgamentos morais. Isto é, dado um dilema moral do tipo "devo fazer X ou ~X", não há ao que apelar racionalmente para decidir a questão. Donde se seque que, qualquer decisão que você tomar, seja a favor de X, seja de ~X, será arbitrária. Como poderia a razão ser tão indiferente à moralidade? Primeiro vejamos o que conferiria autoridade racional a um julgamento moral, pois ...

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elemento...

[205] Desafios e limitações do ChatGPT

  Ontem tive uma excelente discussão com o Everton Garcia da Costa (UFRGS) e André Dirceu Gerardi (FGV-SP), a convite do NUPERGS, sobre Desafios e Limitações do ChatGPT nas ciências humanas . Agradeço a ambos pela aprendizagem propiciada. Gostaria de fazer duas considerações que não enfatizei o bastante ou esqueci mesmo de fazer. Insisti várias vezes que o ChatGPT é um papagaio estocástico (a expressão não é minha, mas de Emily Bender , professora de linguística computacional) ou um gerador de bobagens. Como expliquei, isso se deve ao fato de que o ChatGPT opera com um modelo amplo de linguagem estatístico. Esse modelo é obtido pelo treinamento em um corpus amplo de textos em que a máquina procurará relações estatísticas entre palavras, expressões ou sentenças. Por exemplo, qual a chance de “inflação” vir acompanhada de “juros” numa mesma sentença? Esse é o tipo de relação que será “codificada” no modelo de linguagem. Quanto maior o corpus, maiores as chances de que esse modelo ...