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Alguma tese não deve ser discutida? Curiosamente, tenho a impressão que só faz sentido defender que determinadas teses morais não devem ser discutidas se mantemos uma concepção não-cognitiva dos valores. Se valores não possuem uma dimensão cognitiva, ou seja, se a aceitação ou não de um valor não é influenciada reflexivamente por informações que um sujeito possa vir a adquirir, então teorias morais que impliquem a rejeição dos nossos valores autalmente primordiais não devem ser discutidas, já que esta discussão pode vir a influenciar causalmente, mas não reflexivamente, na rejeição dos valores atuais. Mas, então, poder-se-ia replicar: por que mudar de valores seria algo necessariamente ruim? Aí depende do valor implícito que você já possui a respeito da mudança de opinições e valores. Se já aceito que não se deve mudar os valores primordiais e valores não têm uma dimensão cognitiva, então realmente faz sentido defender que teses contrárias ao valores primordiais não devem ser defendidas ou discutidas, sob o risco de influenciar causalmente a rejeitar valores primordiais.

Se valores têm uma dimensão cognitiva, se a posse de maiores informações ou uma compreensão maior dos próprios valores influi reflexivamente na aceitação dos mesmos, isto é, se a minha atitude diante de um valor se torna mais ou menos racional em função do conhecimento que adquiro, então não só podemos discutir quaisquer valores como temos o dever de fazê-lo. A réplica seria a seguinte: se eu tenho um conhecimento infalível de que o valor A é correto e primoridial, então nenhum conhecimento ou informação que eu venha a adquirir pode tornar a minha atitude favorável diante de A menos racional do que ela é autalmente. Neste caso, eu estou legitimado a negar qualquer discussão sobre o valor A. Mas tá pra nascer o sujeito que tenha esse conhecimento...Assim, só defende que a tese moral A ou B não deve ser discutida ou se se adota uma postura não-cognitiva dos valores, ou se, adotando uma postura cognitiva, se travista de dogmatismo.

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