Pular para o conteúdo principal

[23]

Alguma tese não deve ser discutida? Curiosamente, tenho a impressão que só faz sentido defender que determinadas teses morais não devem ser discutidas se mantemos uma concepção não-cognitiva dos valores. Se valores não possuem uma dimensão cognitiva, ou seja, se a aceitação ou não de um valor não é influenciada reflexivamente por informações que um sujeito possa vir a adquirir, então teorias morais que impliquem a rejeição dos nossos valores autalmente primordiais não devem ser discutidas, já que esta discussão pode vir a influenciar causalmente, mas não reflexivamente, na rejeição dos valores atuais. Mas, então, poder-se-ia replicar: por que mudar de valores seria algo necessariamente ruim? Aí depende do valor implícito que você já possui a respeito da mudança de opinições e valores. Se já aceito que não se deve mudar os valores primordiais e valores não têm uma dimensão cognitiva, então realmente faz sentido defender que teses contrárias ao valores primordiais não devem ser defendidas ou discutidas, sob o risco de influenciar causalmente a rejeitar valores primordiais.

Se valores têm uma dimensão cognitiva, se a posse de maiores informações ou uma compreensão maior dos próprios valores influi reflexivamente na aceitação dos mesmos, isto é, se a minha atitude diante de um valor se torna mais ou menos racional em função do conhecimento que adquiro, então não só podemos discutir quaisquer valores como temos o dever de fazê-lo. A réplica seria a seguinte: se eu tenho um conhecimento infalível de que o valor A é correto e primoridial, então nenhum conhecimento ou informação que eu venha a adquirir pode tornar a minha atitude favorável diante de A menos racional do que ela é autalmente. Neste caso, eu estou legitimado a negar qualquer discussão sobre o valor A. Mas tá pra nascer o sujeito que tenha esse conhecimento...Assim, só defende que a tese moral A ou B não deve ser discutida ou se se adota uma postura não-cognitiva dos valores, ou se, adotando uma postura cognitiva, se travista de dogmatismo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[200] A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação, segundo Reichenbach

A distinção entre contexto de descoberta e contexto de justificação é normalmente apresentada como marcando a diferença entre, por um lado, os processos de pensamento, teste e experimentação que de fato ocorreram em um laboratório ou em um ambiente de pesquisa e que levaram ou contribuíram para alguma descoberta científica e, de outro, os processos de justificação e validação dessa descoberta. Haveria, portanto, uma clara diferença entre descrever como cientistas chegaram a fazer certas alegações científicas, o que seria uma tarefa para as ciências empíricas, como a sociologia, a psicologia e a antropologia da ciência, e justificar essas alegações, o que seria uma tarefa para a epistemologia, uma disciplina normativa e não-empírica. Essa distinção é corriqueira em debates acerca do escopo da filosofia da ciência e teria sido explicitada inicialmente por Reichenbach. Contudo, quando examinamos a maneira como ele circunscreveu as tarefas da epistemologia, notamos que alguns elementos i…

[138] Sonhos, Percepção e Alucinação, uma diferença intrínseca ou extrínseca?

Sonhos são diferentes de percepções que são diferentes de alucinações. A diferença talvez não esteja, muito embora possa estar, na qualidade das experiências que se tem ao sonhar, perceber ou alucinar. Sonhar, perceber e alucinar são estados diferentes nos quais o sujeito pode se encontrar. O sonho é um estado de repouso, os sentidos estão adormecidos e, no entanto, o sujeito passa por algum tipo de experiência fenomênica. O perceber, ver ou sentir é um estado de alerta, os sentidos captam informações do próprio corpo e do ambiente circundante que são apresentadas através da experiência perceptiva do indivíduo. A alucinação é um estado de desajuste neurológico/psíquico do indivíduo: ele tem a impressão de ver coisas que, na verdade, não existem absolutamente nas suas imediações.

Na terceira pessoa, examinando o indivíduo A, estes três estados de experiência são claramente distintos e facilmente distinguíveis. Diferenças na atividade cerebral podem nos fornecer critérios não-duvidosos s…

[194] Notas sobre a ética da crença

Resolvi organizar um pouco as minhas notas sobre um tema do qual a esfera pública, especialmente em tempos de pós-verdade, parece cada vez mais carente, a saber, a ética da crença.
Resumo:

Neste artigo, discuto a norma defendida por Clifford de que somente a crença baseada em indícios suficientes é legítima. Articulo os dois principais argumentos apresentados por Clifford em favor dessa norma, um que apela para o valor instrumental da crença baseada em indícios, e um segundo que apela para a credulidade acarretada e a corrupção da capacidade de evitar o erro se negligenciamos a referida norma. Sustento que o primeiro argumento é insuficiente para estabelecer a norma em geral. Crenças que não são meios para ações ficam de fora do escopo do primeiro argumento. O segundo argumento tem um alcance mais abrangente. Contudo, ele pode ser bloqueado se o agente segue uma norma intelectualista que visa insular as crenças injustificadas do restante da sua vida cognitiva e ativa. É uma questão …