Passamos a maior parte do tempo desatentos para o que vivemos e sentimos. Ao final de um dia, são poucas as lembranças razoavelmente vibrantes que temos das quase 16 ou mais horas vividas. Assim, em um certo sentido, podemos dizer que passamos a maior parte do tempo alheios a nós mesmos. O ser humano se desconhece. No entanto, ao dizer isso, suponho que me conhecer envolveria ter consciência constante da minha própria experiência, isto é, que ao viver, eu deveria me acompanhar introspectivamente para ter uma compreensão mais clara do que sou ou vivi. Eu me pergunto se essa presença constante de si diante de si, além de impraticável, não seria também sufocante se possível. Um eu que se policia o tempo inteiro é um eu que se esmaga, sente o fardo da sua existência. Não é claro também que obtemos mais conhecimento do Eu prestando mais atenção nas experiências e nos sentimentos do que no conteúdo dessas experiência e sentimentos. Ambas as coisas parecem ter relevância. Conheço coisas diferentes ao ver uma árvore, por um lado, e ao me perceber vendo uma árvore, por outro. Mas ambas as coisas dizem respeito a mim, embora a primeira visão traga informação mais precisa sobre o mundo, já que ele é o foco da atenção. O que conheço de mim quando simplesmente vivo, quando vejo uma árvore sem ter consciência (de segunda ordem) de que estou a vê-la? Quando percebo o mundo, conheço, ainda que de maneira indireta e não reflexiva, a minha própria maneira de explorar o mundo. Obtenho um conhecimento prático do meu ferramental perceptivo. Se a minha vida fosse completamente introspectiva, eu perderia essa dimensão do meu ser, eu desconheceria as minhas maneiras possíveis de perceber e explorar o mundo. Eu também me conheceria menos, eu também estaria alheio ao meu próprio Eu. Sendo assim, parece-me razoável dizer que precisamos de um equilíbrio entre introspecção e percepção para o auto-conhecimento. Ademais, a introspecção não é infalível, podemos nos iludir sobre a própria experiência da mesma maneira como nos iludimos em uma ilusão de ótica.
Irracionalismo é a tese de que os nossos julgamentos são arbitrários. O irracionalismo pode aplicar-se apenas a um setor do conhecimento humano. Por exemplo, podemos ser irracionalistas morais. Assim, julgamentos morais sobre como agir, o que fazer, o que é certo e errado são arbitrários, não temos uma razão para eles, eles não se fundam em nada que possa legitimá-los diante dos outros. Podem ser fomentados por nossas emoções ou desejos, mas nada disso tira a sua arbitrariedade diante da razão. Chegaríamos ao irracionalismo moral se tivéssemos razões para pensar que não há nada na razão que pudesse amparar julgamentos morais. Isto é, dado um dilema moral do tipo "devo fazer X ou ~X", não há ao que apelar racionalmente para decidir a questão. Donde se seque que, qualquer decisão que você tomar, seja a favor de X, seja de ~X, será arbitrária. Como poderia a razão ser tão indiferente à moralidade? Primeiro vejamos o que conferiria autoridade racional a um julgamento moral, pois ...
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