Irrita-me sobretudo o ateu religioso, o qual não difere em quase nada, na sua forma, do religioso prosélito. Ambos se acham não só no direito, mas no dever de espicaçar a crença alheia com o intuito de lhe incutir a própria. No fundo, é um exercício de vaidade, uma cruzada para expandir-se nas terras mentais do seu vizinho, um desejo de se ver dominando o outro. O que há de errado nessa sede por poder? Nela, em si, nada. Nem posso ou pretendo provar errônea a coluna sobre a qual ela se apóia: a convicção de se estar absolutamente certo. Em verdade, eu poderia "prová-la" errônea com justificativas, mas nada que fosse suficiente para estabelecer a convicção absoluta, a imobilidade doxástica, pois, de outro modo, eu cairia em franca contradição. Contudo, eu daria uma prova provisória. E qual seria o meu comportamento correspondente? Ora, se tenho em mãos o certo incerto, não seria sábio usá-lo como arma para socar o outro. O risco de quebrar e eu mesmo apanhar, em resposta, é considerável. A abordagem a ser tomada é a da prudência. Eu mostro o meu certo incerto, floreio a sua beleza natural e não escondo os seus defeitos. Se o meu interlocutor se deixar afetar pela minha descrição, ele, por si mesmo, irá adicioná-la no seu estoque de crenças. Essa abordagem não é invasiva, mas diplomática, pois espera que o outro acolha o que você oferece. No entanto, ela serve igualmente para expandir o seu território. Uma vez que a sua semente está lá, ela pode germinar. Mas eu não provei absolutamente que o ateu religioso está errado, que ele se engana na sua pretensa certeza. O comportamento dele apenas me irrita, é isso. Temos morais diferentes diante do diálogo. E ele está errado, provisoriamente errado.
Um filme tem a capacidade de nos fazer imaginar e mesmo sentir, ainda que parcialmente, uma situação existencial possível. É por este motivo que filmes que condensam uma vida inteira, seja ela repleta de alegrias ou de tragédias, no espaço de uma ou duas horas são tão impactantes. Não fomos projetados para sentir tanto em tão pouco tempo. Mas sentimos e isso achochalha o nosso Eu.
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