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A segunda coisa que eu procurava fazer era apresentar o pensamento de cada escritor naquela que eu considerava a sua forma mais forte...Eu não dizia, não intencionalmente, o que pensava que um escritor deveria dito, mas antes o que o escritor de fato disse...O texto devia ser conhecido e respeitado, e sua doutrina apresentada em sua melhor forma...Sempre pressupus que os escritores que estudávamos eram muito mais espertos que eu...Se via um erro em seus argumentos, supunha que estes escritores também o teriam visto e teriam por certo se ocupado dele. Mas onde? Eu procurava por sua saída, não pela minha. Por vezes sua saída era histórica: em sua época a questão não precisava ser levantada, ou não surgiria, e não poderia, pois, ser prolificamente discutida. Ou havia uma parte do texto que eu negligenciara, ou não lera. Partia do princípio que jamais havia erros manifestos...Assim aprendemos filosofia...estudando os modelos...O resultado foi que eu relutava em levantar objeções aos modelos...eu raramente fazia quaisquer críticas. Meus esforços concentravam-se em tentar compreendê-lo de modo que me tornasse capaz de descrever suas idéias ao alunos. (John Rawls).

Em uma palavra: broxante. Claro que o pluralismo metodológico que herdei de Feyerabend impede-me de, numa situação imaginária de poder, vetar este tipo de abordagem, mas devo confessar que pessoalmente ela me desestimula. É o tipo de exercício exegético para o qual eu não nasci e não acredito que alguém aprenda realmente a filosofar por este caminho, muito embora em nosso país ele seja a regra nos cursos de filosofia. Vale salientar que Rawls começa bem lembrando que devemos nos preocupar em mostrar o pensamento de um filósofo na sua melhor forma, isto é, na expressão que o torna mais robusto, consistente e imune a críticas. Em outras palavras, ele nos recomenda usar o benefício da dúvida na interpretação, o que realmente é saudável. Contudo, há uma certa tensão nas metas do Rawls. Primeiro ele confessa que pretende expressar o que um autor realmente disse, pressupondo aí talvez a idéia de que existe a interpretação correta e ela é única. Nem vou enfatizar o quão questionável é essa idéia. Depois ele leva ao limite o benefício da dúvida, em níveis nada razoáveis, e diz que, se percebe um erro ou uma falha no autor, então ou o erro é mal colocado, por motivos históricos, ou ele, Rawls, não compreendeu bem o autor, ou ainda deixou passar algo desapercebido. A que nível da paranóia chegamos! Só faltou dizer que a resposta para o "erro" imaginado poderia também estar numa anotação do autor perdida ou mesmo já destruída. Mas por certo o autor viu e corrigiu o seu "erro", mesmo que jamais possamos sabê-lo. Essa duas demandas de Rawls, ser fiel ao autor e interpretá-lo com níveis paranóicos de benefício da dúvida, entram francamente em tensão, a não ser que realmente levemos a sério a idéia de que o autor é absolutamente imune ao erro, o que mesmo no caso dos gênios não me parece nada razoável. O gênio não é necessariamente alguém com uma capacidade sobrehumana de perceber a consistência do sistema que constrói. Muitas vezes ele é apenas alguém que viu antes dos demais algo que estava em curso, não sendo assim, sem entrar aqui na questão do que seja a inteligência, muito mais esperto que os demais. Em outras situações, o poder de um gênio se deve muito mais à sua criatividade que a sua capacidade lógica ou de raciocínio. Enfim, há uma grande variedade de gênios e mesmo aqueles que são reconhecidos pela sua absurda capacidade de pensar, de ver no global o entrelaçamento dos seus inúmeros pensamentos, também podem errar e alguém menos esperto do que eles pode vir a descobrir esse erro, ainda que, em alguns casos, de maneira um tanto fortuita. Sejamos razoáveis ao interpretar, sim, ao perceber um erro, procuremos mais um pouco por uma resposta no texto, tentemos conhecer mais o contexto histórico, mas não sejamos ridículos ao ponto de teimar que o erro não existe depois que nos esforçamos razoavelmente para esfumaçá-lo. Gênios também erram.

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