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Costumo dizer que o desejo é tudo que brota irrefletidamente das emoções e dos instintos mais básicos, ao passo que a vontade é um desejo sedimentado no curso de uma reflexão. A distinção é mesmo borrada, há casos nebulosos de desejo-vontade. De qualquer forma, pode-se enxergar na vontade um desejo sancionado, com intenções de universalidade e objetividade. Outra possibilidade seria dizer que a vontade, por ser fruto da adição de uma reflexão sobre o desejo, teria uma intimidade maior com o sujeito que os seus desejos, isto é, as suas vontades lhe seriam mais essenciais e os desejos mais acidentais. No entanto, é arbitrário dizer que a sanção da razão torna algo mais íntimo do sujeito que as suas emoções e instintos. Ou talvez não seja tão arbitrário assim. Uma possibilidade: a reflexão, por examinar simultaneamente distintas facetas do sujeito, suas inúmeras crenças e atitudes, é capaz de julgar quais desejos estão em maior conformidade com essa sopa confusa que é o sujeito. E o desejo simples seria então apenas a manifestação de uma única faceta do sujeito. Mas não quero dar aqui uma dimensão temporal à coisa. Um desejo reflete uma singularidade do sujeito, mas esta singularidade não precisa ser efêmera, ela pode ser intensa o suficiente para resistir ao longo do tempo, mesmo se estiver em desarmonia com todo o restante do sujeito. E nada impede que uma vontade seja efêmera, embora talvez seja mais raro, se o sujeito passar por um período de intensa reavaliação das suas crenças.

Falar que a vontade está em maior conformidade com o sujeito que os desejos pressupõe que haja uma certa coesão no próprio sujeito e aí reside uma grande dificuldade.

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